Teotônio Vilela

O Pacificador

 

As recordações do meu pai, o velho senador Teotônio Vilela, me trazem à mente um homem plural: o cidadão democrático, o político combativo, o empresário lutador, o leitor de todas as leituras, e também o vaqueiro de todas as toadas e o boêmio de todos os amigos.
Mas é a imagem do político estadista, do Menestrel que lutou pela liberdade ampla e irrestrita, com notável visão humanística, a que desenha com todas as cores e traços o perfil deste alagoano da Viçosa, na sua ousadia de percorrer a Nação defendendo o Brasil livre para todos os brasileiros.
Em nome da pacificação, Teotônio não hesitou em usar sua ira santa e sacudir esse país de norte a sul, com seu inconfundível e heroico grito de guerra, para que ao Brasil se resgatasse a soberania e, ao povo brasileiro, se alforriasse do arbítrio a justiça, os direitos sociais, as liberdades políticas. Sensível em detectar os anseios da nossa gente, ele enfrentou o poder e confrontou os poderosos em uma época de escuridão na liberdade de direitos e de expressão em nosso país.
Pregou de canto a canto e descobriu, na imensidão do nosso Brasil, uma Pátria. Falava duramente em defesa da democracia, mas não esquecia a ternura dos sonhos, a poesia da história, a polidez no trato com as nossas marcantes diferenças.
Entre o fisiologismo do poder e a solidariedade com a Nação, Teotônio soube ficar com o povo. Entre a força do Estado e a aparente fraqueza da sociedade, ele soube juntar sua voz ao clamor dos oprimidos. Entre a debilidade dos partidos políticos e a conveniência da governança, Teotônio manteve sua consistência ideológica. Com o gesto de coragem que lhe era comum, deixou para a política uma lição que não se exaure no tempo nem na prática.
Como filho, tenho legitimidade para afirmar que Teotônio não pertenceu unicamente à sua família. Sua bandeira e sua causa superaram o patrimônio de uma só família ou de uma só geração. Posso dizer, sem medo de errar, que Teotônio fez-se eterno em seu grito de justiça, fez-se eterno em seu canto de esperança, pois, ao desfraldar as bandeiras da pacificação, da liberdade, da democracia, da ética na política e do respeito aos direitos humanos, ele resistiu ao tempo e aos homens, pois o pertencimento dessas bandeiras é de toda a humanidade.

 

Teotonio Viela Filho
Economista, foi senador e governador do Estado de Alagoas

Biografia 

Teotônio Brandão Vilela nasceu no dia 28 de maio de 1917, na cidade alagoana de Viçosa, a cerca de 90 quilômetros da capital, Maceió.

Fundador da UDN (União Democrática Nacional) em Alagoas, elegeu-se deputado estadual pelo partido, em 1954, e vice-governador na gestão do udenista Luis Cavalcante (1961-1966).

Em 1966, com a instituição do bipartidarismo no país, filiou-se à Arena e, em 1974, foi um dos poucos senadores eleitos pela legenda.

Impedido de atuar partidariamente por conta do AI-5, viajou por todo o Brasil denunciando a falsa democracia, na qual o aparelho de repressão do Estado era institucionalizado e funcionava contra as liberdades política, de expressão e imprensa.

Ainda sob o AI-5, divulgou o “Projeto Brasil”, documento em que reivindicava do governo uma série de ações para restabelecer a democracia e as liberdades individuais. As medidas incluíam: restauração do pluripartidarismo, do habeas corpus para crimes políticos e da liberdade de organização sindical; eleição direta para Presidente da República e Governadores, suspensão dos senadores biônicos, fim da censura à imprensa; e uma política energética baseada em combustível vegetal como alternativa ao petróleo.

Em 1979, já filiado ao MDB, assumiu a relatoria do projeto que se tornou sua mais importante bandeira de luta, a anistia. Antes de apresentar sua proposta ao então presidente do MDB, deputado Ulysses Guimarães, visitou todos os presos políticos do país e se fez presente nas greves operárias do ABC Paulista, na quais atuou como mediador.

No exercício do mandato de senador, em maio de 1982 comunicou às principais lideranças do PMDB que não disputaria a reeleição, pois lutava contra um câncer no pulmão e no cérebro.

Com a morte iminente e publicamente anunciada, Teotônio se transformou em uma espécie de herói-mártir, como relembra Márcio Moreira Alves, no livro Teotônio, Guerreiro da Paz (Petrópolis, Vozes. 1983).

A doença lhe garantiu a boa vontade para ser ouvido pelos diferentes grupos que convivem na sociedade. De todos eles recebeu milhares de manifestações de solidariedade, fé e também receitas curativas. Em um trecho que muito lembra os dias que se vive hoje no Brasil, diz o biógrafo:

“Transparecia, nessas manifestações, uma imensa necessidade de acreditar em algo, em alguém. Esse movimento profundo da sociedade entrava em contradição com os resultados da maior parte das pesquisas de opinião, que mostram o descrédito dos governantes e a generalizada opinião de que a situação geral do país, já ruim, tenderá a ficar pior ainda. Na realidade o Brasil é um país à espera de um Messias.”

Querido pela população, com liberdade para fazer política sem limites de temas nem fronteiras, Teotônio Vilela foi o único Senador do Brasil. E, ao longo da vida, viveu muitas vidas. Como bem descreve Márcio Moreira Alves:

“Foi Teotônio, o jogador, Teotônio, o farrista, o boiadeiro, o vaqueiro, o usineiro, o literato, o político. Quando da greve do ABC, em abril e maio de 1980, uma revista fez sobre ele um acre-doce artigo de capa intitulado 'Teotônio, o Metalúrgico'. Hoje, o velho fazedor de histórias poderia bem chamar-se 'Teotônio, a Esperança', embora eu prefira o nome que as organizações de defesa dos direitos humanos de Alagoas lhe deram: 'Teotônio, o Guerreiro'.”