“A Geleia Geral brasileira e o longo caminho pela frente”, por Marcus Pestana

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Nosso genial “Maestro Soberano” Tom Jobim cravou com razão: “O Brasil não é para principiantes”. Seria a tradução perfeita da “Geleia Geral” de Gil, onde o poeta ao desfolhar a bandeira no despertar da fagueira manhã tropical, encontra a geleia geral brasileira que os jornais anunciam. O cotidiano brasileiro e a síntese da alma de nosso povo estão longe se estarem retratados em Macunaíma, o herói travesso, preguiçoso, erotizado e sem nenhum caráter. A vida não anda nada fácil. Nosso povo dá duro para sobreviver. A aventura é permanente e, às vezes, parece estarmos enxugando gelo e marcando passo, sem sair do lugar.

A mais tensa e importante eleição das últimas décadas se aproxima. E o cenário é turvo e carregado de incertezas. Um caminhão de dúvidas nos assalta. São desafios ciclópicos à nossa frente. E uma nuvem cinzenta faz parecer que o problema está nas urnas eletrônicas, na tornozeleira do irrelevante deputado ou na presença de algum ministro no STF.

Estamos banalizando informações como as que batemos os tristes recordes com 33 milhões brasileiros passando fome e 23 milhões deles vivendo abaixo da linha da pobreza, com sete reais por dia. Perdemos mais de 670 mil vidas para a COVID, numa desproporção incômoda, já que temos 2,7% da população mundial e 10,6% das mortes. Assistimos perplexos e tristes o brutal assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips pelas mãos das milícias da selva do garimpo ilegal. Aparentemente, a cidadania brasileira se encontra exausta e inerte, deixando obscurecida sua capacidade de se indignar, ver, julgar e agir.

A Eletrobrás é privatizada – nada contra – mas dentro de modelo equivocado que onerará a conta de luz dos brasileiros nos próximos anos. E o fruto da venda da maior empresa elétrica da América Latina será enterrado numa equivocada, provisória e questionável política eleitoreira de subsídios aos combustíveis, ao invés de gerar soluções permanentes para o endividamento público ou a previdência, o que equivale a vender fogão e geladeira para comprar comida, vender o carro para comprar gasolina.

A estabilidade política, constitucional, legal e regulatória é elemento central para a retomada dos investimentos, do crescimento e do emprego. No entanto, o Congresso Nacional não demonstra sensibilidade para este princípio basilar. A absurda proposta de emenda à Constituição, estabelecendo que o Poder Legislativo poderá revogar decisões do Supremo Tribunal Federal nos casos em não houver unanimidade, é trágica por sua “originalidade”, espírito antirrepublicano e afronta às instituições.

Todo esse conturbado e preocupante enredo povoa o ambiente da pré-campanha e revela a precariedade do diagnóstico do sistema político sobre a gravidade da crise. Há anos estamos olhando para o Brasil e vendo um copo meio cheio meio vazio. Avançamos na consolidação da democracia, na superação da inflação, na construção do SUS e no ataque inicial à pobreza, mas ainda temos metade da população sem coleta de esgoto, comunidades inteiras sequestradas pelo tráfico e pelas milicias, desempenho sofrível nas avaliações do aprendizado de crianças e jovens, fome e miséria a olhos vistos.

Tomara que a campanha aprofunde o debate que interessa à população. A mediocridade atual não nos levará ao futuro que sonhamos.

(*) Economista, diretor do Conselho Consultivo do ITV, foi deputado federal pelo PSDB-MG

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