Sambas sem Enredo

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Generalizadas, críticas que pautaram Carnaval mais ajudam os que fizeram mal ao país do que denunciam os erros e transformam-se em arma partidária para disseminação do ódio

Carnaval √©, por excel√™ncia, lugar da s√°tira. Em certos momentos, o tom mais √°cido se aviva e ganha ares de protesto. Vindas daquela que √© tida como “mais aut√™ntica” manifesta√ß√£o popular, as cr√≠ticas acabam sendo saudadas como se fossem a apoteose da verdade. Nem sempre se justifica, contudo, e n√£o est√£o imunes a serem utilizadas pelos interesses dos que mais mal fizeram aos brasileiros.

Escolas de samba poderosas e blocos de rua de todo quilate espalhados pelos quatro cantos do pa√≠s deram a seus gritos de guerra, nos √ļltimos dias de folia, ares de brados “contra tudo o que est√° a√≠”. A cr√≠tica a anos de disfuncionalidades que culminaram na maior recess√£o da hist√≥ria √© v√°lida, mas, quando deixa de nominar os bois certos, n√£o s√≥ n√£o se presta a transformar a realidade como fica sujeita a ser usada como arma pol√≠tico-partid√°ria, cujo intuito √© disseminar √≥dio e dividir o pa√≠s.

Em alguns dos sambas-enredo mais celebrados deste ano, a corrup√ß√£o foi tratada como geleia geral: lambuza a todos indistintamente. Ser√° verdade? Aqueles que protagonizaram os maiores esc√Ęndalos da nossa hist√≥ria, flagrados e tirados do poder, devem ter adorado: o samba, esse nosso orgulho cultural, igualou a todos na lama, o refr√£o que eles mais gostam de cantar.

√Č curioso, para dizer o m√≠nimo, que o √°pice da roubalheira flagrada nos anos recentes n√£o tenha obtido das passarelas a mesma aten√ß√£o que outros malfeitos mereceram neste ano. N√£o se tem not√≠cia de enredo, samba ou marchinha de sucesso tratando do mensal√£o, do petrol√£o, dos tr√≠plex √† beira-mar, dos s√≠tios com pedalinhos, das falcatruas com o or√ßamento federal, da quebradeira que se abateu sobre as contas p√ļblicas.

Quando foi mais incisiva e pessoal, a reprovação de escolas de samba organizadas em alas de rigor cronometrado mirou alvos errados. Mistificou, ao invés de esclarecer. As reformas necessárias foram igualadas a mazelas seculares, protestos legítimos foram caricaturados, heranças cartoriais foram retratadas como salvaguarda do povo. A lambança tornou-se generalizada. Carnaval assim não é ótimo para quem não quer mudar nada?

Os brasileiros devem, precisam manter o esp√≠rito cr√≠tico, a inquietude, a capacidade de se indignar. Mas ela n√£o pode ser meramente gen√©rica, sorrateiramente indiscriminada, oportunamente indecifr√°vel. O mau estado do pa√≠s tem respons√°veis com nome e sobrenome, mas estes ficaram fora do enredo dos sambas que se ouviu pelo pa√≠s nos √ļltimos dias de folia.

– Carta de Formula√ß√£o e Mobiliza√ß√£o Pol√≠tica N¬ļ 1737

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