Letras mortas

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Dilma Rousseff começou ontem a se despedir da vida pública com uma carta anódina, que repisa argumentos falaciosos, distorce fatos, inventa versões e, sobretudo, não responde ao que efetivamente interessa: aos crimes que ela cometeu no exercício do cargo de presidente da República e que a estão levando a perder o mandato. Foram 1.181 palavras, 6.328 letras. Todas mortas.

O script é conhecido: denúncia de “golpes”, promessas vãs de uma prosperidade que ela nunca conseguiu construir, propostas de diálogos que ela sempre negou. E, cereja do bolo, a sugestão de convocação de um plebiscito para fazer frente a “um dos mais dramáticos momentos da nossa história” – produto, frise-se, das ações que ela mesma patrocinou.

A manifestação do povo que Dilma cobra sobre seu destino já está sendo dada, sem os exotismos que a presidente afastada propõe: estritamente dentro da Constituição, nos limites legais e nos marcos institucionais. Dilma está prestes a sofrer impeachment por uma razão muito simples: desrespeitou a lei. Não apenas uma, mas várias.

A petista não está sendo afastada – embora até merecesse – pelo “conjunto da obra”, como argumentou na sua carta ao léu. Perderá o mandato dentro de mais alguns dias, por meio de votação democrática no Senado, porque violou a Constituição, a lei orçamentária e a Lei de Responsabilidade Fiscal. Cometeu crime de responsabilidade – um apenas não, vários – punível com a perda de mandato. Simples assim.

A carta divulgada ontem é Dilma em seu melhor estilo. Sempre que não soube o que fazer – e isso foi quase uma constante durante os cinco anos e cinco meses em que governou o Brasil – apelou a pactos, a plebiscitos, a consultas populares. Todas de nenhuma consequência. Felizmente, o país já não é mais refém desta governante tão errante quanto inepta.

A partir de agora, ao invés de tentar entrar para a história pela porta da frente, Dilma deveria preocupar-se em não afundar de vez e tornar-se, junto com Lula, uma ex-presidente da República condenada pela Justiça. Desde ontem, com autorização do Supremo Tribunal Federal, ela também se tornou, junto com Lula e mais outros petistas, passível de investigação pelo Ministério Público e pela Polícia Federal por tentativa de obstrução da Justiça.

Ontem, a petista começou a leitura de sua carta fazendo as vezes de comentarista esportiva. “Perdemos”, disse ela, sobre o resultado do jogo da seleção feminina de futebol, ao qual ficara assistindo no mesmo horário no qual havia marcado para receber a imprensa. Talvez isso expresse a relevância que devem merecer as derradeiras palavras da presidente afastada antes do impeachment: o que ela diz ou escreve agora importam menos que uma disputa de Olimpíada.

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