A Quem Interessa a Baderna?

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A quem interessa a baderna? Carta de Formula√ß√£o e Mobiliza√ß√£o Pol√≠tica, N¬ļ 859. A morte do cinegrafista Santiago Andrade e as associa√ß√Ķes que ela descortina s√£o grav√≠ssimas. N√£o devem, por√©m, servir para deslegitimar o sentimento de mudan√ßa que pulsa entre boa parte dos brasileiros. A quest√£o agora √©: a quem interessa transformar iniciativas surgidas como manifesta√ß√Ķes leg√≠timas por melhorias nas condi√ß√Ķes de vida do pa√≠s e por mudan√ßas na forma de o poder p√ļblico se relacionar com a popula√ß√£o em atos criminosos? As investiga√ß√Ķes sobre a morte do cinegrafista Santiago Andrade desembocaram num caminho melindroso e sens√≠vel, mas que, se forem verdadeiras as den√ļncias que vieram √† tona ontem, podem jogar luz nova sobre a din√Ęmica que os protestos de rua tomaram desde que acuaram o governo, em meados do ano passado. Segundo o advogado dos dois acusados pela morte do cinegrafista, grupos e partidos pol√≠ticos estariam envolvidos no aliciamento de manifestantes, recrutados a soldo para engrossar os protestos. A den√ļncia deve ser recebida com a cautela, pois pode ser mera t√°tica diversionista para livrar a cara dos jovens que cometeram o ato b√°rbaro que vitimou Andrade. Mas, convenhamos, est√° longe de ser desprovida de sentido. Pelo contr√°rio. A hip√≥tese de instrumenta√ß√£o j√° fora aventada quando manifesta√ß√Ķes leg√≠timas descambaram para a pancadaria ‚Äď e, por esta raz√£o, passaram a ser recha√ßadas por gente de bem e acabaram perdendo for√ßa. Em novembro, O Globo j√° revelara que a Pol√≠cia Civil do Rio ‚Äúinvestigava ind√≠cios de que pessoas estariam sendo recrutadas [com dinheiro, alimenta√ß√£o e transporte], inclusive fora do estado, para participarem de manifesta√ß√Ķes‚ÄĚ. A hip√≥tese √© sustentada por depoimentos prestados por pessoas detidas e apreens√Ķes, inclusive de computadores, feitas ao longo do per√≠odo de protestos. A quest√£o que interessa agora √©: se √© verdadeira a hip√≥tese, quem est√° pagando, instruindo e aparelhando esta gente? A quem interessa transformar iniciativas surgidas como manifesta√ß√Ķes leg√≠timas por melhorias nas condi√ß√Ķes de vida do pa√≠s e por mudan√ßas na forma de o poder p√ļblico se relacionar com a popula√ß√£o em atos criminosos? Quem mais perde com as badernas de rua √© a democracia brasileira. √Č preocupante, se forem verdadeiras as den√ļncias do advogado dos envolvidos na morte do cinegrafista, que institui√ß√Ķes intrinsecamente ligadas ao bom funcionamento do Estado democr√°tico de direito estejam se valendo de m√©todos fac√≠noras para tirar proveito e tumultuar o ambiente. Uma coisa √© indubit√°vel: os black blocs e sua pr√°tica truculenta serviram como luva aos prop√≥sitos do governo e ao partido no poder. Sua entrada em cena, logo depois que as manifesta√ß√Ķes atingiam seu √°pice e magnetizavam o pa√≠s, acabou por esvaziar os protestos e afastar quem lutava por causas leg√≠timas. Vale recordar que, pouco antes do surgimento dos black blocs, PT e movimentos alinhados ao governo haviam tentado se apropriar das manifesta√ß√Ķes. Foram prontamente recha√ßados. Logo depois, irromperam os v√Ęndalos. Sua viol√™ncia acabou por dispersar as multid√Ķes, embora n√£o tenham conseguido silenciar a insatisfa√ß√£o que at√© hoje se mant√©m latente. Vira e mexe, percebe-se no governo petista tentativas de transformar baderna e protestos em farinha do mesmo saco. N√£o s√£o. Uma coisa √© o direito de manifesta√ß√£o de causas leg√≠timas, feitas pacificamente, como foi, em boa medida, o que aconteceu em junho do ano passado. Merecem respeito. Outra coisa, bem diferente, √© a trucul√™ncia, a intoler√Ęncia e a desordem. Merecem repress√£o. Cabe agora investigar a fundo a den√ļncia formalizada pelo advogado dos assassinos de Santiago Andrade ‚Äď que, vale lembrar, tamb√©m j√° defendeu acusados de chefiar mil√≠cias na Baixada Fluminense. A democracia brasileira n√£o pode aceitar grupos que usam a viol√™ncia para impor suas vis√Ķes, quaisquer que sejam. Mas uma coisa √© certa: os black blocs n√£o representam os indignados do pa√≠s. A repulsa aos descaminhos pelos quais o Brasil tem enveredado √© hoje sentimento presente em vasta camada da popula√ß√£o. O epis√≥dio lament√°vel do Rio e as associa√ß√Ķes que ele descortina n√£o podem servir para deslegitimar o sentimento de mudan√ßa que pulsa entre boa parte dos brasileiros. At√© agora quem mais ganhou com a atua√ß√£o nefasta dos black blocs foi o governo, aterrorizado com o efeito que as manifesta√ß√Ķes ‚Äď enquanto se mantiveram pac√≠ficas ‚Äď tiveram sobre sua antes inabalada popularidade. A hora agora √© de apurar, afinal, se uma coisa pode estar umbilicalmente ligada √† outra.

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