Especialistas e gestores debatem economia criativa como estratégia de crescimento

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Com o prop√≥sito de debater alternativas para o desenvolvimento e a gera√ß√£o de empregos, o Instituto Teot√īnio Vilela promoveu na sexta-feira (08/07), em S√£o Paulo, o semin√°rio “Repensando as Cidades – economia criativa como estrat√©gia de crescimento”. O evento reuniu os especialistas do setor L√≠dia Goldenstein, o espanhol Jordi Pardo, Ana Carla Fonseca e Guilherme Cavalcanti. A abertura do encontro foi feita pelos senadores A√©cio Neves, presidente do PSDB, e Jos√© An√≠bal, presidente do ITV, e pelo governador de S√£o Paulo Geraldo Alckmin.

A economista L√≠dia Goldenstein, diretora da Funda√ß√£o Bienal de S√£o Paulo e ex- assessora do BNDES, deu in√≠cio √†s palestras afirmando que o Brasil ficou para tr√°s e precisa trazer √† tona esse tema. “S√≥ podemos pensar solu√ß√Ķes para os nossos problemas, a partir do momento que a gente consegue entender as mudan√ßas internacionais que est√£o ocorrendo: globaliza√ß√£o e revolu√ß√£o tecnol√≥gica. Enquanto o mundo estava se reinventando, o Brasil, antes de mergulhar na crise, vivia a ilus√£o das commodities, do crescimento eterno, dos novos consumidores (a propalada classe m√©dia)”, explicou.

Para L√≠dia, a difus√£o das inova√ß√Ķes, a velocidade e a intensidade norteiam os novos rumos da economia moderna, a Economia do Conhecimento. “Houve uma mudan√ßa no paradigma produtivo internacional, a competitividade e o desempenho das empresas e organiza√ß√Ķes hoje s√£o baseados no conhecimento, em ativos intang√≠veis – marca, capital humano, software, design – n√£o se mede mais pelo o que √© tang√≠vel, como antigamente, onde grandes pr√©dios e constru√ß√Ķes representavam a grandeza de determinada empresa”.

Necessidade de se reinventar
Com o crescimento da Economia do Conhecimento, os pa√≠ses e cidades tiveram que se reinventar. L√≠dia afirmou que a primeira na√ß√£o a perceber a mudan√ßa de paradigma foi o Reino Unido. “Come√ßaram a tratar seus problemas, entre eles a perda da manufatura para a √Āsia, e passaram a investir em setores mais inovadores e din√Ęmicos. Todos ancorados √†s novas tecnologias e √†s quest√Ķes culturais, perpassando as mais diferentes esferas do governo”.

No caso do Brasil, o atraso, na vis√£o da economista, se d√° por in√ļmeros problemas que ainda n√£o conseguimos superar. “Precisamos diagnosticar e tratar nossos problemas de infraestrutura, de educa√ß√£o, tribut√°rios e tecnol√≥gicos ao mesmo tempo, caso contr√°rio o mundo j√° vai estar na banda 10G e o Brasil continuar√° na 3G. Temos que pensar em todos os nossos problemas de forma a gerar uma economia nova, n√£o mais dos anos 50”, sentenciou L√≠dia.

Quanto √† qualidade da educa√ß√£o, um dos principais problemas que o Pa√≠s enfrenta, √© preciso pensar de uma forma diferente, nova, segundo a economista. “N√£o adianta educar atrav√©s de um velho paradigma, pois estaremos formando pessoas que n√£o estar√£o preparadas para o novo mundo que se apresenta”.

L√≠dia afirmou que condi√ß√Ķes e instrumentos para o Brasil entrar de vez na Era da Economia do Conhecimento n√£o faltam. As autoridades pol√≠ticas em todas as esferas precisam estar cientes disso. “√Č muito importante falar que no Brasil existe uma ilus√£o de que os pol√≠ticos n√£o s√£o capazes de fazer – o que n√£o √© verdade. Vis√£o estrat√©gica, capacidade de lideran√ßa e um pouco de ousadia todos os governos podem ter. Os EUA e o Reino Unido induzem √†s empresas a inovar. Falta isso aqui. Ainda administramos o Brasil com ferramentas do s√©culo passado. O segredo √© otimizar pol√≠ticas p√ļblicas para desenhar melhores condi√ß√Ķes afim da inova√ß√£o florescer”, finalizou.

O exemplo de Barcelona
A transforma√ß√£o de Barcelona a partir da realiza√ß√£o dos Jogos Ol√≠mpicos de 1992 foi o mote da palestra de Jordi Pardo. Segundo ele, as enormes mudan√ßas ocorridas na cidade catal√£ s√≥ foram poss√≠veis pela atua√ß√£o em diferentes frentes para a elabora√ß√£o de um plano estrat√©gico metropolitano (o primeiro da Europa), ainda em 1986. “Essa mudan√ßa uniu poder p√ļblico, sindicatos, universidades, c√Ęmaras de com√©rcio e entidades culturais”, contou. A vis√£o de todos era “colocar a Olimp√≠ada a servi√ßo da cidade” e n√£o o contrario.

“Os jogos deveriam beneficiar todos os bairros, melhorar a infraestrutura urbana de toda a cidade. Mas como n√£o pod√≠amos fazer tudo, foi essencial tamb√©m a parceria com o setor privado”, completou. Com esse processo interdisciplinar, explicou Jordi, em seis anos a cidade se transformou. “E foram mudan√ßas que duraram. Barcelona recebia 300 mil turistas em 1986. Hoje recebe mais de 7 milh√Ķes”, exemplificou.

Al√©m disso, as transforma√ß√Ķes trazidas pelos Jogos tiveram continuidade em outros projetos importantes para a cidade, entre eles, o Distrito de Inova√ß√£o de Barcelona – @22bcn. Criado onde antes ficava uma antiga √°rea de ind√ļstrias t√™xteis abandonadas, o complexo seguiu a id√©ia de “integra√ß√£o, densidade, diversidade de usos e complexidade. “Parques industriais isolados n√£o funcionam. Precisamos de lugares onde as pessoas possam trabalhar e viver. Por isso, a transforma√ß√£o foi geral: resid√™ncias, transporte p√ļblico, pr√©dios comerciais, efici√™ncia energ√©tica”, disse.

O projeto do 22@bcn foi aprovado em 2000, com início das atividades em 2003. Já naquele período, foram criados 62 mil postos de trabalho em 3000 novas empresas. Ao todo, o complexo atraiu para Barcelona 4.500 novas empresas, gerando 350 mil empregos, além de dez novas universidades.

Jordi Pardo √© gestor de projetos culturais, especializado em desenvolvimento territorial e regenera√ß√£o urbana. Em sua palestra, ele refor√ßou que cidades criativas s√£o cidades inovadoras e, por conseq√ľ√™ncia, mais atrativas. “A cultura impulsiona a cria√ß√£o, que impulsiona a inova√ß√£o, que impulsiona a transforma√ß√£o”, afirmou. “Barcelona era uma cidade pequena, apesar de intelectualmente vibrante, de hist√≥ria de lutas contra ditadura. Mas conseguimos mudar a partir de propostas criativas e vi√°veis. As cidades brasileiras tem um potencial extraordin√°rio, profissionais formados em √≥timas universidades. Creio que, nessa situa√ß√£o de crise, o Brasil possa utilizar esse potencial”, concluiu.

Cultura, inovação e conexão
A vencedora do Pr√™mio Cl√°udia 2013, Ana Carla Fonseca, falou sobre “as cidades que se reinventam” e que, para isso, investem em tr√™s vetores: cultura, inova√ß√£o e conex√Ķes. “Cultura no sentido de alma, identidade, vibe, conjunto de percep√ß√Ķes, modos e formas de agir”, detalhou, explicando a import√Ęncia desse vetor na atra√ß√£o de talentos. “H√° um estudo que aponta o que os talentos consideram no momento de escolher uma cidade para viver e trabalhar: perspectiva de carreira, qualidade de vida, custo de vida e – a grande novidade – diversidade cultural”, disse.

Inova√ß√£o, segundo ela, √© reinven√ß√£o permanente, √© identificar o problema e transform√°-lo em solu√ß√£o. “Geralmente, s√£o decis√Ķes que dependem de pol√≠ticas p√ļblicas, mesmo que a id√©ia n√£o venham necessariamente do poder p√ļblico”, completou. Um exemplo, citou, √© a cria√ß√£o do Poupatempo Ambiental de Botucatu. O munic√≠pio recebeu por duas vezes o selo Verde-Azul e pediu que o pr√™mio fosse convertido na constru√ß√£o de um pr√©dio sustent√°vel para abrigar a presta√ß√£o de servi√ßos para esta √°rea – licenciamento, poda de √°rvores, fiscaliza√ß√£o e descarte de lixo.

“Conex√£o √© considerar com o devido valor os v√°rios elementos da cidade, √© tamb√©m entend√™-la como contexto, reconectar seus v√°rios bairros e regi√Ķes e, sobretudo, conect√°-la com a consci√™ncia do cidad√£o que nela vive”, completou Ana Carla.

A especialista concluiu sua palestra citando tr√™s cidades que se reinventaram por meio de projetos de economia criativa: Paris – com o Reiventar.Paris; Buenos Aires – com a cria√ß√£o de distritos vocacionais; e Paragominas – cidade do Par√° que chegou a perder o acesso a linhas de cr√©dito por integrar a lista dos maiores desmatadores do pa√≠s, mas que, com a√ß√Ķes criativas, conseguiu se transformar em exemplo para o programa Munic√≠pios Verdes.


O Porto Digital de Recife
Fechando o ciclo de palestras, o administrador e diretor executivo da ARIES РAgência Recife para Inovação e Estratégia, Guilherme Cavalcanti, um dos idealizadores do Porto Digital do Recife, falou sobre o projeto e os avanços que ele trouxe para a região.

O Porto Digital √© um dos principais parques tecnol√≥gicos e ambientes de inova√ß√£o do Brasil e √© um dos representantes da nova economia do Estado de Pernambuco. Localizado no Recife, sua atua√ß√£o se d√° nos eixos de software e servi√ßos de Tecnologia da Informa√ß√£o e Comunica√ß√£o (TIC) e Economia Criativa (EC), com √™nfase nos segmentos de games, multim√≠dia, cine-v√≠deo-anima√ß√£o, m√ļsica, fotografia e design.

Reconhecido por sua territorialidade singular entre parques tecnol√≥gicos, o Porto Digital √© um parque urbano instalado no centro hist√≥rico do Bairro do Recife e no bairro de Santo Amaro, totalizando uma √°rea de 149 hectares. A regi√£o, antes degradada e de pouca import√Ęncia para a economia local, vem sendo requalificada de forma acelerada em termos urban√≠sticos, imobili√°rios e de recupera√ß√£o do patrim√īnio hist√≥rico edificado desde a funda√ß√£o do parque, em 2000.

Para Cavalcanti, a diversidade que forma Recife est√° presente no conceito que o Porto Digital tem de cidade criativa. ‚ÄúAntes de serem tecnol√≥gicas, as cidades precisam ser afetivas. Paris e Barcelona, por exemplo, s√£o refer√™ncias. S√£o cidades que v√£o al√©m de suas liras, s√£o cidades que ‚Äėdeliram‚Äô. O Porto Digital tamb√©m. √Č um sonho delirante executado com m√©todo, coragem e determina√ß√£o. Os nortes do Porto est√£o baseados em 4 P‚Äôs ‚Äď princ√≠pios, pessoas, per√≠metro e planeta. Atrav√©s disso, conseguimos invadir o imagin√°rio dos jovens do Recife‚ÄĚ, afirmou.

A ideia dos jovens que idealizaram o Porto Digital √© mudar o mundo a partir do Recife. ‚ÄúCome√ßamos a nos organizar para transformar a nossa cidade em um local relevante. Fomos atr√°s de experimentar em Recife aquilo que ach√°vamos que estava dando certo em outros cantos do mundo. Atualmente, o Porto Digital tem 17 startups de economia criativa incubadas. Tem o Projeto Porto Leve, que inclui compartilhamento de bicicletas, rotas de √īnibus, estacionamento integrado. O Porto M√≠dia, que √© uma comunidade de fazedores de conte√ļdos digitais e de m√≠dia‚ÄĚ, explicou Cavalcanti.

Um dos idealizadores do projeto do Porto, Guilherme Cavalcanti citou ainda Chico Science e o movimento manguebeat como exemplos de economias criativas na pr√°tica e que est√£o na ess√™ncia do Porto Digital. ‚ÄúA letra da m√ļsica ‚ÄėDa Lama ao Caos‚Äô √© inspiradora e est√° presente no conceito de funda√ß√£o do Porto Digital. Queremos agora expandir esse projeto para a cidade de Recife inteira. O Porto Digital √© fruto do amor que temos pelo Recife‚ÄĚ, finalizou.

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