“Tempos confusos”, por Fernando Henrique Cardoso

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Tempos confusos os que temos vivido. A tal ponto que estranhamos o que aconteceu no meio da semana: chamou a aten√ß√£o o fato de o governo n√£o haver arranjado nenhuma confus√£o nova. Isso depois de, sem se dar ao luxo de explicar melhor ao Pa√≠s as raz√Ķes, o presidente haver dispensado v√°rios ministros nas pastas da Educa√ß√£o e da Sa√ļde. Pelo menos at√© a √ļltima sexta-feira, quando escrevo este artigo, n√£o demitiu ningu√©m ou ningu√©m se sentiu na obriga√ß√£o de abandonar o Minist√©rio. Nem mesmo se viu o presidente ou seus porta-vozes atribu√≠rem √† oposi√ß√£o ou a algu√©m mais not√≥rio o estar ‚Äúconspirando‚ÄĚ. Da√≠ a calmaria.

√Č assim que vai andando o atual governo, meio de lado. Sem que os ‚Äúinimigos‚ÄĚ fa√ßam qualquer coisa de muito espetacular contra ele, √© ele pr√≥prio que se embara√ßa com sua sombra. De repente, quando n√£o h√° nenhum embara√ßo novo, nenhuma ‚Äúcrise‚ÄĚ, o presidente n√£o se cont√©m: fala e cria uma confus√£o.

√Č verdade que o governo federal n√£o teve sorte. N√£o foi ele que criou a pandemia que nos aflige nem a paralisa√ß√£o da economia, que j√° vinha de antes. Mas a confus√£o pol√≠tica, desta ele se pode apropriar: foi coisa inventada pelo pr√≥prio presidente e seus fan√°ticos.

Por certo ela se agrava com a crise econ√īmica e a da sa√ļde p√ļblica. Mas o mau gerenciamento das crises e da pol√≠tica √© o que caracteriza os vaiv√©ns do governo Bolsonaro. No Congresso Nacional e nos tribunais (apesar de t√£o malfalados nos com√≠cios pelos adeptos presidenciais) tem havido resist√™ncias √† ina√ß√£o governamental e a suas investidas contra as institui√ß√Ķes.

Comecemos pelo que mais importa, a sa√ļde p√ļblica e a de cada um de n√≥s. O governo federal desconsiderou os riscos da situa√ß√£o epid√™mica no in√≠cio e, depois, passou o bast√£o √†s autoridades locais. Compreende-se que sejam estas, mais perto das popula√ß√Ķes, a gerenciar o dia a dia. Mas o papel simb√≥lico √© sempre, para o bem e para o mal, de quem exerce a Presid√™ncia da Rep√ļblica, tenha ou n√£o culpa no cart√≥rio. Al√©m disso √© o que prescreve a Constitui√ß√£o, no seu artigo 23, sobre as compet√™ncias comuns, entre as quais est√° a de zelar pela sa√ļde p√ļblica, como deixou claro o Supremo Tribunal Federal (STF) em sua decis√£o a esse respeito.

Da mesma maneira é inacreditável que em tão pouco tempo o governo haja substituído dois ministros na pasta da Educação e que o País ainda não saiba quem será o próximo ministro. Os anteriores o pouco que fizeram foi suficiente para darmos graças por se terem afastado. Mas quem virá? E logo numa área crucial para o País.

Governo que n√£o tem rumo nas principais √°reas sociais dificilmente encontrar√° a lanterna m√°gica para nos levar a bom porto. N√£o s√£o apenas pessoas mal escolhidas. √Č a falta de projetos, de esperan√ßa, o que nos sufoca.

Talvez esteja a√≠ a falta maior do presidente: ele fala como qualquer pessoa, o que pode parecer simp√°tico. √Č um [ ]uomo qualunque[/ ]. Diz o que lhe vem √† cabe√ßa, como qualquer mortal. Mas esse √© o engano: o papel atribu√≠do pelas pessoas ao presidente, qualquer deles, exige que ele, ou ela, mesmo sendo simples (para n√£o dizer simpl√≥rio), n√£o pare√ßa ser t√£o comum na hora de decidir ou de falar ao povo sobre os destinos da Na√ß√£o.

Em certos momentos muita gente no Pa√≠s pode at√© apreciar a semelhan√ßa entre si e o chefe de Estado. A maioria mesmo: pois n√£o foi ele quem ganhou as elei√ß√Ķes? Afinal o presidente, dir√£o, √© uma pessoa como qualquer outra. Mas quando h√° crises √© quando mais se precisa que haja comando, rumo. Talvez por isso os ‚Äúhomens comuns‚ÄĚ no poder acabem por ser incomuns, singulares na sua incapacidade de definir um rumo. Quando t√™m personalidade autorit√°ria, investem e esbravejam contra as institui√ß√Ķes democr√°ticas. No Brasil, elas t√™m respondido bem ao desafio.

Onde iremos parar? N√£o tenho bola de cristal, mas √© melhor parar logo. Se pudesse eu lhe diria: presidente, n√£o fale; ou melhor, pense nas consequ√™ncias de suas falas, independentemente de suas inten√ß√Ķes. Sei que √© dif√≠cil, afinal eu estava em seu lugar quando houve o ‚Äúapag√£o‚ÄĚ e tamb√©m durante algumas crises cambiais. N√£o adianta espernear: v√£o dizer que a ‚Äúculpa‚ÄĚ √© sua, seja ou n√£o. E, no fundo, √© sua mesma. N√£o se trata de culpa individual, mas pol√≠tica. Quem forma o governo (sob circunst√Ęncias, √© claro) √© o presidente. A boca tamb√©m √© dele. Logo, queiramos ou n√£o, sempre haver√° quem pense que o presidente √© respons√°vel. Vox populi, dir-se-√°…

√Č assim em nosso sistema presidencialista. E talvez seja assim nas sociedades contempor√Ęneas. Com a internet as pessoas formam redes, tribos, e saltam as institui√ß√Ķes. Por isso √© mais necess√°rio do que nunca que haja lideran√ßas. Em nossa cultura e em nosso regime, j√° de si personalistas, com mais forte raz√£o os l√≠deres exercem um papel simb√≥lico, falam pela comunidade. O l√≠der maior √© sempre o presidente, pelo menos enquanto continuar l√°. Por isso √© t√£o importante: se n√£o souber falar, se tiver d√ļvidas, que o presidente se cale. Como nesta √ļltima semana.

Melhor, contudo, é que se emende e fale coisas sensatas, que cheguem ao coração e façam sentido na cabeça das pessoas razoáveis.

(*) Soci√≥logo, foi presidente da Rep√ļblica

Artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, em 05/07/2020

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