“P√°tria minha”, por Marcus Pestana

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O grande poeta Vinicius de Moraes, no ex√≠lio, durante os obscuros anos de ditadura, rascunhou carinhosa homenagem em forma de poema ao seu pa√≠s. ‚ÄúA minha p√°tria √© como se n√£o fosse, √© intima. Do√ßura e vontade de chorar, uma crian√ßa dormindo. √Č minha p√°tria. Por isso, no exilio, assistindo dormir meu filho, choro de saudades da minha p√°tria‚ÄĚ. ‚ÄúN√£o te direi o nome, p√°tria minha. Teu nome √© p√°tria amada, √© patriazinha, n√£o rima com m√£e gentil. Vives em mim como filha, que √©s. Uma ilha de ternura, A ilha Brasil, talvez‚ÄĚ.

Aproxima-se o 7 de setembro. No pr√≥ximo ano, completaremos 200 anos de Independ√™ncia. Infelizmente, em 2021, estamos envoltos numa n√©voa de temores, rancores e amea√ßas. O 4 de julho, nos Estados Unidos, √© estu√°rio do sentimento de patriotismo do povo americano, independente de convic√ß√Ķes pol√≠ticas ou ideol√≥gicas. Assim tamb√©m √© a comemora√ß√£o da Queda da Bastilha, no 14 de julho. Esse feriado de 2021 seria um bom momento de pausa para reflex√£o sobre nossa trajet√≥ria como povo e Na√ß√£o, nossas virtudes e mazelas, nossos avan√ßos e desafios. Mas o pa√≠s estar√° dividido.

O Brasil era uma pa√≠s colonial, exportador de produtos prim√°rios como pau-brasil, cana de a√ß√ļcar, ouro e diamantes com base em rela√ß√Ķes de trabalho escravistas. Por um acidente, acossada por Napole√£o, em 1808, a Corte portuguesa aportou no Rio de Janeiro. Avan√ßos foram introduzidos at√© o retorno de D. Jo√£o VI a Lisboa. Assumiu Dom Pedro I. Houve a tentativa de recoloniza√ß√£o. O Dia do Fico representou a op√ß√£o de Pedro I por governar o pa√≠s. Mudan√ßas ministeriais sinalizaram a ruptura. Pedro I vai a Minas e de l√°‚Äô para S√£o Paulo, angariando a simpatia da popula√ß√£o. Na volta de Santos, diante do ultimato portugu√™s que retornasse √† Corte, na beira do C√≥rrego do Ipiranga, no topo de uma colina verde, de espada em punho, bradou ‚Äú√Č tempo! La√ßo fora! Independ√™ncia ou Morte!‚ÄĚ, para a emo√ß√£o das tropas e o espanto do campon√™s que aparece solit√°rio no canto da famosa tela de Pedro Am√©rico, ‚ÄúO GRITO DO PR√ćNCIPE‚ÄĚ, que se encontra exposta no Museu do Ipiranga. As convic√ß√Ķes nacionalistas de Pedro I, ap√≥s longo processo de consolida√ß√£o do Primeiro Reinado, n√£o foram bastantes para evitar que, em 1931, abdicasse o trono e retornasse √† Portugal, na esperan√ßa de se tornar o Rei Dom Pedro IV.

Cento e noventa e nove anos se passaram. O Brasil se industrializou, o agronegócio se modernizou, a população se urbanizou, a integridade territorial foi mantida, assim como a língua e a unidade política.

Neste 7 de setembro, estaremos marcados pelas centenas de milhares de mortes na pandemia, pelo desemprego alarmante, pelo retorno da infla√ß√£o, pelo aprofundamento da pobreza, pela armadilha do baixo crescimento. Mas estaremos principalmente sitiados por um ambiente in√©dito de radicalismo pol√≠tico, de intoler√Ęncia ideol√≥gica e esgar√ßamento do tecido social e institucional.

Os desafios colocados no caminho de uma Nação justa, soberana, democrática e fraterna exigem capacidade de negociação e diálogo, serenidade e prudência, equilíbrio e sabedoria, firmeza, mas capacidade de ouvir os diferentes.

Podemos nos xingar de fascistas e comunistas, de genocidas e ladr√Ķes a esmo sem acrescentar uma linha positiva na hist√≥ria brasileira. Que no 7 de setembro prevale√ßa a uni√£o dos brasileiros em torno de nossos valores mais profundos.

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