“O peixe morre é pela boca”, por Marcus Pestana

Publicado em:

A sabedoria popular tem interessante forma de se expressar através de ditados, que se repetem por décadas e gerações. “O peixe morre é pela boca” aconselha administrar bem as palavras, não falar demais. Uso o ditado popular para realçar um sábio conselho para a vida, particularmente na política, principalmente na era das frenéticas redes sociais. Mas existem outras formulações populares como “Quem fala demais, acaba dando bom dia a cavalo”, uma advertência àqueles que não sabem escutar, apenas falam, interditando o diálogo. Ou, ainda, “Em boca fechada, não entra mosquito”, recomendando prudência e ponderação nas opiniões.

Teve grande repercussão o evento envolvendo o apresentador Monark, do canal de entrevistas FLOW, um dos de maior audiência na internet, envolvendo também o deputado federal Kim Kataguiri (PODEMOS/SP). Refletindo um liberalismo ingênuo e um anarquismo radical, defenderam a possibilidade de existência de um Partido Nazista. Monark tem 31 anos e Kim, 26. Encontraram forte resistência da deputada Tábata Amaral (PSB/SP), 28 anos, que também estava no estúdio, e de forma consistente defendeu que não pode ter existência legal uma corrente que assumidamente conspira contra a democracia, defende o totalitarismo e carrega uma visão supremacista racial. Diga-se, de passagem, que nenhum dos dois defendeu ou defende o nazismo. E que o FLOW era um programa agradável, leve, inovador, descontraído. Vi várias entrevistas, era uma proposta interessante. Mas a irresponsabilidade com as palavras e o descuido com os conteúdos levaram à demissão do entrevistador e a um processo de cassação do deputado federal. Às vezes, a agressividade exagerada, a arrogância de quem acha que tudo sabe, a tentativa de ser excessivamente original, pode gerar um efeito bumerangue e abater o autor do abuso de expressão.

O grande escritor e ensaísta Umberto Eco disse certa vez que “As redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”. Não chego a tanto. Mas as redes sociais criaram um ambiente onde cada um pode falar o que quer, ouvir o que não quer, sem nenhum filtro de qualidade editorial. Fora as famosas e irresponsáveis fake news. A energia da juventude é fundamental para patrocinar as mudanças sociais necessárias. Mas a inexperiência e a ousadia precisam ser calibradas com um pouco de sabedoria e ponderação. Nelson Rodrigues, na sua provocativa e conservadora implicância com os jovens disse: “O jovem tem todos os defeitos do adulto, e mais um: o da inexperiência”. Não. Precisamos cada vez mais de jovens na vida pública. A vivência democrática cuidará de nos ensinar a todos como nos apropriarmos dos novos espaços de liberdade conquistados.

Mais recentemente, ruidoso caso envolveu o deputado estadual do MBL, Arthur do Val, o “Mamãe Falei”, que, em mensagens vasadas direto da Ucrânia, falou barbaridades em termos de machismo, misoginia e desrespeito a um povo que sofre as barbáries de uma guerra absurda. Resultado: retirou sua candidatura ao Governo de São Paulo, está sendo expulso do PODEMOS e sofrerá processo de cassação do mandato. Kim e Arthur estão experimentando de seu próprio veneno.

Portanto, fica um conselho para os violentos, radicais e irresponsáveis portadores de “verdades absolutas” nas redes sociais: aprendam com a sabedoria popular. “Devagar com o andor, que o santo é de barro”.

(*) Economista e consultor do ITV, foi deputado federal pelo PSDB-MG

Últimas postagens

Instituto Teotônio Vilela: SGAS 607 Bloco B Módulo 47 - Ed. Metrópolis - Sl 225 - Brasília - DF - CEP: 70200-670