“O dia em que a ciência venceu as mentiras”, por João Doria

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Lembro de cada instante daquele dia: primeiro, a aprovação da CoronaVac, por unanimidade, pela diretoria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Estávamos no Hospital das Clínicas, maior complexo de saúde da América Latina. Passava das 15 horas de 17 de janeiro de 2021, quando a enfermeira Mônica Calazans, que trabalha na UTI do Instituto Emílio Ribas, recebeu, no braço esquerdo, a primeira vacina contra a covid aplicada no Brasil. Era o início da mais ampla campanha de vacinação de nossa história.

Hoje, exatamente um ano depois, está comprovado que as vacinas mudaram a trajetória da pandemia, ao evitar internações e salvar a vida de milhões de pessoas. Mas penso que aquele momento tem ainda mais significados: 17 de janeiro de 2021 foi o dia em que as verdades da ciência derrotaram as mentiras do negacionismo. O dia em que o trabalho venceu a incompetência e a razão superou o medo. Vacina sim, cloroquina não. Há um ano, a compaixão foi maior que o egoísmo, a esperança voltou e os brasileiros viram que, com seriedade e boas políticas públicas, nosso Brasil tem jeito.

São Paulo se tornou uma referência mundial em vacinação – já temos 97% dos adultos com esquema vacinal completo. O trabalho do governo estadual, de prefeituras de todo o Estado e do Instituto Butantan ajudou todos os brasileiros a se protegerem. Antecipamos em pelo menos três meses a vacinação prevista pelo governo federal. Imunizamos os profissionais de saúde do Brasil inteiro, oferecendo a eles a segurança necessária para o enfrentamento da segunda onda da pandemia. Produzimos e entregamos aos brasileiros 100 milhões de doses de vacina. Demos prioridade à imunização dos profissionais da educação, da segurança e dos transportes coletivos, restabelecendo todos os serviços e atividades. Hoje, mais de 145 milhões de brasileiros se encontram totalmente vacinados. Mais de um terço desse total recebeu CoronaVac, que evitou formas graves da doença e salvou milhões de vidas.

Os números do Programa Estadual de Imunizações (PEI) dão a justa dimensão do trabalho realizado. Chegamos a 80% da população com a imunização completa (duas doses). Para isso, distribuímos 90,5 milhões de doses e aplicamos 87,8 milhões. Isso corresponde a 240 mil injeções, todos os dias, incluindo sábados, domingos e feriados, de 17 de janeiro de 2021 até hoje. Para levar os frascos e todo o material necessário, de seringas a curativos, aos postos de saúde dos 645 municípios de São Paulo, os caminhões do PEI rodaram 440 mil quilômetros – equivalente a 11 voltas na Terra e mais do que a distância à Lua. Para que as vacinas chegassem ao braço das pessoas, foi necessário o trabalho coordenado de 150 mil profissionais.

Os resultados são inegáveis. Se fosse um país, São Paulo integraria o topo da lista das cinco nações, com mais de 40 milhões de habitantes, que mais vacinaram no planeta. Hoje, estaríamos ao lado de Coreia do Sul, Espanha, China e Japão. Essa ampla cobertura vacinal nos permite, nesse momento, garantir o pronto atendimento a todos os que precisam, mesmo diante da explosão de casos da Ômicron, a mais contagiosa variante do vírus. A vacina reduziu, efetivamente, a necessidade de internações – e a maior prova está em um dos principais hospitais públicos de São Paulo, o Instituto Emílio Ribas, onde cerca de 80% dos hospitalizados por covid são de pessoas que não se vacinaram ou não completaram a segunda dose.

Para alcançarmos bons resultados, fomos, muitas vezes, obrigados a vencer o atraso, a burocracia ou a má-fé do Ministério da Saúde. Em casos extremos, defendemos o direito à vida nos tribunais e a Justiça deu razão aos argumentos de São Paulo contra o governo federal. Mas ainda temos muito a avançar. Precisamos de bom senso e urgência para acelerar a proteção de mais de 20 milhões de crianças. E temos de aplicar as doses de reforço em todos os brasileiros. O PEI continuará a oferecer resultados eloquentes. O expressivo número de vacinados, incluindo as crianças, vai garantir o controle da pandemia – e a população tem feito a sua parte, comparecendo aos postos de saúde no prazo previsto. Hoje soa profética a frase da enfermeira Mônica Calazans, nossa pioneira, naquele 17 de janeiro de 2021. “Falo com segurança e propriedade: não tenham medo. Vamos nos vacinar”.

A reconstrução social, portanto, é incompatível com o comportamento dos que atacam as medidas de proteção e as vacinas publicamente, enquanto se protegem sob segredos de 100 anos, ou se vacinam “escondido”, como ficou notório na frase de um ministro do atual presidente. Nos Estados Unidos, até o ex-presidente Donald Trump chama de “covardes” os políticos do seu partido que não defendem as vacinas.

Com crianças vacinadas, doses de reforço e novos remédios, a covid caminha para ser uma doença com prevenção e tratamento. Precisamos manter vigilância permanente, acompanhando sua evolução e variantes. Mas acredito que o processo de superação, iniciado em São Paulo há um ano, seguirá vitorioso. Ele exige, no entanto, que tenhamos a ciência como guia, a verdade como trilho diário e a proteção à vida como prioridade absoluta.

(*) Governador do Estado de São Paulo

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