O destino da Nação em nossas mãos

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Os primeiros cem dias do governo Bolsonaro serviram para nos dar um choque de realidade. Desfizeram-se as ilus√Ķes com o presidente da Rep√ļblica e suas convic√ß√Ķes reformistas e evaporou-se o otimismo do mercado com o governo. A ilus√£o blinda as pessoas da √°rdua e dif√≠cil tarefa de confrontar a si mesmas e de revisar suas cren√ßas, a√ß√Ķes e escolhas que as levaram a trilhar o caminho equivocado. A ilus√£o sempre traz novas desilus√Ķes porque a realidade n√£o se enquadra na moldura das nossas fantasias. Ao resgatarmos o bom senso e o verdadeiro entendimento dos desafios do Pa√≠s, podemos tra√ßar um plano de a√ß√£o realista para o Brasil voltar a crescer, criar empregos e fortalecer as institui√ß√Ķes democr√°ticas.

Primeiro √© preciso reconhecer que Jair Bolsonaro √© um pol√≠tico coerente com suas promessas e sua trajet√≥ria p√ļblica. Durante a campanha presidencial foi sincero ao afirmar que n√£o entendia nada sobre os temas relevantes para o Pa√≠s e que delegaria ao seu “posto Ipiranga” – Paulo Guedes e seu time – a tarefa de conduzir as reformas econ√īmicas. Bolsonaro deixou claro que o seu real interesse estava na pauta de costumes – em menino vestir azul e menina, rosa – e em sua disposi√ß√£o de combater os comunistas infiltrados nas escolas, na cultura e na sociedade, cujo objetivo final √© destruir a fam√≠lia brasileira e a Na√ß√£o. Ele est√° cumprindo o que prometeu. E provavelmente vai passar o resto do seu mandato utilizando as redes sociais para mobilizar a sua tribo para a guerra santa contra o comunismo e os males que desabonam o seu conceito de “fam√≠lia crist√£”.

Essa cruzada de costumes revela que Bolsonaro continuará a ser Bolsonaro, um político medíocre que defende pautas insignificantes e corporativistas que não ajudam o País a se tornar mais produtivo, competitivo, democrático, pluralista e tolerante. Portanto, se esperarmos gestos de liderança do Palácio do Planalto, estamos fadados a colher desilusão e frustração.

Na aus√™ncia de um presidente da Rep√ļblica capaz de dar rumo ao Pa√≠s, o Congresso Nacional, em parceria com a sociedade civil, ter√° de liderar a Na√ß√£o. Trata-se de uma oportunidade √≠mpar para o Parlamento resgatar seu protagonismo, sua credibilidade e relev√Ęncia. Afinal, o destino das reformas est√° nos votos dos parlamentares. Somente eles t√™m o poder de aprovar as emendas constitucionais capazes de salvar a Previd√™ncia, reformar o ca√≥tico sistema tribut√°rio e aprovar a reforma pol√≠tica (especialmente o voto distrital) – medidas vitais para resgatar a credibilidade das institui√ß√Ķes democr√°ticas, pavimentar o caminho da retomada do crescimento e deixar um Brasil melhor para as pr√≥ximas gera√ß√Ķes.

Os presidentes da C√Ęmara e do Senado, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, deveriam inspirar-se no deputado Ulysses Guimar√£es, o presidente da C√Ęmara dos Deputados que liderou o Congresso e o Pa√≠s ap√≥s o fim do regime militar, em 1985. Ulysses ignorou o claudicante ent√£o presidente da Rep√ļblica, Jos√© Sarney, e conduziu o entendimento no Parlamento e na sociedade, aprovando leis, reformas e at√© mesmo uma nova Constitui√ß√£o. N√£o cabe aqui julgar o m√©rito das suas decis√Ķes, apenas vale a pena lembrar que o centro do poder naquele per√≠odo permaneceu no Legislativo at√© a elei√ß√£o do presidente Collor, em 1990.

Nunca foi t√£o importante para o Pa√≠s ter um Congresso Nacional forte, soberano e em sintonia com a sociedade para aprovar as reformas inadi√°veis do Estado brasileiro. O Parlamento e suas novas lideran√ßas t√™m o poder de criar a “nova pol√≠tica” – n√£o a demoniza√ß√£o infantil da pol√≠tica propagada por Bolsonaro, mas a pol√≠tica de defesa do interesse nacional, do bem-estar das pr√≥ximas gera√ß√Ķes e do zelo pelas institui√ß√Ķes democr√°ticas. Chegou a hora de os parlamentares mostrarem que n√£o temem enfrentar cara feia e cr√≠ticas de gente que defende os privil√©gios do corporativismo e do patrimonialismo. Chegou o momento de aproveitar o talento dos quadros t√©cnicos do Congresso e da boa interlocu√ß√£o pol√≠tica com a equipe econ√īmica para aprimorar as reformas e apresentar emendas que melhorem o projeto do governo. A aprova√ß√£o da reforma trabalhista no Congresso, durante o mandato do presidente Michel Temer, √© um bom exemplo. Os deputados e senadores mostraram que s√£o capazes de aprovar uma reforma ainda mais ousada e robusta do que a proposta enviada pelo Poder Executivo. O ent√£o relator da reforma trabalhista na C√Ęmara, deputado Rog√©rio Marinho, √© hoje o secret√°rio da Previd√™ncia e do Trabalho no Minist√©rio da Economia.

Os governadores e prefeitos tamb√©m ter√£o de mudar de atitude. Ser√° preciso trocar as visitas ao Pal√°cio do Planalto pela busca de solu√ß√Ķes inovadoras nos seus Estados e munic√≠pios, procurando o apoio do setor privado e do terceiro setor para suprir a car√™ncia de investimento p√ļblico em √°reas prementes, como educa√ß√£o, seguran√ßa, sa√ļde e saneamento b√°sico. A melhor forma de valorizar a boa pol√≠tica √© o Congresso, os governantes e a sociedade civil se unirem em torno da aprova√ß√£o das reformas constitucionais. Felizmente, come√ßou a surgir uma coliga√ß√£o informal – constitu√≠da por pol√≠ticos de v√°rios partidos, l√≠deres empresariais e organiza√ß√Ķes do terceiro setor – em prol das reformas, cuja atua√ß√£o pode ser decisiva para aprov√°-las no Parlamento.

Nesse sentido, o governo Bolsonaro est√° prestando um bom servi√ßo ao Pa√≠s. Est√° ajudando os governantes, os parlamentares e a sociedade civil a se desintoxicarem da depend√™ncia qu√≠mica da Presid√™ncia da Rep√ļblica. Quanto mais cedo as lideran√ßas nacionais se conscientizarem de que as solu√ß√Ķes inovadoras para os problemas prementes do Pa√≠s brotar√£o do Congresso e dos Estados e munic√≠pios, melhor para o Brasil. O destino do Pa√≠s est√° em nossas m√£os, e n√£o nas m√£os de Bolsonaro.

(*) Cientista político

Artigo publicado no jornal “O Estado de S. Paulo”, em 15/03/2019

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