“O caminho da prosperidade”, por Luiz Felipe D’Ávila

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Apesar de inúmeras turbulências políticas, a economia brasileira cresceu 7,5% ao ano durante 30 anos (1950-1980). Por um tempo fomos o país que mais cresceu no mundo. Mas governos civis e militares desperdiçaram os frutos do crescimento e do bônus demográfico para avançar com a abertura econômica e as reformas do Estado. Perdemos a chance de construir um país mais rico, estável e menos desigual.

Em 1980 o mundo embarcou numa onda de reformas liberalizantes. A abertura econômica transformou-se na grande alavanca de geração de riqueza, da modernização do Estado, da desregulamentação e do investimento maciço em educação e infraestrutura. O objetivo das nações era ganhar produtividade e competitividade nos mercados globais. Quando perguntado se a abertura comercial não representava a rendição do comunismo aos princípios do capitalismo, Deng Xiaoping, o líder chinês, respondeu que não se importava se o gato fosse branco ou preto conquanto que ele comesse o rato. Em outras palavras, se a abertura comercial é capaz de gerar riqueza para o povo e para o país, não importa o rótulo ideológico das reformas.

O Brasil padeceu desse pragmatismo político e recusou-se a abrir a economia. O resultado foi um desastre. Durante 30 anos (1980-2010) o Brasil teve dois breves veranicos reformistas: a abertura comercial no governo Collor e o Plano Real, nos governos Itamar Franco e Fernando Henrique. Esses breves espasmos de sensatez não foram suficientes para reverter o trágico percurso que resolvemos seguir. Enquanto o Brasil cresceu 2,5% ao ano nesse período, os países asiáticos cresceram 10%. Em 1960 a nossa renda per capita era 60% maior que a da Coreia do Sul, hoje é apenas um terço da coreana. A China tornou-se uma potência comercial e a Coreia do Sul tornou-se um dos países mais integrados ao comércio internacional. Mas o Brasil permaneceu uma das economias mais fechadas do mundo. Nossas exportações representam apenas 1% do comércio mundial.

A situação do País piorou muito na última década (2011-2021). Os governos Dilma e Bolsonaro derrubaram a média do crescimento econômico para perto de zero. Para agravar o problema, nosso bônus demográfico, o principal indutor do crescimento nas últimas décadas, terminará em 2030. O economista Aod Cunha traduziu em números o tamanho do desafio que teremos de enfrentar nos próximos anos. Será preciso triplicar a taxa de crescimento da produtividade total da economia para o Brasil crescer 2% ao ano.

Como dizia Albert Einstein, “os problemas com que deparamos não podem ser resolvidos no mesmo nível de pensamento em que estávamos quando eles foram criados”. Em outras palavras, Lula e Bolsonaro jamais serão capazes de tirar o Brasil da armadilha do baixo crescimento, da pobreza e da desigualdade. Ambos padecem de coragem, convicção e competência para avançar com a abertura econômica e combater os privilégios do corporativismo. Tanto Lula como Bolsonaro mantiveram a economia fechada e distribuíram privilégios ao corporativismo público e privado para garantir o apoio político ao seu governo. Lula é o pai do mensalão, Bolsonaro é o criador do tratoraço, do orçamento paralelo para comprar apoio político ao seu governo. O verniz pró-mercado de Lula caiu após dois anos de mandato, o discurso liberal de Bolsonaro tornou-se uma farsa em pouco tempo. Não houve privatização, abertura comercial ou fim de reservas de mercado no seu governo.

O retrocesso das reformas, a captura do Estado pelo corporativismo e o triunfo do populismo são frutos de um país que se fechou para o comércio internacional. Precisamos de um presidente comprometido a abrir a economia e nos tirar do atoleiro do atraso. A abertura comercial ajudará a desintoxicar o País do populismo, do corporativismo e da pobreza. Ela é essencial para impulsionar a retomada do investimento, da renda, do emprego e da diminuição da desigualdade social. Ela é vital para livrar o Brasil da corrupção, dos privilégios e do baixo crescimento. É crucial para avançarmos com as reformas do Estado e quebrar a espinha dorsal do corporativismo.

Felizmente, a maioria dos brasileiros descobriu duas coisas importantes durante a pandemia. Primeiro, aprendemos que os reais problemas do País não se resolvem elegendo salvador da pátria, mas por meio da mobilização cívica e da união de esforços do governo e da sociedade civil. Segundo, ficou claro que a maioria dos brasileiros está em busca de um candidato antipopulista: um líder capaz de conciliar a Nação e acabar com a polarização; um político honesto e ficha-limpa; uma pessoa com experiência política e administrativa que governe o País de maneira radicalmente oposta ao estilo do atual governo; um presidente sensível às demandas dos menos favorecidos e capaz de resgatar a reputação internacional do Brasil. Cabe à política e aos partidos do polo democrático se unirem em torno de um nome para preencher o quadro, cuja moldura os eleitores já definiram ao listar os atributos que esperam do próximo presidente.

(*) Cientista político, autor do livro “10 Mandamentos – Do Brasil que somos para o país que queremos”

Artigo publicado em O Estado de S. Paulo, 26/05/2021

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