“FHC, 90: um homem al√©m do seu tempo”, por Bruno Ara√ļjo

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Uma na√ß√£o se constr√≥i com o empenho de homens e mulheres. Com hist√≥rias individuais e esfor√ßos coletivos. Se faz, sobretudo, com dedica√ß√£o, respeito, toler√Ęncia e com firme compromisso com o interesse comum de um povo. Fernando Henrique Cardoso, que completa nesta sexta-feira (18) 90 anos de vida, sintetiza todas essas qualidades. Merece, de todos os brasileiros, o reconhecimento.

Feliz do pa√≠s que pode contar com um l√≠der como o presidente que governou o Brasil entre 1995 e 2002, eleito e reeleito em primeiro turno. Fernando Henrique tem uma vida inteira dedicada a mudar, para melhor, os rumos da na√ß√£o. Desde seus primeiros passos como professor de ci√™ncias sociais na USP at√© os dias atuais, mant√©m-se incans√°vel na miss√£o de engendrar, com esfor√ßos m√ļltiplos e diversificados, um mundo mais justo.

Fernando Henrique √© um raro e feliz caso de te√≥rico que p√īde colocar suas ideias em pr√°tica. Seus oito anos de governo mudaram os rumos do pa√≠s, redefiniram nosso papel no concerto das na√ß√Ķes e transformaram a vida dos brasileiros, depois de d√©cadas de arb√≠trio pol√≠tico e de desordem econ√īmica. N√£o √© pouca coisa e um pouco de hist√≥ria se faz necess√°ria para aquilatar a import√Ęncia de sua gest√£o para o Brasil.

No início dos anos 1990, o país vinha de quase uma dezena de tentativas fracassadas de debelar um processo hiperinflacionário que, em questão de horas, transformava o valor da nossa moeda em pó. Tamanha corrosão penalizava sobretudo os mais pobres, que não tinham como proteger seu capital da carestia. Nomeado ministro da Fazenda pelo presidente Itamar Franco, Fernando Henrique liderou a equipe que, a partir de julho de 1994, implantou o Plano Real e debelou uma inflação que chegara a 2.477% no ano anterior.

Foi o come√ßo de uma verdadeira revolu√ß√£o social. O controle da infla√ß√£o permitiu a milh√Ķes de brasileiros acesso a um mercado de consumo que at√© ent√£o lhes era inalcan√ß√°vel. Milh√Ķes de fam√≠lias ascenderam socialmente. Depois de d√©cadas, o Brasil podia voltar a planejar um futuro. Em paralelo, o governo do presidente p√īs em marcha um programa de moderniza√ß√£o calcado na redefini√ß√£o do papel do Estado, no incentivo ao investimento privado e na maior abertura da economia brasileira ao mercado internacional. N√£o se olvide, ainda, a cria√ß√£o, pela primeira vez na hist√≥ria do pa√≠s, de uma robusta rede de prote√ß√£o social longe do assistencialismo e muito mais perto da sociedade civil ‚ÄĒpara o que a vis√£o e a atua√ß√£o arrojada de Ruth Cardoso tamb√©m muito colaboraram.

A consequência foi a transformação do Brasil de uma economia apartada do jogo internacional num dos principais players do mercado global que então se reconstituía. Sem a liderança de Fernando Henrique, é lícito supor que poderíamos ter perdido o bonde da história e talvez estivéssemos hoje parados numa estação ainda mais distante do almejado desenvolvimento com mais igualdade social que ora ainda buscamos.

Temas que hoje estão no centro do debate já o ocupavam há tempos. Mais de seis décadas atrás já se dedicava a estudar o racismo estrutural brasileiro a partir de experiências reais observadas pelo diligente sociólogo na região Sul do país. Ainda nos anos 1960, já buscava entender o papel e a relação entre economias desenvolvidas e aquelas então ditas periféricas num mundo que apenas décadas depois se globalizaria.

Inquieto, o presidente mant√©m-se um pensador ativo, um intelectual corajoso e um homem p√ļblico respeitado. L√ļcido e instigante, continua inspirando os melhores esfor√ßos de transforma√ß√£o do pa√≠s ‚Äď uma utopia sempre perseguida, mas ainda n√£o de todo concretizada. Ao completar seus 90 anos de vida, Fernando Henrique preserva consigo seu mais v√≠vido atributo: ser um homem al√©m do seu tempo.

Mas √© nos valores mais constitutivos de sua personalidade que o nosso sempre presidente mais tem a nos inspirar nos sombrios dias atuais. Fernando Henrique Cardoso perfila entre os l√≠deres que mais inspiram seus povos naquilo que uma na√ß√£o tem de mais precioso: no respeito aos demais, na pr√°tica cotidiana da toler√Ęncia, na busca incessante da constru√ß√£o de converg√™ncias. Em s√≠ntese, √© um democrata no seu estado mais puro, em tempo integral.

Num momento em que, infelizmente, sofremos a escassez de quadros pol√≠ticos, Fernando Henrique √© uma refer√™ncia para as novas gera√ß√Ķes que buscam a vida p√ļblica. Mas n√£o apenas. O presidente tamb√©m entusiasma jovens de todas as idades a se lan√ßarem ativamente na constru√ß√£o de um futuro melhor, ao debater, sem medo nem preconceito, quest√Ķes t√£o relevantes para o mundo contempor√Ęneo quanto a vida social em redes, o combate √† viol√™ncia e a busca de respostas realistas e eficazes no enfrentamento ao flagelo das drogas.

N√≥s, brasileiros realmente empenhados na constru√ß√£o de um pa√≠s melhor, menos desigual, mais pr√≥spero e civilizado, mais humano e justo, temos em Fernando Henrique Cardoso a maior inspira√ß√£o de l√≠der e homem p√ļblico. Uma na√ß√£o que busca um futuro melhor precisa desesperadamente de exemplos, de bons exemplos. Ele √©. Os 90 anos do nosso presidente da Rep√ļblica confirmam uma hist√≥ria de vida que engrandece o Brasil, honra os brasileiros e nos motiva a lutar ainda mais. Feliz anivers√°rio, presidente!

(*) Presidente Nacional do PSDB

Artigo publicado na Folha de S.Paulo, em 18/06/2021

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