“As li√ß√Ķes da pandemia”, por Marcus Pestana

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Chegamos a mais de 135 mil vidas brasileiras perdidas para a COVID-19. L√° se v√£o seis meses de pandemia. Todas as guerras e as grandes crises promoveram al√©m de v√≠timas, mudan√ßas, inova√ß√Ķes e novas oportunidades. Al√©m da tristeza, ficam as li√ß√Ķes.

O primeiro aprendizado √© que, apesar de nossa federa√ß√£o n√£o garantir o grau de autonomia como nos EUA aos entes subnacionais, e os munic√≠pios n√£o serem, diferente do Brasil, componentes da estrutura da organiza√ß√£o federativa na maioria dos pa√≠ses, e o Supremo Tribunal Federal ter decidido unanimemente em abril que al√©m do governo federal, governos estaduais e municipais tinham compet√™ncia para determinar regras de gest√£o da pandemia em seu territ√≥rio, a coordena√ß√£o federal √© imprescind√≠vel. O governo federal fez uma interpreta√ß√£o torta da decis√£o do STF e renunciou √† lideran√ßa nacional. Transferiu para governadores e prefeitos toda a responsabilidade de gerir a situa√ß√£o de crise. E mais, numa postura negacionista, sinalizou contra a estrat√©gia de isolamento social, entrou em conflito com estados e munic√≠pios, politizou a quest√£o da cloroquina, abriu m√£o de centralizar a compra de equipamentos e medicamentos ‚Äď atitude que evitaria v√°rias situa√ß√Ķes de desabastecimento e corrup√ß√£o- e deixou de orientar corretamente a popula√ß√£o.

Outro legado importante √© a percep√ß√£o da centralidade da comunica√ß√£o social nas pol√≠ticas p√ļblicas. Enquanto t√≠nhamos as entrevistas di√°rias do ent√£o ministro Luiz Henrique Mandetta se estabeleceu uma rela√ß√£o de confian√ßa, empatia e de tranquilidade social, na medida do poss√≠vel. Havia um rumo. Depois que o governo central parou de se comunicar com o pa√≠s ou passou a emitir sinais equivocados, a popula√ß√£o se sentiu √≥rf√£ e insegura em rela√ß√£o a medicamentos, isolamento social, vacinas, preven√ß√£o, testes, etc.

Aprendizado importante ser√° a valoriza√ß√£o do SUS, da aten√ß√£o prim√°ria e das a√ß√Ķes de preven√ß√£o em sa√ļde. N√≥s, gestores do SUS, sempre tentamos mostrar que, apesar de todas as dificuldades financeiras e de gest√£o, o sistema tinha uma boa arquitetura e segurava a barra. Os dados reafirmam as desigualdades brasileiras. A mortalidade foi maior entre pobres e negros. A mortalidade foi maior nos hospitais p√ļblicos do que nos privados. Mas, no limite de suas for√ßas, o SUS deu conta do recado. E ficou claro que nos pr√≥ximos anos n√£o haver√° recursos abundantes adicionais para o SUS, nem aumento da renda das fam√≠lias que as permitam contratarem planos privados. Por isso, ao inv√©s de erguermos ‚ÄúMuralhas da China‚ÄĚ temos que perseguir o di√°logo entre o SUS e a sa√ļde suplementar, numa parceria que produza ganhos m√ļltiplos.

Os ensinamentos da crise s√£o v√°rios, mas o espa√ßo aqui √© curto. Sem saudosismos de estrat√©gias cepalinas de substitui√ß√£o de importa√ß√Ķes dos anos de 1950, temos que estar atentos √† necessidade de seletivamente termos produ√ß√£o local de itens essenciais para n√£o ficarmos t√£o dependentes em momentos assim de pa√≠ses como √ćndia e China. Tamb√©m √© impressionante a desburocratiza√ß√£o que ocorreu durante a crise. Decis√Ķes que demoravam anos foram decididas em semanas. Fica a li√ß√£o: √© poss√≠vel um governo √°gil. Gostaria de falar sobre a mudan√ßa nos processos de trabalho, home work, tele-sa√ļde, tele-educa√ß√£o, inova√ß√Ķes e e-comerce, solidariedade social, mas o espa√ßo acabou.

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