“Angela Merkel, a Alemanha e o Brasil”, por Marcus Pestana

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Fecharam-se as urnas na Alemanha. Revelou-se a esperada pulverização da representação no parlamento alemão. Angela Merkel se despede da vida pública. Será que nós brasileiros temos algo a aprender com ela e com o processo político alemão?

Merkel assumiu o posto de chanceler alemã em 2005, após ter sido Ministra do Meio Ambiente do governo Helmut Kohl e líder da oposição no governo da socialdemocracia alemã subsequente. Sendo química quântica, logo revelou seu talento para decifrar a “química da política”. Foi a mais destacada estadista global dos últimos anos, ao lado de Barack Obama, e a mais longeva.

Foi a grande responsável pela consolidação da União Europeia e da Zona do Euro, com destacado papel no Tratado de Lisboa e na Declaração de Berlim.

Embora seu partido, a União Democrata-Cristã (CDU), seja classificado como de centro-direita conservadora, tomou posições extremamente progressistas na crise financeira global de 2008; na reforma do sistema de saúde alemão; nas discussões sobre a matriz energética, fontes renováveis e aquecimento global; e, na crise migratória, se diferenciado dos líderes mundiais de extrema-direita como Trump. Ao invés de muros, construiu pontes humanitárias.

Merkel teve papel destacado no G7 e na manutenção de uma posição de equilíbrio no mundo globalizado. Tinha fobia de cães, traço adquirido na infância, e enfrentou a incivilidade de Putin, numa coletiva conjunta, quando o líder russo, para a intimida-la, apareceu com seu Labrador Retriever. Sua personalidade marcante e seu caráter ficaram claros em declaração posterior: “Eu entendo que ele tem que fazer isso – para provar que ele é homem – ele tem medo da própria fraqueza”. Sua austeridade pessoal sempre encantou os alemães.

Nas eleições de 2021, há uma semana, mais uma vez esboçou-se a complexa pulverização da representação partidária no Bundestag. A socialdemocracia fez 25,7% dos votos e 206 cadeiras. A aliança CDU/CSU fez 24,1% e 196 deputados. O Partido Verde roubou da extrema-direita a posição de terceiro maior partido, com 14,8% dos votos e 118 cadeiras. O Partido Democrático Liberal (FDP) totalizou 11,5% dos votos e conquistou 92 postos no parlamento. A extrema direita representada pela AFD caiu para 10,3% dos votos e terá 83 deputados. A Esquerda foi salva pelo gongo. Fez 4,9% dos votos, mas mesmo não cumprindo a cláusula de barreira de 5%, elegeu 3 deputados distritais, carregando 39 representantes para o parlamento.

Tudo indica que o candidato da SPD, Olaf Scholz, será o novo chanceler, mas terá que organizar maioria estável com Verdes e Liberais, deixando a CDU na oposição. Scholz, apesar de oposição a Merkel, era seu Ministro das Finanças. Coisas do parlamentarismo para embaralhar a cabeça dos brasileiros entretidos como a polarização radical e estéril. Aliás, três dos quatro mandatos de Merkel foram baseados em acordos programáticos entre a CDU e a Socialdemocracia alemã.

O que temos a aprender? Primeiro, que um verdadeiro estadista tem que ter convicções, posições claras, firmeza e liderança. Segundo, a superioridade do parlamentarismo e do voto distrital misto, que sempre defendi no Congresso brasileiro, para a estabilidade institucional e a construção do futuro. Terceiro, que o diálogo, a negociação e o respeito aos diferentes é a matéria prima essencial da política.

(*) Economista e consultor do ITV, foi deputado federal pelo PSDB-MG

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