“A transi√ß√£o inconclusa e a nova gera√ß√£o de l√≠deres”, por Marcus Pestana

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A sociedade brasileira se cansou daquela est√≥ria do Brasil ser o pa√≠s do futuro, j√° que h√° d√©cadas trope√ßamos em crises variadas e permanentes que nos brindam com um ‚Äúvoo de galinha‚ÄĚ na economia e um passivo enorme e inaceit√°vel no campo social.

A gera√ß√£o da redemocratiza√ß√£o tinhas objetivos ousados e generosos. A agenda democr√°tica dos anos de 1970 ‚Äď anistia ampla e geral, constituinte livre e soberana e elei√ß√Ķes diretas para presidente ‚Äď carregava uma utopia muito maior. N√£o s√≥ a conquista das liberdades democr√°ticas, dos direitos individuais, mas a constru√ß√£o da cidadania substantiva para todos a partir da consolida√ß√£o dos direitos m√≠nimos √† renda, ao emprego, √† seguran√ßa alimentar, √† sa√ļde e educa√ß√£o de qualidade, √† habita√ß√£o e ao saneamento. Este √© o esp√≠rito da ‚ÄúConstitui√ß√£o Cidad√£‚ÄĚ de 1988.

Fomos vitoriosos na conquista da democracia, ao derrotar a infla√ß√£o e na moderniza√ß√£o parcial da economia. Conquistamos um sistema p√ļblico de sa√ļde de acesso universal e cobertura integral, que trope√ßa aqui e ali, mas avan√ßa. Universalizamos o ensino fundamental. Iniciamos a constru√ß√£o de uma rede de prote√ß√£o social. Mas a trajet√≥ria sonhada ainda est√° inconclusa.

Como comemorar se ainda temos mis√©ria e fome, metade da popula√ß√£o sem saneamento, condi√ß√Ķes inadequadas de moradia, desemprego alarmante, educa√ß√£o com n√≠veis de qualidade visivelmente insuficientes, desindustrializa√ß√£o, √™xodo de c√©rebros jovens, baixa capacidade de inova√ß√£o e uma grave crise fiscal permanente que inibe a a√ß√£o necess√°ria das pol√≠ticas p√ļblicas?

A Nova Rep√ļblica se caracterizou, fora a passagem mete√≥rica de Collor, pela polariza√ß√£o entre PSDB e PT. Outros atores, como PMDB e PFL, foram importantes. A elei√ß√£o de 2018 foi disruptiva. Decretou o fim deste ciclo pol√≠tico. O tsunami da ‚Äúnova pol√≠tica‚ÄĚ contra a suposta ‚Äúvelha pol√≠tica‚ÄĚ, ancorado na frustra√ß√£o com o mensal√£o, a Lava Jato, a recess√£o a partir de 2014 e a crise do impeachment de Dilma, implodiu as bases de do presidencialismo de coaliz√£o reinante. Com a experi√™ncia concreta nos governos federal e estaduais, a ‚Äúnova pol√≠tica‚ÄĚ mostrou que n√£o era t√£o nova e decepcionou.

Olhando para o futuro pr√≥ximo, ou seja, para as elei√ß√Ķes de 2022, poderemos ter um embate entre o passado e o presente. Ainda √© poss√≠vel que surja um nome que fale em nome do futuro.

O grande escritor paraibano-pernambucano Ariano Suassuna sempre dizia que o pessimista é um chato, o otimista um ingênuo, e que ele era um realista esperançoso. Nesta ótica, e olhando para além de 2022, é possível ser um realista esperançoso. Há uma nova geração de lideranças políticas, com energia e consciência dos novos tempos, surgindo. Independente de orientação política e ideológica podemos citar Eduardo Leite, Eduardo Paes, Marcelo Freixo, Rodrigo Garcia, Boulos, Dória, Fernando Haddad, ACM Netto, Rui Costa, Ratinho Jr, Rodrigo Pacheco, Zema, Kalil, João Campos, Camilo Santos, Simone Tebet, as lideranças emergentes do bolsonarismo e outros jovens governadores.

O Brasil tem pressa. Oxalá, 2022 já abra as portas para o futuro. Mas se o parto do verdadeiro novo não ocorrer já, que abramos espaço para que esta nova geração possa finalmente concluir a longa e sofrida transição e materializar de forma mais acabada os sonhos de Ulysses, Tancredo e dos Constituintes.

(*) Economista e consultor do ITV, foi deputado federal pelo PSDB-MG

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