“A complicada geometria pol√≠tica”, por Marcus Pestana

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A arte da pol√≠tica √© produzir consensos progressivos diante das diverg√™ncias presentes. L√≠deres como Tancredo Neves, Ulysses Guimar√£es, Franco Montoro, FHC, Petr√īnio Portela, Marco Maciel se esmeravam na constru√ß√£o de converg√™ncias. Foi assim na anistia, na elei√ß√£o de Tancredo no col√©gio eleitoral, na Assembleia Nacional Constituinte eleita em 1986.

No cen√°rio atual, n√£o. Num ambiente de radicaliza√ß√£o extremada, os populistas autorit√°rios, os ‚Äúengenheiros do caos‚ÄĚ, n√£o querem o di√°logo. Dentro de sua l√≥gica, a exacerba√ß√£o, a obstru√ß√£o do contradit√≥rio e a anula√ß√£o da legitimidade dos advers√°rios operam em favor da manuten√ß√£o do quadro de polariza√ß√£o radical e fideliza√ß√£o de suas bases sociais.

Hoje, abordo o di√°logo o ex-governador e senador Cristovam Buarque, ator pol√≠tico comprometido com o interesse p√ļblico e portador de grande inquieta√ß√£o intelectual. Recentemente, ele, no artigo ‚ÄúO PT √© Centro‚ÄĚ introduziu uma saud√°vel provoca√ß√£o, reivindicando que o PT deveria ter sido convidado para a reuni√£o dos l√≠deres dos partidos do chamado ‚Äúcentro democr√°tico‚ÄĚ, que buscam construir uma alternativa nas presidenciais de 2022. Depois de an√°lise onde caracteriza o PT como um partido de centro, conclu√≠: ‚ÄúPor sua for√ßa e por sua posi√ß√£o centrista, o PT deveria ter sido convidado. Salvo se aqueles que fizeram a reuni√£o se considerarem de direita, onde realmente o PT n√£o se situa‚ÄĚ. Mas como disse a ele, nem uma coisa, nem outra. Nem o PT √© centro, se situando no campo da esquerda brasileira, nem os partidos reunidos s√£o de direita.

Fato √© que a geometria pol√≠tica contempor√Ęnea √© extremamente complexa. Os conceitos de centro, direita e esquerda est√£o embaralhados. O debate no s√©culo XX era polarizado entre reacionarismo, liberalismo, socialdemocracia e comunismo. O reacionarismo continua presente em algumas ditaduras e amea√ßas antidemocr√°ticas. O liberalismo mostrou suas debilidades na crise global de 2008. A socialdemocracia trope√ßou nos limites fiscais de expans√£o dos Estados de Bem Estrar europeus. E o comunismo veio abaixo com a queda do Muro de Berlim e a dissolu√ß√£o da URSS e do Leste Europeu.

Diante disto √© preciso, mais do que nunca, desprender-se dos paradigmas cl√°ssicos e dos r√≥tulos, e se concentrar na agenda de transforma√ß√Ķes necess√°rias. Quais s√£o as quest√Ķes que devem unir?

Os eixos essenciais s√£o: i. defesa radical da democracia e da liberdade, individual, pol√≠tica, coletiva, econ√īmica; ii. Constru√ß√£o de um novo modelo econ√īmico eficiente e inclusivo; iii. A√ß√£o contundente contra as iniquidades sociais, atrav√©s da transfer√™ncia direta de renda aos mais pobres e de pol√≠ticas p√ļblicas sociais criativas; iv. Defesa da sustentabilidade ambiental e v. Constru√ß√£o do Estado socialmente necess√°rio, enxuto, forte e moderno com interven√ß√Ķes calibradas coerentes com os demais objetivos.

Norberto Bobbio deu uma not√°vel contribui√ß√£o te√≥rica a esta busca. O Partido Comunista Italiano produziu o ‚Äúaggiornamento‚ÄĚ que resultou em sua extin√ß√£o e na cria√ß√£o do PD italiano. Biden, Merkel, Macron buscam construir alternativas √†s perspectivas extremadas.

Para al√©m dos r√≥tulos, na complexa geometria pol√≠tica, precisamos unir como bem resumiu o ex-governador e ministro Moreira Franco ‚Äúa esquerda da direita e a direita da esquerda‚ÄĚ em torno da agenda substantiva que realmente interessa ao futuro do Brasil.

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