“Liberdade – essa palavra”, por Marcus Pestana

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Se há um sentimento natural do ser humano é sua vocação para a liberdade. A antropologia nos revela como a liberdade está impregnada na natureza humana. O poder originário era exercido a partir dos costumes, da idade e da sabedoria dos membros da comunidade. Não havia Estado, propriedade, família, herança, acumulação de riquezas, religião.

O exercício da liberdade individual e coletiva não é e nunca foi questão pacífica. E cá estamos, em pleno século XXI, novamente às voltas com o tema. Somos diversos, somos diferentes. E temos que aprender a conviver com as diferenças na diversidade.

Veio-me à cabeça o tema, porque na mesa ao lado do café em um hotel estava um casal e um amigo manifestando alto suas idiossincrasias quanto à vacina contra a COVID-19, suas desconfianças e a convicção de que não vão se vacinar de forma alguma. A sabedoria popular repete a esmo que “a nossa liberdade termina onde começa a dos outros”. A liberdade individual nem sempre é solidária à liberdade coletiva. Até que ponto individualmente tenho a liberdade de não usar máscara, de provocar aglomerações e não me vacinar, colocando em risco a saúde coletiva?

Também um amigo liberal me questionou que decisões do STF são abusivas ao constrangerem a “liberdade de opinião” de pessoas que ameaçam autoridades e instituições, propagam a violência, às vezes de arma em punho, e usam a liberdade proporcionada pela democracia para abalar os pilares e a sobrevivência da própria democracia. Opinar, sim, sempre; conspirar contra a ordem constitucional democrática, não, nunca.

Disse certa vez Rousseau: “O homem nasceu livre e por toda a parte vive acorrentado”. A liberdade permanentemente corre riscos. Por isso é conquista e construção permanentes, e nunca irreversível. Talvez tenha sido por isso que Thomas Jefferson afirmou: “O preço da liberdade é a eterna vigilância”.

Freud em textos como “Futuro de uma ilusão”, “Mal estar na civilização” e “Totem e Tabu” descreve como a situação do homem na sociedade é marcada pelo antagonismo inevitável entre as exigências do instinto e as restrições da civilização. Como escreveu certa vez Simone de Beauvoir: “O homem é livre, mas ele encontra a lei na sua própria liberdade” e completou: “Querer ser livre é também querer livres os outros”. Liberdade é escolher caminhos. Mas, como quis Neruda: “Você é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências”.

Qual é a bússola da busca da liberdade? Talvez Tolstói tenha razão: “Não alcançamos a liberdade buscando a liberdade, mas sim a verdade. A liberdade não é um fim, mas uma consequência”. Na economia e na política, Adam Smith, Stuart Mill, Marx, Keynes, Hayek e Friedman tinham visões diferentes sobre a liberdade.

Liberdade é tema controverso e polêmico. A democracia brasileira é uma jovem planta tenra. Nunca é demais lembrar que há apenas 133 anos tínhamos escravidão em nosso país. O atual ciclo democrático sobrevive a curtos 36 anos. Podemos discordar sobre tudo, mas um pacto silencioso e quase unânime temos que celebrar: a defesa da liberdade e da democracia.

Porque afinal, quem estava mesmo certa, era Cecília Meireles, no seu “Romanceiro da Inconfidência” e não me canso de repetir: “Liberdade – essa palavra que o sonho humano alimenta: que não há ninguém que explique, e ninguém que não entenda”.

(*) Economista, consultor do ITV, foi deputado federal pelo PSDB-MG

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