Rep√ļdio √† barb√°rie

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N√£o √© apenas mais um caso de homens que violentam mulheres. √Č todo um povo vilipendiado. √Č o Brasil t√£o atrasado quanto antes

A viol√™ncia praticada contra uma jovem de 16 anos no Rio √© um atestado do atraso em que o pa√≠s encontra-se mergulhado. O estupro coletivo de que ela foi v√≠tima retrata a barb√°rie, a incivilidade, a aus√™ncia de valores e o esp√≠rito de vale-tudo que parece dominar o Brasil de norte a sul. √Č muito mais do que o atentado vil a uma mulher.

O ato choca por si: mais de 30 homens teriam estuprado uma jovem, conduzida dopada a uma alcova num dos morros do Rio. Os procedimentos o tornam ainda mais abjeto: as imagens da viol√™ncia foram postadas na internet para que mais gente pudesse compartilh√°-la. As circunst√Ęncias expressam o n√≠vel do esc√°rnio: os criminosos exibiram-se √†s c√Ęmeras e zombaram da v√≠tima, como quem n√£o teme a lei.

Infelizmente, foi apenas mais um episódio desta natureza no Brasil. Segundo a estatística mais chocante, uma mulher é estuprada no país a cada 11 minutos. Como a subnotificação é a regra neste tipo de crime, é possível que, ao final da leitura deste texto, mais uma vítima tenha se somado a este mórbido cadastro.
Sim, as mulheres são vítimas (des)privilegiadas de uma sociedade desequilibrada, doente. São maioria da população, mas têm direitos proporcionalmente menores que os homens. Ganham menos, trabalham mais. São alvo das piores violências, dentro e fora de casa, de gente conhecida e desconhecida.

Mas a ocorr√™ncia do Rio, acontecida dez dias atr√°s, mas tornada p√ļblica apenas no feriado, diz mais de quanto o pa√≠s est√° devendo a seus cidad√£os. A jovem estuprada tem 16 anos e tem um filho de tr√™s anos. A acreditar na f√°bula que nos foi contada incessantemente por mais de uma d√©cada, m√£e e crian√ßa deveriam estar vivendo uma vida mais digna. Mas n√£o.

As imensas classes desprivilegiadas vivem hoje t√£o mal quanto viviam no in√≠cio do s√©culo. O pa√≠s jogou no lixo a maior chance de prosperidade experimentada em d√©cadas e negligenciou a suas crian√ßas, seus jovens, suas mulheres, seus idosos, seus trabalhadores uma chance de realmente viver pelo menos um pouco melhor. O boom de crescimento foi consumido em ilus√Ķes e quinquilharias.

Nada de melhor educa√ß√£o, nada de sa√ļde de qualidade e muito menos de saneamento decente. Continua-se vivendo exposto √† viol√™ncia di√°ria, cada vez mais rude; √† imposs√≠vel condi√ß√£o de mobilidade nas cidades; a um Estado que lhe vira as costas quando √© mais necess√°rio. O Brasil continua t√£o atrasado quanto sempre esteve.

O pior que o caso em quest√£o pode suscitar √© alimentar mais uma briga pol√≠tica e ideol√≥gica, no Fla-Flu insano em que tudo no Brasil se transforma hoje. N√£o √© apenas o caso de homens que desrespeitam mulheres. √Č isso e bem mais: todo um povo que √© vilipendiado pela indiferen√ßa, pelo descaso, pelo desrespeito cotidiano. A decad√™ncia, o subdesenvolvimento, a ru√≠na, as priva√ß√Ķes s√£o ainda maiores.

РCarta de Formulação e Mobilização Política N 1371

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