Pisando na bola

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Resultado do Brasil em exame global de educação mostra país cada vez mais para trás, alunos que aprendem cada vez menos e prioridades ainda desfocadas no ensino nacional

A cada tr√™s anos, o Pisa exp√Ķe ao resto do mundo o vexame das condi√ß√Ķes da educa√ß√£o brasileira. Enquanto outros pa√≠ses avan√ßam, vamos ficando cada vez mais para tr√°s. Se o Brasil quer mudar, precisa come√ßar pelo que √© ensinado nas salas de aula. O que est√° em jogo √© o destino de toda a¬†na√ß√£o.

O exame √© realizado a cada tr√™s anos pela OCDE. Investiga as habilidades de estudantes de 15 anos de idade em ci√™ncias, matem√°tica e leitura. Nas tr√™s dimens√Ķes, o Brasil tem fracassado: exceto em matem√°tica, as notas m√©dias dos alunos do pa√≠s est√£o estagnadas em rela√ß√£o ao verificado¬†na¬†d√©cada passada. √Č muito tempo perdido.

Entre 70 pa√≠ses, o Brasil aparece agora no 59¬į lugar no ranking de leitura, em 63¬į no de ci√™ncias e em 65¬į¬†nalista de matem√°tica, de acordo com os resultados divulgados ontem pela¬†OCDE. Mais grave, entre 51% e 70% dos alunos brasileiros, conforme a √°rea sob avalia√ß√£o, n√£o sabem o b√°sico, o que significa n√£o terem condi√ß√Ķes m√≠nimas de exercer plenamente a cidadania.

Na¬†outra ponta, somente 2,2% dos estudantes do Brasil conseguem atingir os dois n√≠veis m√°ximos da escala de avalia√ß√£o do Pisa em pelo menos uma das disciplinas investigadas, enquanto a m√©dia mundial se situa em 15,3%, de acordo com o¬†texto-s√≠ntese¬†do relat√≥rio publicado em Paris. Em suma, estamos (mal) formando gera√ß√Ķes sem quaisquer perspectivas de futuro.

Na¬†m√©dia, o Brasil est√° 100 pontos abaixo dos pa√≠ses da OCDE. O que isso representa? Significa que um brasileiro que tenha dez anos de estudos sabe tanto quanto um aluno de 6¬į ano de um pa√≠s desenvolvido, compara Jo√£o Batista Araujo e Oliveira no¬†Valor Econ√īmico. Ou seja, gasta 2/3 a mais de tempo para aprender a mesma coisa ou, por outra, demora quatro anos mais para saber o mesmo.

Os resultados conhecidos ontem escancaram o malogro das pol√≠ticas de educa√ß√£o adotadas no pa√≠s nos √ļltimos anos. Exemplos de sucesso s√£o exce√ß√Ķes. D√° para apontar, por exemplo, iniciativas que levaram o Esp√≠rito Santo ao topo do ranking entre os estados; a relativa excel√™ncia que ainda exibem as institui√ß√Ķes federais de educa√ß√£o e as experi√™ncias bem sucedidas de ensino t√©cnico profissionalizante e em tempo integral. E s√≥.

O Brasil n√£o gasta pouco em educa√ß√£o –¬†cerca de 5% do PIB, conforme dados da¬†OCDE¬†de 2013, com o or√ßamento do MEC tendo subido de R$ 43 bilh√Ķes para R$ 130 bilh√Ķes nos √ļltimos 12 anos, segundo¬†O Estado de S. Paulo. Mas gasta muito mal. A Uni√£o despeja dinheiro no ensino superior e deixa a educa√ß√£o b√°sica √† m√≠ngua, sob responsabilidade de estados e munic√≠pios.

A demonstra√ß√£o de que a pol√≠tica educacional brasileira est√° mal direcionada est√°¬†tamb√©m¬†na¬†constata√ß√£o de que pa√≠ses que investem at√© menos alcan√ßam desempenho bem melhor no Pisa, como Col√īmbia e M√©xico. Em alguns casos, como o do Peru, estamos sendo ultrapassados por quem tem muito menos recursos √† disposi√ß√£o para gastar.

Especialistas s√£o un√Ęnimes em apontar a m√° forma√ß√£o dos professores como cerne das dificuldades do ensino brasileiro, o que o desempenho ruim tamb√©m das escolas particulares –¬†supostamente melhor aparelhadas para educar –¬†corrobora. Os docentes precisam oferecer menos ideologia e mais conhecimento e di√°logo com os contextos e as habilidades dos alunos.

Melhorar os anos iniciais de forma√ß√£o dos alunos, com foco¬†na¬†alfabetiza√ß√£o, tamb√©m comp√Ķe o rol de iniciativas urgentes. Para tanto, contribuiria recalibrar os investimentos p√ļblicos em favor das fases introdut√≥rias de ensino e n√£o do seleto topo da pir√Ęmide de aprendizagem, representado pelas universidades.

N√£o menos importante s√£o a redefini√ß√£o dos conte√ļdos que devem compor a base curricular nacional, atualmente em discuss√£o no MEC, e a imperativa reforma do ensino m√©dio, que, para avan√ßar no Congresso, precisar√° vencer a resist√™ncia das corpora√ß√Ķes e dos grupos de press√£o que preferem que tudo continue como est√°. Esta √© uma briga boa de travar. Os jovens brasileiros agradecer√£o e o pa√≠s aprender√° mais.

– Carta de Formula√ß√£o e Mobiliza√ß√£o Pol√≠tica N¬ļ 1493

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