Não vai ser fácil para ninguém

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A eleição de Donald Trump provoca uma mudança de patamar no grau de urgência das reformas no Brasil e torna a aprovação dessas medidas ainda mais obrigatórias

O que já não seria fácil a partir de hoje ficou mais difícil. A eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos pode turvar o horizonte mundial, e de alguma forma afetar a recuperação do Brasil. Num mundo mais fechado, mais avesso ao comércio internacional e mais beligerante, gerar desenvolvimento e bem-estar pode ficar mais complicado, o que só torna a agenda de reformas do país ainda mais urgente e obrigatória.

A perplexidade com o resultado, conhecido por volta das 5h30 desta madrugada, envolve todo o mundo –¬†at√© mesmo o vencedor transparecia surpresa no discurso que fez logo depois… A primeira rea√ß√£o generalizada √© de temor, uma vez que a ret√≥rica do republicano carrega tudo o que a comunidade global n√£o gostaria de –¬†nem precisava –¬†ver e ouvir neste momento.

A plataforma de campanha de Trump foi constru√≠da com base no fechamento das fronteiras dos EUA ao livre-com√©rcio, postura belicosa em rela√ß√£o a alguns grupos e na√ß√Ķes, restri√ß√Ķes √† imigra√ß√£o e confronto a consensos como o do aquecimento global e da igualdade de direitos de g√™nero e ra√ßa.¬†Alguns j√° afirmam que a vit√≥ria dele pode marcar o in√≠cio de uma nova era hist√≥rica –¬†pior que a atual.

A despeito disso, Trump vai governar a maior democracia do mundo, com institui√ß√Ķes s√≥lidas e um consolidado sistema de freios e contrapesos, o que dever√° dosar o √≠mpeto dessa agenda. Al√©m disso, embora os republicanos¬†tenham mantido maioria no Congresso, o presidente eleito n√£o conta com apoio autom√°tico de muitas de suas lideran√ßas e precisar√° fazer ajustes entre suas pr√≥prias bandeiras e as de seu partido.

Para o Brasil, o triunfo do republicano chega em¬†momento¬†de crise. A pol√≠tica e a economia brasileira n√£o mereceram aten√ß√£o alguma de Trump na campanha e pode¬†continuar¬†assim –¬†nem com o democrata Barack Obama vinha sendo diferente.

Dado o discurso francamente protecionista de Trump –¬†um dos principais pilares de sua campanha -,¬†pode¬†ficar¬†mais dif√≠cil para as empresas brasileiras vender e fazer neg√≥cios l√° fora. Nossas exporta√ß√Ķes para os EUA, que no ano passado j√° haviam diminu√≠do 12,2% em rela√ß√£o √† m√°xima hist√≥rica, anotada em 2008, podem¬†a cair mais. Outros mercados, como a China, hoje nosso principal comprador, tamb√©m ser√£o afetados.

Com os EUA mais reticentes √† globaliza√ß√£o e o resto do mundo mais temeroso em rela√ß√£o aos destinos do globo, o empuxo que poderia vir do exterior para ajudar a economia brasileira a deixar para tr√°s a recess√£o pode perder for√ßa.¬†A alta de 1% do PIB nacional com que o ministro Henrique Meirelles conta¬†para 2017, conforme manchete da edi√ß√£o de hoje do Valor Econ√īmico, depender√° ainda mais da remada de todos n√≥s do que um eventual vento a favor vindo de fora.

A eleição de Donald Trump obriga uma mudança de patamar no grau de urgência das mudanças necessárias no Brasil. Se antes já era preciso barrar o aumento de gastos, agora é obrigatório fazer isso o quanto antes. As reformas para retomar o desenvolvimento são inadiáveis. Não resta ao Brasil outra alternativa senão ser muito mais incisivo na guinada por um país com mais responsabilidade fiscal,  emprego, eficiência e produtividade, e menos desperdício, privilégios e desigualdades.

– Carta de Formula√ß√£o e Mobiliza√ß√£o Pol√≠tica N¬ļ 1474

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