Golpe de misericórdia

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Inflação brasileira passou ao terreno negativo. A ocorrência de deflação acende alerta para a severidade da recessão e sugere que o corte da taxa de juros precisa ser acelerado

A infla√ß√£o desceu em junho ao seu menor n√≠vel para o m√™s desde que a economia brasileira recuperou a estabilidade com o Plano Real. Depois de mais de uma d√©cada, tamb√©m voltou a mergulhar em terreno negativo. A ocorr√™ncia de defla√ß√£o suscita novos desafios, acende alertas e exige posturas distintas da pol√≠tica econ√īmica.

No m√™s passado, o IPCA ficou em -0,23%, conforme divulgou o¬†IBGE¬†nesta manh√£. Para junho, √© o menor √≠ndice de toda a s√©rie hist√≥rica, ou seja, em 23 anos. O pa√≠s n√£o registrava defla√ß√£o desde junho de 2006. No ano, a infla√ß√£o caiu a praticamente um quarto do que foi entre janeiro e junho de 2016. Por todos os √Ęngulos, a queda √© assombrosa.

O pa√≠s passa a conviver com situa√ß√£o oposta √† que enfrentou, por meses seguidos, at√© dezembro do ano passado. At√© ent√£o, o problema era o estouro do limite superior da meta, t√īnica dos governos perdul√°rios e lenientes do PT. Agora a quest√£o √© outra: impedir que a infla√ß√£o caia abaixo do piso.

No acumulado em 12 meses, o IPCA baixou para 3%, o exato limite inferior da banda de variação adotada pelo regime de metas nacional. Além disso, os índices gerais, que medem a inflação também no atacado, estão em queda persistente e em deflação já por três a quatro meses seguidos.

Certamente é mais confortável, e sadio, ter como desafio uma inflação baixa demais. Pelo menos há a garantia de que os salários dos trabalhadores não estão apanhando dos preços. No entanto, como o próprio sistema de metas sugere, quedas acima do desejado também são problemáticas.

A infla√ß√£o brasileira declinou com for√ßa desde a primeira metade do ano passado porque passou a encontrar pela frente uma pol√≠tica econ√īmica para a qual a alta de pre√ßos √© uma doen√ßa a se combater, e n√£o uma aliada conveniente para o crescimento econ√īmico, como os governos anteriores acreditavam.

Entretanto, é inegável que outro fator relevante para o recuo dos preços é a recessão. E este é o aspecto mais preocupante do movimento atual da inflação brasileira. Ela cai, em parte, porque há menos demanda, por causa do desemprego e também em razão da desconfiança que assombra os consumidores.

Juntados estes fatores, resta evidente que a a√ß√£o de pol√≠tica monet√°ria do Banco Central precisa mudar. N√£o h√° raz√£o para segurar o ritmo de queda da taxa b√°sica de juros. Embora a Selic j√° tenha ca√≠do quatro pontos desde outubro e encontre-se hoje no seu menor patamar em quase quatro anos, h√° condi√ß√Ķes sustent√°veis de acelerar os cortes j√° na reuni√£o do pr√≥ximo dia 26.

√Č claro que persiste a inc√≥gnita em rela√ß√£o ao lado fiscal dessa moeda. Segurar o rombo or√ßament√°rio tem se mostrado tarefa dific√≠lima, ante o peso da m√° heran√ßa legada pela irresponsabilidade petista. H√° pela frente o duplo desafio de, do lado fiscal, garrotear os gastos e, do lado monet√°rio, afrouxar o la√ßo, sob pena de aborto precoce da incipiente sa√≠da do pa√≠s da recess√£o, algo que a crise pol√≠tica s√≥ faz piorar.

– Carta de Formula√ß√£o e Mobiliza√ß√£o Pol√≠tica N¬ļ 1620

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