Amizade com Ditaduras

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Carta de Formula√ß√£o e Mobiliza√ß√£o Pol√≠tica, N¬ļ 863.

A Venezuela est√° em p√© de guerra. Este poderia ser um assunto que pouco diz respeito ao Brasil, mas nosso governo tornou-se um dos arrimos dos descalabros que, desde Hugo Ch√°vez, se perpetuam no pa√≠s vizinho. Por meios oficiais, nossa diplomacia tamb√©m tem hipotecado apoio √† truculenta repress√£o posta em marcha pelo governo de Nicol√°s Maduro e passado ao largo da defesa de princ√≠pios democr√°ticos. ¬† A onda de protestos na Venezuela teve in√≠cio no √ļltimo dia 4 e desde ent√£o vem crescendo. Ontem, dezenas de milhares de venezuelanos foram √†s ruas. Parte ‚Äď n√£o h√° estimativas oficiais precisas ‚Äď protestava contra o governo bolivariano e manifestava apoio ao l√≠der oposicionista Leopoldo L√≥pez, dirigente da Vontade Popular detido ontem. Parte defendia Maduro. ¬† O governo brasileiro entrou nesta hist√≥ria pela porta dos fundos. Na √ļltima segunda-feira, endossou comunicado oficial emitido pelo Mercosul em que expressa apoio irrestrito ao governo chavista: ‚ÄúRejeitamos as a√ß√Ķes criminosas de grupos violentos que querem disseminar a intoler√Ęncia e o √≥dio na Rep√ļblica Bolivariana da Venezuela, como instrumento de luta pol√≠tica‚ÄĚ, diz um dos¬†trechos¬†da nota. ¬† Hoje, o Mercosul √© presidido temporariamente pela Venezuela, finalmente admitida no bloco em agosto de 2012, com total benepl√°cito da diplomacia companheira. Dele tamb√©m fazem parte o Brasil, a Argentina, o Uruguai e o Paraguai ‚Äď estes membros desde a origem, em 1991, quando foi assinado o Tratado de Assun√ß√£o. N√£o √© dif√≠cil ver que estamos atados ao que h√° de mais atrasado no continente… ¬† O comunicado emitido anteontem foi chancelado por todos os pa√≠ses-membros do Mercosul e, segundo informam os jornais, foi feito sob estrita orienta√ß√£o de Caracas. Por isso, n√£o traz nenhuma palavra sobre a escalada de viol√™ncia que assola a Venezuela, sobre a truculenta repress√£o do governo Maduro aos meios de comunica√ß√£o, sobre a desconstru√ß√£o cotidiana da economia do pa√≠s e nem sobre a pen√ļria em que se transformou viver ali desde o governo Ch√°vez. Nenhuma defesa, ademais, de princ√≠pios e valores democr√°ticos. ¬† Isoladamente, o Itamaraty n√£o emitiu posi√ß√£o oficial. Mas, segundo a¬†Folha de S.Paulo, endossou os termos dos comunicados do Mercosul e da Unasul, ambos de apoio a Maduro. Foi, portanto, conivente com posicionamentos que desconhecem a legitimidade da manifesta√ß√£o democr√°tica de milhares de venezuelanos descontentes com um governo que j√° nasceu sob a suspeita de ter fraudado a elei√ß√£o que elegeu Maduro em abril do ano passado. ¬† ‚ÄúDemoramos dez anos para construir um pensamento sobre democracia no Mercosul, e o bloco exige uma democracia representativa e respeito aos direitos humanos. A Venezuela n√£o cumpre estas exig√™ncias, e o Mercosul est√° ignorando dez anos de trabalho‚ÄĚ, sintetizou um ex-diretor da Secretaria do Mercosul ouvido por¬†O Globo. ¬† Motivos para a insatisfa√ß√£o os venezuelanos t√™m de sobra. O pa√≠s √© hoje quase um p√°ria no concerto geral das na√ß√Ķes. Tem a mais alta infla√ß√£o do mundo (56% ao ano) e a mais baixa taxa de crescimento do continente (1,1%). Por esta raz√£o, seus cidad√£os n√£o disp√Ķem sequer de itens de primeira necessidade, como papel higi√™nico, dispon√≠veis nos supermercados, hoje completamente desabastecidos. ¬† A taxa de c√Ęmbio √© galopante ‚Äď no oficial, um d√≥lar vale 6,3 bol√≠vares, enquanto no paralelo chega a 84. Isso torna dram√°tica a vida num pa√≠s que importa 70% do que consome e onde 95% da renda recebida pelo governo vem da estatal do petr√≥leo, a PDVSA, arruinada pela explora√ß√£o pol√≠tica, como relata a¬†Foreign Policy. ¬† O apoio ao chavismo √© apenas mais um cap√≠tulo da triste saga que a diplomacia brasileira vem escrevendo sob as orienta√ß√Ķes do petismo. O vi√©s ideol√≥gico imposto √† nossa pol√≠tica externa nos √ļltimos anos est√° isolando o Brasil do mundo e nos alinhando ao que h√° de mais atrasado e retr√≥grado. Demos as costas para na√ß√Ķes democr√°ticas e abra√ßamos regimes de inclina√ß√£o autorit√°ria, como √© o caso da Venezuela de Nicol√°s Maduro, em flagrante contraste com as melhores pr√°ticas da nossa tradi√ß√£o diplom√°tica.

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