José Aníbal: se governo não andar, combustão social volta
06 de Junho de 2016
Confira a entrevista do presidente do Instituto Teotônio Vilela ao jornal "Folha de S.Paulo", publicada nesta quarta-feira, 25/05/2016.


Folha - O governo Temer teve sua primeira baixa em apenas 12 dias...
José Aníbal - Foi inevitável. O presidente fez o que era necessário fazer. A Lava Jato virou uma instituição no Brasil. A operação tem a confiança da grande maioria dos brasileiros e é referência de uma busca por uma política mais coerente, transparente e íntegra.


Mas a sugestão de um pacto para controlar a Lava Jato não compromete a gestão interina?
Se realmente houve uma conversa sobre obstrução de Justiça, ela não teria a menor consequência prática. Nem o Judiciário, nem o Supremo Tribunal Federal, nem Polícia Federal, os procuradores e o [juiz Sérgio] Moro vão se submeter a qualquer tipo de pressão e constrangimento.


O presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (MG), também foi citado na conversa entre Jucá e o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado.
É uma infâmia, é coisa armada. Acompanhei a eleição do Aécio na Câmara e vi que ele venceu porque conseguiu agregar. É injurioso. Esse tal de Sérgio Machado deve ter o rabo preso com muita gente e está tentando incriminar quem quer que seja. Fez isso de caso pensado.


A revelação do áudio coloca ainda mais pressão no governo interino?
Hoje, no Brasil, a combustão espontânea está posta. Os brasileiros estão desejosos por mudança. O governo tem que ter um olhar permanente e estar em sintonia com a sociedade, mesmo quando tenha de tomar atitudes que não serão bem recebidas, mas necessárias. E tem de dar sinais claros de que está atuando para que o ambiente econômico estimule a recuperação.


Mas o tempo é curto.
O tempo é curto. Ninguém vai ao [rio] Rubicão para ficar olhando a outra margem. Reforma tem que ser uma coisa mais ou menos rápida. O governo está certo. A tragédia é que, nesses 16 meses, Dilma só agravou a crise. Ela nada fez que ela pudesse contribuir para pelo menos ajustar algumas coisas e tardou enormemente em tomar decisões óbvias.


Quais?
A sinalização de que está cortando na própria carne é fundamental, embora não resolva. Mostra uma decisão do governo de austeridade e impede que muitos malfeitos continuem a ser praticados. É difícil imaginar que vai se tirar aqueles que encarnam licenciosidade e colocar outros com o mesmo padrão. Não dá.


Preocupa o PSDB a possibilidade de Temer disputar a eleição de 2018?
Nem se o Temer quisesse ele estaria pensando em 2018. Só um insensato estaria pensando nisso. A situação do Brasil é extraordinariamente grave e desafiadora. A oportunidade que se tem hoje de fazer um processo de recuperação é muito objetiva. Para isso as iniciativas têm que convergir, até porque a combustão espontânea está de olho em nós. Se esse governo não andar, já sabemos o que vai acontecer.


O quê?
Se daqui três, quatro meses não tivermos um ambiente diferenciado no Brasil, certamente a combustão espontânea pode vir. Não queremos isso, ninguém quer isso. Nem mesmo os petistas que estão mais exaltados podem querer isso.
Do mesmo modo que a combustão espontânea nos fez avançar muito, ela nos preocupa. Foi ela a responsável pela saída da Dilma, não fomos nós os partidos.


Qual será o papel do PSDB?
O PSDB tem que apoiar as iniciativas do governo, trabalhar sobre elas junto à sociedade, desde que se identifique com aquilo que está sendo proposto. Não adianta o governo Temer ter base, maioria passiva. Os partidos que estão comprometidos com o governo não é só para correr no Palácio e nos ministérios, resolver problemas pontuais aqui e acolá. É para ajudar, e muito, no diálogo com a sociedade. É para se expor.


Fico preocupado quando sinto que partidos que estão no governo se intimidam.


Em relação a críticas?
E também de apoiar as ações do governo, de conversar com a sociedade e mostrar os motivos de determinadas ações. Estamos vivendo um momento que é preciso muito diálogo. O PSDB, que é um partido que tem credibilidade e está fornecendo seus quadros para o governo em diferentes áreas, tem de dar um apoio consciente. E é exatamente por isso que nos permite questionar, alertar quando for necessário.


Temer teve de ceder ao fisiologismo, deixando de lado a escolha de notáveis. Tem como fugir disso?
Tem. Quando fizer a reforma política, também por isso ela é tão urgente. Não é possível mais de 30 partidos. O novo líder do governo teve 300 assinaturas em um abaixo-assinado de dez, 15 partidos. Isso não existe. Queira Deus que a gente tenha essa convergência na hora de votar reformas. Que essa mesma convergência para indicar e propor nomes aqui e acolá exista também na hora de votações. É muito difícil agregar tantos partidos num mesmo propósito.  

 

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