Reformas Estruturais
Pela "ética da responsabilidade" é possível modernizar Estado e democracia no Brasil, diz Fernando Schüler
05 de Julho de 2017
Cientista Político mostra como o conceito elaborado pelo sociólogo alemão Max Weber contribui para atualizar e renovar a política no país

"A ‘ética da responsabilidade' é tomar decisões difíceis, o que exige, inclusive, o enfrentamento do desgaste. Sem isso, não se faz um grande país, não se governa. Sem isso, um partido, um político, não fazem muito sentido", afirma o cientista político, filósofo e professor do Insper Fernando Schüler. O conceito se opõe ao da "ética da convicção", em que o dogma político prevalece à racionalidade e neutralidade necessárias para governar pelo bem comum. O líder político que se orienta pela "ética da responsabilidade" deve se comprometer com o que é melhor para a sociedade, e não atuar em defesa de argumentos ideológicos ou interesses de determinados grupos. "Essa sabedoria de diferenciar governabilidade do governo, reformas estruturais e interesses do país do interesse localizado e político do momento é o coração da ‘ética da responsabilidade'", diz Schuler, que foi secretario de estado da Justiça e Desenvolvimento do Rio Grande do Sul, diretor da Fundação Iberê Camargo e também criador e curador do projeto Fronteiras do Pensamento.

Em entrevista ao ITV, Fernando Schüler analisa a situação atual do Brasil e defende a "ética da responsabilidade" como princípio de modernização do país. Para ele, o grande desafio brasileiro é fortalecer o Estado e as instituições, para que resistam às pressões de grupos de interesses específicos. O Brasil tem um Estado vulnerável às pressões tanto das corporações como de empresários. "Nós viramos um capitalismo de compadres, um capitalismo com grande influência política, e um Estado que intervém muito no mercado. Isso criou o ecossistema dessa relação promíscua entre o público e o privado e alimentou o patrimonialismo brasileiro", examina. Esse atraso pode ser combatido, de acordo com Schüler, por lideranças políticas que estejam em conexão com a opinião pública, tenham clareza de suas propostas, representem os interesses coletivos e, sobretudo, encarem, se necessário, o desgaste desse enfrentamento.


Segundo Schüler, a reforma trabalhista é um bom exemplo do tema da "ética da responsabilidade". Trata-se de mudanças que vão modernizar uma legislação do passado e permitirão uma adequação das leis à complexidade do mercado de hoje. Aprovar a reforma trabalhista é exercer a "ética da responsabilidade". Para ele, antes de ficar preso a dogmatismos ou mesmo a uma falsa discussão, que aponta aqueles que são a favor da reforma de supostamente serem contra os trabalhadores, cabe olhar para os 14 milhões de desempregados, os empreendedores que não podem empreender, a insegurança jurídica, a informalidade da economia, etc. As reformas estruturantes não são feitas para esse ou qualquer outro governo, mas são realizadas para um país. "Um grande partido, um grande político, uma grande liderança, são aqueles que sabem fazer essa distinção, que sabem agir com calma em meio ao caos, que sabem construir pontes em meio a essa democracia polarizada que vivemos. Também faz parte da "ética da responsabilidade" um senso de moderação."

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