Reforma Política
"Esquerda e direita não fazem mais sentido?", por Bernardo Sorj
Bernardo Sorj
Bernardo Sorj
20 de Dezembro de 2016
Os descaminhos do PT têm fortalecido aqueles que argumentam que a divisão entre esquerda e direita não é mais atual. Se um partido definido como de esquerda se associa a práticas deploráveis de corrupção e malversão de recursos públicos, a conclusão, para alguns, é que não devemos mais pensar em termos de esquerda e direita. A nova oposição seria entre os que se propõem a fazer um governo honesto e eficiente e os que assaltam o Estado e desconhecem princípios da racionalidade administrativa.

Acredito que se trata de uma conclusão apressada, embora indique um problema real. A conclusão é apressada porque supõe que o conflito social em torno da distribuição de riqueza, ou entre valores, pode ser resolvido tendo como critérios a honestidade e capacidade de gestão dos governantes. Não pode. Temas como a abrangência de serviços públicos, ou o peso e a progressividade da carga impositiva, para dar alguns exemplos da área econômica, ou a legalização do uso da maconha e do aborto, assuntos no campo da cultura, são conflitos sociais legítimos e centrais das sociedades contemporâneas, independentes da integridade moral e eficiência dos governantes. Eles nos remetem à forma em que articulam interesses ou são promovidos valores diferentes, todos eles constitutivos de uma sociedade democrática, mas até certo ponto contraditórios, como, por exemplo, os de liberdade e igualdade, que exigem escolhas sobre o peso relativo de cada um.

Se permenece de certo modo válida a oposição tradicional entre esquerda e direita, ela é insuficiente, porém, para entender a diversidade de oposições que se enfrentam na esfera pública contemporânea. O conflito poltico de consequências mais dramáticas não é entre esquerda e direita, mas entre aqueles que defendem as instituições democráticas - os princípios de liberdade de pensamento e organização, separação de poderes e da esfera religiosa do estado, respeito ao pluralismo e as minorias, além de eleições livres -, e aqueles que procuram destruí-las ou enfraquecê-las. Existem, portanto, uma esquerda e uma direita democráticas e uma esquerda e uma direita antidemocráticas.

Certamente continua atual e central a diferença entre aqueles que têm uma maior sensibilidade social e consideram que o Estado deve agir para diminuir a desigualdade e proteger os setores menos favorecidos, impondo uma maior carga tributária aos grupos de renda mais alta, e aqueles que enfatizam o mercado, o crescimento econômico e a iniciativa privada como principais mecanismos de regulação social. Tomemos, por exemplo, os conflitos distributivos que surgiram como resultado da PEC do Teto de Gastos ou do encaminhameneto da reforma da Previdência. Em princípio ambas as medidas são necessárias, mas a forma em que serão efetivamente implementadas passa por decisões políticas, que dizem respeito a interesses e valores, não reduzíves à logica de eficiência tecnocrática.

Mas esta oposição convive com novos temas, como, por exemplo, direitos de gênero, orientação sexual e meio ambiente. Temas que não dividem as sociedades nas mesmas linhas que as produzidas pelo conflito distributivo. Podemos encontrar grupos que apoiam uma maior justiça distributiva, mas que não se identificam com agendas culturalmente progressistas e/ou meio-ambientalistas, assim como há setores pró-mercado que as apoiam.

No caso brasileiro estes diferentes tipos de oposições não dão conta de vários temas que polarizam o país. Por exemplo, existe uma forte tendência nacionalista-estatizante em grande parte da esquerda "socioeconômica", mas que é compartilhada também por setores de direita, como se viu nos governos militares. A confusão entre estatismo e esquerda é uma das heranças nocivas que ainda carrega boa parte da esquerda latino-americana. Sob o manto do nacional-estatismo-desenvolvmentista, parte da esquerda latino-americana expandiu o espaço da corrupção, à ocupação clientelística do estado e relações indecentes com o setor privado.

Essas práticas de parte da esquerda nos levaram à situação atual em que prevalece um discurso político centrado na ideia de que o essencial é ter governantes honestos e eficientes. Não se trata de uma percepção errada. Ele reflete outro conflito, que vive hoje o Brasil, como indicou o presidente Fernando Henrique Cardoso, entre a modernidade e o atraso. Modernidade é sobretudo respeito pela coisa pública e racionalidade administrativa, independentemente da vertente política. Atraso é os políticos se relacionarem com o estado como fonte de enriquecimento ilícito, de emprego para protegidos, e os mais diversos privilégios, incluindo altos salários autoatribuídos, mas é também uma forma de atraso quando setores "modernos" de funcionários públicos não cumprem com seus horários de trabalho e/ou têm acesso a benesses pessoais, desde apartamentos funcionais e carros com motorista a regalias que permitem incrementar seus salários e/ou obter aposentadorias descabidas.

Confrontados com a difícil situação econômica nacional, não podemos esquecer a vigência da oposição entre modernidade e atraso, mas também entre uma esquerda e direita. A social-democracia se caracterizou pela capacidade de procurar uma síntese entre o reconhecimento das virtudes do capitalismo de mercado e a sensibilidade frente à desigualdade social do socialismo, entre o respeito da livre iniciativa e o espírito republicano que vela pelo bem-estar do conjunto dos cidadãos.

A social-democracia representa a sabedoria de centro, não do centro que é produto da indefinição ou oportunismo, mas da disposição a conjugar o que de melhor as tradições liberal e socialista têm a oferecer. No Brasil atual, onde o descalabro econômico e o descalabro social atingem proporções enormes, a social-democracia se apresenta como a única saída viável para a consolidação democrática do país, e certamente expressa o sentimento de boa parte dos cidadãos. No emaranhado de siglas partidárias, a maioria delas simplesmente siglas vazias, sem compromisso com um conteúdo programático, corresponde ao PSDB explicitar os princípios que guiam sua visão de país.

* Bernardo Sorj é sociologo

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