PSDB
"No pulsar das ruas e das redes", por Lucas Pinheiro
Lucas Pinheiro
Lucas Pinheiro
03 de Maio de 2019
Em 2013, no pulsar das grandes manifestações de rua daquele ano, eu mesmo já alertava para um inevitável processo do que Joseph Schumpeter denominou "destruição criadora" - a derrubada de um paradigma antigo para o estabelecimento de um novo paradigma. (http://bit.ly/2GaoF03). Os governos do PT desgastaram o modelo político vigente, oficialmente encerrado com o impeachment de Dilma Rousseff.

A busca popular por accountability, transparência e mecanismos de participação na vida decisória do País, fomentou na população maior interesse pela vida política, pelos julgamentos no Supremo Tribunal Federal (STF), pelas operações da Polícia Federal (PF) e pelas ações do Ministério Público (MPF).

Naquele ano, já havia uma grande pressão popular contra a chamada PEC 37, que poderia limitar os poderes de investigação do Ministério Público. E anos depois foi exatamente o poder de investigação do MPF, combinado com o da PF, que mudou de vez o cenário político com a Lava Jato.

A Operação, combinada com os protestos de rua pelo impeachment de Dilma, fez nascer movimentos populares que se identificavam com matizes ideológicas "liberais na economia" e "conservadores nos costumes". Embora alguns movimentos fossem antagônicos ideologicamente, se uniam por um ódio comum: a "esquerda", mesmo sem saber exatamente o que isso significava. Atrelaram, então, a "esquerda" à corrupção. E mais: classificaram como "de esquerda" ou "comunista" qualquer pessoa que não compactuasse com o mesmo espectro ideológico ou que se definisse como moderada.

Surgiu aí uma retórica maniqueísta de "direita versus esquerda", em que qualquer discurso moderado ou baseado em programas com metas bem definidas não teria relevância. Apenas a radicalização teria atenção.

Parte da população, sedenta por participação protagonista na vida política do País e ávida por transparência, viu nas redes sociais a resposta para seus anseios, tornando aquele processo de "destruição criadora" mais dinâmico, rápido e real.

As redes sociais mudaram radicalmente a forma de fazer política. As discussões que antes poderiam estar restritas a um grupo reduzido, fechado em uma sala, agora acontecem em tempo real e em várias plataformas diferentes ao mesmo tempo. Nesse processo, o desafio dos agentes políticos passou ser a comunicação, estar nessas discussões e pautar essas discussões. Ou seja, ouvir e ser ouvido.

Não basta ser preparado. É necessário comunicar esse preparo com eficiência, rapidez, clareza e em diversas plataformas digitais. As demandas advindas das redes, embora pouco factíveis na maioria das vezes, ganharam força total para entrar na pauta e na agenda das autoridades políticas. O poder de mobilização desses meios também se mostrou contundente.

Francisco Paulo Marques (Opinião Pública, Campinas, vol. 12, nº 1, pp 164-187, 2006) expõe o entendimento, recorrente na academia, de que o campo virtual deve ser complementar à formação cívica, como espaço de debate, mas sem a possibilidade real de se incorporar às arenas institucionais de decisão diretamente.

É o que Umberto Eco chamaria de "conversação civil". Por isso, e apesar da sua contundente força, as redes sociais continuam sendo um ambiente meramente virtual, condicionado a bolhas sociais, radicalizações, opiniões sem contexto ou sentido, que devem ser lidas ou recebidas com ceticismo e caráter investigativo em busca da verdade, do fato. É preciso fugir do que é mentira ou fake.

Entretanto, isso não exime o agente político de participar das discussões nas redes, como já dito aqui. Nesse sentido, é notório que o paradigma de anos atrás na forma de fazer política foi quebrado. A vida política não tem mais espaço para o "rouba, mas faz", para relativização de casos de corrupção, para desvios éticos, para incompetência administrativa, para falta de transparência, para o populismo, para o "político profissional".

O modelo político que se desenha é um modelo intransigente e intolerante com casos de corrupção e desvios éticos, competente e ágil na gestão, radical na transparência. A busca é por políticos que tenham uma pauta bem definida e específica e que estejam conectados às plataformas digitais para que os cidadãos possam acompanhar, cobrar ou reproduzir suas ideias.

O PSDB precisa voltar ao pulsar das ruas, e às ruas do nosso tempo. Nas ruas e nas redes.

Membro da Executiva do PSDB-DF, gestor público graduado pelo Centro Universitário IESB, especialista em Planejamento e Orçamento Público

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