PSDB
"Convite ao colóquio: união dos razoáveis", por Thélio S. Caudinski
Thélio dos Santos Caudinski
Thélio dos Santos Caudinski
08 de Abril de 2019
Devemos rever algumas ideias, mas não podemos nos transformar em mais um agente da disputa entre direita e esquerda. Devemos ser opção ou, até mesmo, mediadores


São muitos os textos e os discursos sobre o atual momento que vivemos, especialmente sobre a radicalidade, a retórica cada vez mais insustentável para defender grupos políticos e até, se for necessário, revisar a história em prol de uns e outros. Não me delongarei em dizer o que já é de conhecimento geral: a sociedade revela sintomas preocupantes sobre si mesma, sobre as relações, sobre a política e, principalmente, sobre o tratamento da verdade. O problema já está posto, precisamos caminhar rumo a uma saída, uma solução.

O mundo já viveu período semelhante, mas de modo diferente, na Guerra Fria. Norberto Bobbio (1909 - 2004), filósofo, professor e jurista italiano, organizando diversos artigos e aulas no fim dos anos 1940, produziu a sua célebre coletânea Política e Cultura, publicada originalmente em 1955 com foco a ser um elemento definidor do diálogo razoável e mediador em uma época polarizada, dividida. As propostas de Bobbio reveladas nessa coletânea ainda estão de pé, perfeitamente utilizáveis na atualidade, em especial, a necessidade do convite ao colóquio, de renunciar-se a dogmas e posições aparentemente intransponíveis para que se possa deixar o atual limbo produzido pela radical polarização e avançar ao destravamento do país.

É histórico de nós, tucanos, constantemente propormos que, para além da direita e esquerda, ou qualquer polarização, há o centro que une e supera. Não compreendo ser essa nossa situação. Esquerda e direita hoje, na específica situação da política brasileira, são termos sequestrados para darem roupagem a uma disputa política. Aqueles que hoje representam a direita não o são de fato, apenas utilizaram esse símbolo como meio de capitalização política - a história diz isso - e agora utilizam os mesmos elementos de direita para produzirem uma disputa que serve de sustentação para o seu poder. É uma polarização alimentada com intenção de obtenção de poder, e não uma polarização existente apesar dos atuais agentes políticos. Isso não significa dizer que a separação entre polos na política brasileira não existe, só que há diversos elementos para compreendê-la.

Hoje o grupo que se intitula de direita sequestra esse termo, e todos os demais símbolos próprios a ele, para reduzir-se a si a reação ao petismo, a reação do povo brasileiro que passou a buscar novos modelos de governanças, novas propostas para o país. Essa direita se desmonta completamente ao perder o seu antagonista, pois é fruto exclusivo dessa reação, ou seja, não tem bases próprias. Adere ao liberalismo econômico por este ter sido rejeitado em concepção e no discurso pelo grupo político que comandou o Brasil de 2003 a 2016, e não por convicções próprias; tal como o conservadorismo em reação ao progressismo e assim por diante. Transformou direita em uma reação positiva a uma esquerda que hoje, dizem, representa o mal, em amplo sentido. E se faz necessário incluir o revisionismo histórico nessa esteira, deslocando o nazismo no espectro político, da direita para a esquerda, pois fora uma experiência política ruim, logo, segundo os critérios, deve ser propriedade da esquerda; o golpe militar de 1964 que deixa de ser golpe e assim por diante.

Toda essa situação é o sintoma da negação da verdade, sintoma de que a verdade é mero símbolo de disputa política, absolutamente relativa, e que o seu valor não exige qualquer tratamento de método.

Bobbio, em Política e Cultura, com a proposta do convite ao colóquio, também estabelece critérios para tal. O primeiro é a busca da verdade. Esta não deve ser vilipendiada, o que torna necessário a instituição de um campo de trabalho para os intelectuais que não seja restringido e, tampouco, influenciado ou direcionado por políticas partidárias. Mas isso fica vazio sem que haja o compromisso de indivíduos. É nessa hora que nós, tucanos, devemos reconhecer a nossa obrigação de organizar politicamente todos aqueles indivíduos que concordem com esses preceitos. Não se trata de partir para a guerra, mas de propor soluções para o conflito. E isso só pode ser realizado de forma consistente e com poder político.

A reorganização do PSDB precisa ter esse foco. Não apenas entender as novas demandas da sociedade e o novo meio de se comunicar com ela, mas de não confundir adequação aos novos tempos com atuação semelhante aos vencedores destes novos tempos. Ou seja, não devemos simplesmente nos deslocarmos no espectro político com vistas a um possível sucesso eleitoral mais à frente. Claro, devemos rever algumas ideias, porém, não perder o apreço pela verdade, a defesa dos métodos científicos que são pilares de uma boa política e de uma boa gestão. Não podemos nos transformar em mais um agente desta disputa atual, puxando a corda para um lado, exasperando. Devemos ser opção ou, até mesmo, mediadores.

O compromisso em entregar ao país boas alternativas é maior do que qualquer projeto pessoal de poder. É necessário adequar isso ao pragmatismo eleitoral. É uma balança difícil de ser configurada. No entanto, precisamos ter o foco nas necessidades do povo, que continuam sendo, para além de qualquer retórica política: comida, educação, saúde, segurança, moradia e, principalmente, perspectivas de um futuro melhor. Um povo que não tem certeza de que suas ações promoverão um amanhã melhor do que o hoje não possui motivos para agir.

Para que possamos ser essa opção ao povo precisamos agir politicamente. Não devemos nos enganar, não vão recorrer a nós assim que perceberem os erros. É preciso formar bases, nas juventudes do país, por meio da política estudantil, das universidades, nos canais virtuais de discussão, nas instituições representantes de classes. Tomar o espaço público do debate.

Outros se anteciparam, tomaram a voz, a verdade, a vez no debate político, e estão no poder. É hora de os tucanos e de todos aqueles razoáveis, moderados e dispostos ao diálogo, não apenas na intenção de vencer narrativas, se organizarem e irem ao povo. É o convite ao colóquio.

(*) Acadêmico de filosofia pela UNIOESTE Campus Toledo.

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