Política Externa
"Uma nova agenda para a área externa", por Rubens Barbosa
30 de Março de 2016

De maneira pragmática, reconhecendo as limitações impostas pelas dificuldades internas decorrentes da atual grave crise econômica, uma nova agenda externa deveria buscar o que foi perdido nos últimos 13 anos: a voz para restaurar a projeção do pais e o dinamismo do comércio exterior e da negociação comercial externa para reinserir o Brasil nas correntes dinâmicas do comércio internacional.

Na área comercial, a estratégia de negociação multilateral (OMC), regional (Mercosul) e bilateral deveria ser modificada de forma significativa. A OMC, em nova fase, passará a negociar acordos setoriais limitados, regionais, e não multilaterais com a participação do todos os membros, como acontecia até aqui. O primeiro grande exemplo é o acordo que envolve os EUA, o Japão, outros países asiáticos, México, Peru e Chile, o que explicitou o isolamento do Brasil nas negociações comerciais globais.

Em relação a América do Sul a política comercial deveria ser revista. Deixando de ficar a reboque dos acontecimentos, o Brasil deveria liderar um movimento para dar novo enfoque ao processo de integração regional. A integração energética, agrícola, física e uma maior inserção das empresas brasileiras nas cadeias produtivas da região seriam algumas dessas novas prioridades.


Quanto ao Mercosul a política também deveria ser revista, de acordo com o estrito interesse brasileiro. As mudanças na Argentina e na Venezuela apresentam novos desafios para o Brasil. O isolamento do Mercosul nas negociações comerciais seria superado com acordos com a União Européia, México, Canadá e com outros países desenvolvidos. Caso persistam as atuais condicionantes como a influência política nas decisões e se as negociações com a União Europeia não avançarem, a própria existência do bloco deveria ser examinada.


Na política externa, as relações com os países vizinhos deveriam ser intensificadas, deixando de lado agendas aceitas até aquí por afinidades ideológicas ou paciência estratégica. A nova situação interna na Argentina e o agravamento da crise na Venezuela forçarão ajustes na política brasileira. O Brasil continuaria a apoiar os esforços da Argentina e da Venezuela para o restabelecimento da estabilidade da economia, mas defenderia os interesses das empresas nacionais afetadas por medidas restritivas desse países. O governo brasileiro insistiria na defesa do fim do embargo econômico a Cuba e participaria, com transparência, do processo de abertura e desenvolvimento do pais. O relacionamento com os demais países em desenvolvimento deveria ser ampliado e diversificado.

As relações com os países desenvolvidos, de onde poderá vir a cooperação para a inovação e o acesso à tecnologia, deveriam voltar a ter prioridade para revigorar a indústria tão abalada pelas políticas econômicas equivocadas adotadas pelos governos do PT. Deveria, assim, ser procedida uma reavaliação das prioridades estratégicas, em particular no tocante à China e aos EUA.


As questões da sustentabilidade relacionada com as negociações de mudança de clima e os problemas de democracia e de direitos humanos deveriam merecer especial atenção. O Brasil deveria manter seu interesse na ampliação dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU.


O Itamaraty deveria voltar a ocupar seu papel como o principal formulador e executor da política externa. A recuperação de sua credibilidade (o Brasil chegou a ser chamado de anão diplomático) e a centralidade no processo decisório da política externa, livre de influências partidárias e ideológicas, favoreceriam o restabelecimento da projeção externa do Brasil.


Rubens Barbosa foi embaixador do Brasil em Washington (1999-2004). Editor da revista "Interesse Nacional", é presidente do Conselho Superior de Comercio Exterior da Fiesp

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