Política Externa
Política externa brasileira precisa defender valores da ordem mundial ameaçados por Trump, analisa Rubens Ricupero
08 de Maio de 2017
Para embaixador, países devem reagir a agressão de princípios que fazem o sistema global funcionar. Nesse momento, a importância da União Europeia deve ser reforçada e o Brasil, como potência ambiental, tem papel decisivo na defesa do Acordo de Paris

A vitória de Donald Trump nos EUA foi o sinal mais agudo de um desvio abrupto na direção em que caminhava a ordem mundial. A rota de retrocesso anunciada pelo resultado da eleição americana e mais definida nas posições controversas de Trump sobre aquecimento global, leis de imigração, entre outros recuos, tem provocado perplexidade nas sociedades contemporâneas e ameaçado o nosso sistema global. Para Rubens Ricupero, diplomata brasileiro e ex-ministro de Meio Ambiente e da Fazenda, o fenômeno tem explicação. A proliferação dos movimentos de extrema direita e, principalmente, sua chegada ao poder em grandes países dizem respeito, segundo ele, "aos excessos de uma globalização que foi insensível às suas vítimas".

A insatisfação de parte da população americana, que ficou em situação de abandono e desemprego, justifica o êxito do candidato republicano. "Donald Trump soube com muita intuição captar esse descontentamento. Os EUA têm problemas sérios. Ele não é um ponto fora da curva, a eleição de um homem que, de repente, dominou a mídia. Mesmo que ele desapareça esses problemas continuam.", afirma.

Tal fenômeno não se limita aos EUA, mas tem, de acordo com Ricupero, menor impacto na Europa. Para o embaixador, a União Europeia representa uma resistência à ordem ameaçada, já que o conjunto de seus países tem uma visão de mundo mais sensata em relação a luta contra o aquecimento global, a manutenção do Estado de bem-estar social e a tentativa de atenuar os excessos da globalização. A eleição de Emmanuel Macron, candidato jovem, centrista e sem partido tradicional, no último domingo, que derrotou com larga margem de vantagem a ultranacionalista Marine Le Pen, reforça essa perspectiva.

Em entrevista ao ITV, Ricupero, representante permanente do Brasil na ONU e diretor da Faculdade de Economia da Faap, analisa a conjuntura internacional, a partir da situação dos EUA, e defende uma plataforma de política externa comum, ao Brasil e resto do mundo, que contemple problemas centrais para os seres humanos: meio ambiente, promoção de emprego e combate as desigualdades. Segundo Ricupero, o mais complicado do sistema global contemporâneo é a economia de mercado que, apesar de seus méritos, não consegue lidar com o desenvolvimento sustentável, o desemprego estrutural e a diminuição das desigualdades. "Todo o futuro do planeta gira em torno desses temas", esclarece.


Nesse cenário, cabe ao Brasil se posicionar valorizando e preservando a ordem mundial, por meio de sua política externa. Ricupero considera vital a nossa contribuição para o aquecimento global. Isso porque, para ele, essa é a única área das relações internacionais em que o país é uma potência. "Nesse momento de ameaça, o Brasil tem que defender o Acordo de Paris. A política externa brasileira deve se articular não para ser anti-Trump, mas para defender os valores ameaçados por Trump.", argumenta.

A luta contra as desigualdades é outro desafio do país que, a um só tempo, mobiliza o seu desenvolvimento econômico e fortalece valores universais. Ricupero chama atenção para a lenta ascensão social de descendentes africanos e indígenas. Ele lembra que, há 120 anos, o Brasil tinha escritores como Machado de Assis, Cruz e Souza e Lima Barreto. Passado esse longo tempo e, apesar do progresso econômico e educacional, não se encontram mais literatos negros com essa projeção. "Como se explica isso? Se explica, porque, deixada a si mesma, a injustiça perpetua a injustiça."


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