"País não vai suportar mais três anos de caos", avalia Tasso
14 de Setembro de 2015
Leia entrevista do senador Tasso Jereissati, publicada no jornal "O Estado de S. Paulo", em 13/09/2015
Era esperado esse quadro de deterioração político e econômico?
Na economia era previsível que se chegasse a uma situação difícil. A partir do primeiro governo Dilma os sinais de erro da economia vieram aparecendo com muita nitidez. Mas ninguém imaginava, desde o mais ferrenho oposicionista, o mais profundo economista, que se chegasse ao ponto que chegamos. Os erros que se via em 2011 foram se sucedendo de maneira incrível. Neste momento, todo mundo esperava que haveria um espécie de mea-culpa e tentativa de se concertar aquilo que estava errado. Mas também vieram dois fatos inesperados: a Lava Jato e o desconcerto político, administrativo, governamental, que ninguém esperava que chegasse ao ponto que chegou hoje. Desde a eleição, da posse, a cada semana as coisas só pioram. Não dá mais para chamar isso de governo, acabou o governo.
Dilma conseguirá chegar ao fim do mandato?
Com toda sinceridade, no início do ano, se eu fosse perguntado, diria que o ideal era que ela fosse até o fim. Mas hoje não estou vendo possibilidade de o País suportar três anos com esse nível de desgoverno. Estamos alcançando uma situação inédita no País. Você vê ministro da mesma área em disputa. Você vê ministro defendendo ardorosamente dentro do Congresso posições completamente opostas como se cada um, em si, fosse um governo à parte. Nós estamos entrando no caos administrativo e isso vai levar, do jeito que estamos, ao caos econômico.
O mercado não deu uma freada no ímpeto de alguns setores favoráveis ao impeachment?
Acho que ninguém quer rompimento institucional. Agora a minha dúvida é se o País suporta, se a economia suporta três anos e meio no caos administrativo e político que estamos vivendo. No governo não existe nenhuma unidade. Na semana passada você via o ministro Joaquim Levy defendendo desesperadamente que não passasse o aumento do teto do SuperSimples porque isso representaria um impacto de mais R$ 11 bilhões num Orçamento já deficitário. Ao mesmo tempo tinha o ministro Afif Domingos defendendo ardorosamente dentro do Congresso, com a base do governo e a oposição, um caminho oposto. Isso é o caos administrativo que se repete em todos os setores. Está faltando mais do que liderança, está faltando um rumo comum. Me parece que a presidente Dilma não é mais capaz de ser nenhuma solução. Acho que ela é o problema.
Diante desse ‘desgoverno’, qual é o cenário que imagina para os próximos três anos e meio?
Não sei. Esse é um grande problema porque esse caos administrativo não tem nenhum contraponto neste momento de equilíbrio e confiança. Acho que está chegando a hora em que nós, políticos de direita, de esquerda, de partidos diferentes, têm que esquecer um pouco as questões partidárias, regionais e começar a conversar com os agentes econômicos em torno de um consenso qualquer que possa dar uma parada nessa ladeira abaixo que estamos indo.
Uma espécie de pacto nacional?
Não chamaria de pacto nacional. Pelo menos começar a conversar em torno de encontrar um ponto em comum, que é o Brasil. Sem pensar que é o Temer, o Aécio ou nova eleição. Enfim, tem que pensar o que é viável e bom para o Brasil.
Seria possível fazer isso com a Dilma na Presidência?
Pelo que tenho visto até agora, com ela não. Ela não é uma pessoa de diálogo. Ela não tem a humildade nem a visão suficiente para perceber o tamanho do problema que ela está metida e que o País está metido. Até agora, não deu nenhuma demonstração disso. O que está acontecendo no dia de hoje é ela sem possibilidade de iniciativa jogar os problemas de governo para o Legislativo e para o Judiciário.
O ministro Joaquim Levy se sustenta no cargo?
Acho que o Levy está fazendo um papel praticamente impossível, sozinho, isolado dentro do governo. Está aí o exemplo do SuperSimples aprovado com mais de 400 votos. Acho que ele não tem interlocução. Ele é, essencialmente, diferente do governo, e tem que conviver diariamente com figuras que são resto de entorno. Chamo de resto de entorno porque acho que a presidente Dilma hoje para conversar tem três ou quatro pessoas com alguma influência e essas pessoas isoladas a boicotam constantemente.
Como vê o papel do Temer nessa questão? Ele traria tranquilidade para esses próximos três anos?
Acho que é uma pergunta difícil de responder, mas que tem que ser respondida. Acho que temos obrigação agora, todas as forças políticas, para conversar em torno de qual é a saída para o problema. O vice-presidente Temer, se for cair a Presidência na mão dele, sozinho não tem condições também. Não tem condições porque primeiro vai ter que fazer muita maldade porque a questão fiscal é gravíssima e não há hipótese de resolver isso sem cortes de despesas violentos. Inclusive, temos que levar em consideração a hipótese de aumento de impostos. Para fazer isso tem que ter muita força política e popular. Alguém vai ter que assumir ou alguma solução vai ter que ser encontrada, mas que tenha essas características. Nenhum partido sozinho hoje do jeito que está vai conseguir enfrentar todos esses problemas.
Temer chegando à Presidência, o PSDB sairia da oposição?
Acho que temos que conversar e fazer aquilo que for melhor para o Brasil. Se essa questão for viável dentro de uma concertação, não é sair da oposição ou não, seria apoiar as medidas necessárias para que as questões mais graves sejam resolvidas.
Acredita que o governo consegue arrumar a casa até 2016?
Do jeito como estão as coisas, impossível. Se um milagre vier do céu e der uma arrumada e mudar o rumo das coisas, pode ser que sim. Mas, do jeito como está, no meio do ano que vem, nós vamos estar no mínimo com 70% de dívida bruta. A nossa dívida está subindo 6 pontos por ano, no ritmo que estamos.
O PT conseguirá ter discurso na próxima eleição, de 2016?
Acho que o PT perdeu o discurso. Ele está à procura de reavê-lo. Na minha avaliação, essencialmente o que aconteceu é que quando o PT, quando o Lula ganhou as eleições, ganhou também o apoio da classe média. E fizeram dois anos de política que era a oposta a defendida pelo PT, mas que deu certo. Levou o País, junto com outras circunstâncias políticas e internacionais, a uma época de prosperidade e euforia. Com a entrada do ministro Guido Mantega e a crise de 2008 há uma grande inflexão em que o PT começou a implementar a sua ideologia dentro da política econômica. Mas a política que o PT pregava de Estado grande, de excesso de intervencionismo, juros baixo na marra, deu no que deu. O PT está completamente sem discurso. Acho que o PT, para se reconstruir, vai depositar sua esperança no discurso demagógico e esse discurso só vai voltar se ele voltar a ser oposição. Acho que o PT hoje está torcendo para voltar à oposição para poder ter algum tipo de discurso.
Uma disputa interna no PSDB pode atrapalhar a chance do partido chegar à Presidência?
É algo que não me preocupa, até me agrada. A nossa grande diferenciação são os quadros. O PMDB não tem quadro para Presidência da República, tem hoje o Temer, na vice. Mas nós temos pelo menos dez nomes.

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