Inclusão Social
Os laços de d. Paulo Evaristo Arns com a social-democracia
14 de Setembro de 2016
Um líder religioso que sabia fazer política e cuja atuação ainda hoje se faz presente. "D. Paulo foi dos brasileiros que teve uma posição estratégica das mais importantes para que o Brasil saísse da ditadura militar e começasse a construir a democracia que estamos construindo até hoje", define o ex-ministro da Justiça e ex-deputado estadual por São Paulo José Gregori, um dos fundadores do PSDB e um dos tucanos que mais teve proximidade com d. Paulo Evaristo Arns.

Nascido em 1921 em Forquilhinha, filho de um casal de imigrantes alemães que vivia no interior de Santa Catarina, o arcebispo emérito de São Paulo completa 95 anos de idade nesta quarta-feira (14). No comando da diocese paulistana entre 1970 e 1998, foi protagonista da resistência na sociedade civil ao arbítrio do regime militar e da redemocratização do Brasil. Dessa atuação em defesa dos direitos humanos e das liberdades civis e políticas, criou fortes laços com políticos de oposição à ditadura que, anos mais tarde, colocariam em prática no país a social-democracia que inspirou a criação do PSDB, já com o restabelecimento do regime democrático.




Um capítulo menos lembrado da biografia de d. Paulo é justamente o papel que o cardeal desempenhou na formação dos dois partidos que viriam a ser protagonistas da política nacional no período pós-redemocratização: PSDB e PT. Para José Gregori, que exerceu o mandato de deputado estadual nos últimos anos da ditadura militar, o então arcebispo de São Paulo incentivou a fundação das duas siglas "por achar que tanto uma peça como outra eram absolutamente indispensáveis para montar o mosaico da democracia brasileira".

Entre os líderes que viriam a fundar o PSDB, em 1988, tinham proximidade com d. Paulo o ex-governador Franco Montoro e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, além do próprio Gregori. O arcebispo também celebrou em 2001 uma emocionante missa no Palácio dos Bandeirantes em memória do então governador Mario Covas, com quem também conviveu desde a redemocratização.

Resistência sim, violência não
O cardeal é símbolo da luta contra a ditatura militar, mas sempre fez oposição ao regime sem violência. Em 1972, criou a Comissão de Justiça e Paz, que oferecia apoio e proteção aos perseguidos pela repressão, e denunciou à opinião pública e a organismos internacionais o arbítrio e a violação de direitos humanos praticados por agentes do estado autoritário. Em memória do jornalista Vladimir Herzog, torturado e morto pela ditadura militar em outubro de 1975, celebrou um histórico culto ecumênico na Catedral da Sé. O ato reuniu cerca de 8 mil pessoas, apesar da contrariedade do regime militar.

O arcebispo também foi responsável pelo projeto "Brasil Nunca Mais", no qual reuniu sob sigilo depoimentos sobre a repressão e a tortura praticadas na época, publicados em livro em 1985, após o fim da ditadura, pela Editora Vozes. O material é uma das principais referências para ações de reparação de danos provocados pela ditadura, cujo conteúdo foi usado tanto pela Comissão da Anistia, no governo Fernando Henrique Cardoso, como pela Comissão da Verdade, na gestão Dilma Rousseff.


Legado
D. Paulo é mais que um líder religioso que soube atuar na política. O arcebispo é lembrado como um dos homens que sonhou com um Brasil mais justo e cidadão. Como definiu José Gregori, em depoimento especial ao Portal do ITV para homenagear os 95 anos de d. Paulo, o cardeal conseguiu como poucos trilhar "essa aventura de ter sido um homem que se aperfeiçoou intimamente, que atingiu os valores cristãos necessários para se apresentar um dia ao juízo final, mas que, ao mesmo tempo, dividiu esse aperfeiçoamento com trabalho social e político".


Jurista e professor universitário, José Gregori foi ministro da Justiça no governo Fernando Henrique Cardoso e deputado estadual entre 1983 e 1986. Teve atuação política marcada pela defesa dos direitos humanos no Brasil. Além de membro da Comissão de Justiça e Paz, foi coordenador da elaboração da Lei dos Desaparecidos Políticos e do Plano Nacional dos Direitos Humanos, secretário nacional dos Direitos Humanos e responsável pela constituição dos Conselhos Nacionais dos Desaparecidos Políticos e de Defesa da Pessoa Humana, do Sistema Nacional de Proteção a Testemunha e da Comissão Nacional da Anistia.

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