Inclusão Social
"O cardeal da esperança", por Ricardo Carvalho
Ricardo Carvalho
Ricardo Carvalho
14 de Setembro de 2016
Conheço dom Paulo Evaristo Arns desde 1976 e fui, ao longo destes anos, recolhendo um sem número de informações sobre a sua impressionante trajetória nestes 95 anos de vida. Escrevi dois livros sobre ele. No primeiro, "O Cardeal e o Repórter", narro as verdadeiras aventuras que acabei vivendo como repórter da Folha de S.Paulo, na segunda metade dos anos 70. Descobri, por exemplo, através do professor da USP José de Souza Martins, que o manicômio de Franco da Rocha abrigava um preso político. Conversa daqui, conversa dali, consegui entrar no manicômio e lá estava o lavrador Aparecido Galdino. Analfabeto, preso como subversivo em 1969, porque pregava o não pagamento de impostos, por conta da inundação do lago de Ilha Solteira atingir a pequena cidade de Rubinéia, onde ele morava, Galdino esteve primeiro com os presos políticos, depois foi transferido para o presídio comum e como não se sabia direito o que fazer com ele, já que era um líder messiânico, no estilo Antonio Conselheiro, o despejaram no manicômio, onde ficou 8 anos.

Levei a história a dom Paulo e ele imediatamente acionou a Comissão Justiça e Paz, presidida na época pelo advogado Mario Simas. Com o apoio da Folha, que encampou a causa como uma campanha e a ação fulminante de dom Paulo, Galdino foi solto em 4 meses.

Em 79, dom Paulo me chamou para uma aventura: ir atrás de duas crianças uruguaias, cujos pais foram mortos pela repressão quando moravam em Buenos Aires e o casalzinho adotado por uma família chilena. Apoiado pela Clamor, movimento de defesa dos Direitos Humanos ligado a dom Paulo com os olhos voltados para a América Latina, fui ao Uruguai e depois ao Chile e bota emoção no reencontro da avó uruguaia com os netinhos que estavam desaparecidos há mais de 4 anos!

Este é um pequeno resumo da intensa relação que dom Paulo teve com a imprensa. O então diretor do Jornal da Tarde, Ruy Mesquita, chegou a dizer ao cardeal: "o problema, dom Paulo, é que os repórteres gostam do senhor". Também pudera! Dom Paulo foi, sem dúvida, a mais importante fonte de informações contra o regime militar (1964-1994). Como jornalista que é, dom Paulo não errava uma e tudo que dizia ou denunciava, vinha com provas, relatos... Foi assim quando o pastor Jaime Wright, ligadíssimo a dom Paulo, me passou, em 1978, em conta gotas, a primeira lista de desaparecidos políticos checadas em diferentes fontes. Mais uma vez a Folha dava um furo e publicava, em 28 de março de 1978, dia da visita do presidente americano Jimmy Carter ao Brasil, a lista que havia sido enviada por dom Paulo ao próprio Carter, já que dois norte americanos constavam dela: Stuart Angel, filho da estilista carioca Zuzu Angel, que teve morte trágica ao insistir em encontrar o filho e Paulo Wright, militante da AP - Ação Popular - e irmão do pastor Jaime.

O livro ganhou o prêmio Vladimir Herzog de livro reportagem e junto com o Instituto Vladimir Herzog fizemos o segundo livro, uma reportagem biográfica, "O Cardeal da Resistência".

Agora em novembro, em co-produção com a Globo Filmes, vai estrear o documentário "Coragem - as muitas vidas de dom Paulo Evaristo Arns". Outras histórias são reveladas e o teólogo Leonardo Boff, que foi aluno de dom Paulo e deve a ele a sua formação intelectual, pontua o documentário com mais revelações. Em 90 minutos, o documentário - o primeiro a ser feito sobre dom Paulo, vai levar para o cinema o trabalho que ele fez pelo pobres da cidade grande, pela resistência ao regime militar, pela periferia de São Paulo, pela democracia, tudo que o faz o grande cardeal brasileiro do século 20. Dom Paulo Evaristo Arns, o cardeal da esperança.

Ricardo Carvalho é jornalista. Escreveu dois livros sobre dom Paulo e está dirigindo um documentário sobre o cardeal. Veja abaixo trecho do filme em que Fernando Henrique Cardoso fala sobre a atuação do cardeal e da igreja na política brasileira



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