Gestão Eficiente
Armínio Fraga: com Aécio, 2015 será melhor que 2014
07 de Outubro de 2014
 

Como o sr. vê a reação de Aécio e a chegada ao segundo turno com uma votação surpreendente?

Vejo naturalmente com muita alegria e com certo alívio também. O Aécio tem a melhor proposta para enfrentar a situação atual do País, que julgo muito difícil. É óbvio que tenho um viés, mas o considero a pessoa mais indicada para enfrentar esse desafio.


O mercado reagiu de forma eufórica ao desempenho de Aécio.


Sim, é mais uma manifestação da tendência que se viu nos últimos tempos, com o mercado caindo quando a candidata da situação sobe e vice-versa. Eu considero que o Brasil vem caminhando numa direção ruim, e que o Aécio traz expectativa de dar uma virada nesta situação. Caso ele ganhe, o impacto vai ser maior. O mercado ainda precifica possibilidades bem divididas de vitória de cada candidato.


Qual a sua expectativa para o debate econômico no segundo turno?


Acho que pode ser melhor, inclusive porque haverá mais tempo para discutir. Na verdade, tem sido um debate difícil, que descamba com frequência para uma linha descuidada e populista. Acho que os dois lados têm muito a dizer, mas isso tem que ser feito com honestidade intelectual, de tal forma que o eleitor possa tomar uma decisão de maneira razoável. Na verdade, não foi assim no primeiro turno, vamos ver como será no segundo.


Qual é a mensagem econômica do Aécio?


Bem, temos um país em recessão e inflação alta, e que tem perspectivas limitadas de crescimento porque investe pouco e não tem ganhos de produtividade. Por enquanto o governo sinalizou que não pretende mudar o curso de política econômica que levou a esses resultados. O Aécio tem como proposta trazer a economia de volta a um potencial de crescimento de 4%, reorganizando a política macroeconômica, reduzindo a incerteza, levando a inflação de volta para a meta e consequentemente obtendo juros mais baixos.


Como fazer isso?


Nossa proposta tem inicialmente três pilares. A primeira, como disse, é reorganizar o lado macroeconômico. A segunda é a reforma tributária, com foco nos impostos indiretos, ICMS, IPI e PIS-Cofins, que oneram imensamente as empresas, as exportações e os investimentos. É algo revolucionário e factível, vamos entrar logo com um projeto bem arrumado para ser discutido e aprovado. E, finalmente, há a enorme carência de infraestrutura que atrapalha todos os setores da economia, e que não vem dando sinais de resposta. Este é o espaço mais natural para o aumento dos investimentos, porque a carência existe e é muito visível. Acho que podemos fazer uma diferença muito grande aí, porque os problemas hoje vêm da combinação do viés antimercado e das grandes dificuldades de execução e coordenação deste governo.


Como Aécio fará para recompor a política fiscal?


Bem, vamos trabalhar de início para recuperar totalmente a transparência, e sinalizar um ajuste que pode ser feito ao longo de dois ou três anos. Dá para fazer muita coisa em cima da gordura, se olharmos para tudo o que está acontecendo em termos de corrupção, ineficiência e desperdício. A recuperação da economia também vai ajudar. Também será possível uma redução gradual de subsídios e desonerações à medida que os problemas mais fundamentais da macroeconomia, da política tributária e da infraestrutura sejam resolvidos. Ou seja, substituiremos medidas paliativas como desonerações por um ambiente econômico muito mais saudável, que fortalecerá as empresas. Elas vão ganhar com a redução do custo Brasil, com a redução do custo do capital, com mais infraestrutura. Não é necessário tomar medidas como rever subsídios e desonerações de uma vez só – é possível ter um processo virtuoso paralelo à melhora macroeconômica e às reformas estruturais.


E a política cambial?


A ideia é restaurar o câmbio flutuante. Nós certamente não vamos usar o câmbio para segurar a inflação como estão fazendo hoje. Vamos parar com os swaps e o atual estoque deve ser reduzido ao longo do tempo. Acredito que podemos fazer isso sem turbulência ao restabelecer a confiança. É bom não esquecer que, no médio prazo, nosso modelo de gestão econômica vai gerar uma taxa de juros normal, mais baixa, e isto vai tirar a pressão dos recursos externos de mais curto prazo, o que elimina um dos fatores que pressionam o câmbio e vai ajudar, com certeza.


A meta de inflação vai ser reduzida?


A ideia é chegar primeiro na meta atual, 4,5%, sem nenhum artificialismo. Depois, muito gradualmente, pensamos em caminhar para 3%.


E a autonomia do BC? Como viu o debate na campanha sobre o tema?


Aécio deixou claro que vamos trabalhar no regime tradicional de metas com transparência e prestação de contas por parte do BC. Eu consideraria mais tarde formalizar este sistema, mas não é uma prioridade para os primeiros momentos. Quanto ao debate, e as críticas que foram feitas ao sistema que mencionei, eu vejo ou como má-fé ou como um entendimento equivocado sobre o qual é o papel do BC. O BC tem de proteger a estabilidade da moeda ou, dito de uma forma mais direta, proteger o bolso dos cidadãos, especialmente dos mais pobres.


Dilma tem dito que Aécio fará um ajuste recessivo, diferentemente do que haveria em um segundo mandato da atual presidente.


Este, para mim, é um dos pontos mais importantes do atual debate. O Brasil cresce muito pouco há quatro anos, muito menos que a média da América Latina, que já é uma região que não vai muito bem. O Brasil investe cada vez menos, há perda de emprego na indústria, que passa pelo seu pior momento em décadas. O mercado de trabalho também já começa a piorar. O que ocorre é que o atual governo, quando fala do ajuste, acena com um dilema que é falso, o que impede o debate. O cardápio de opções que eles mostram é falso.


Por quê?


Porque a situação já é ruim, e tende a piorar. Se houver reeleição, 2015 será pior do que 2014. Porém, se Aécio se eleger, 2015 será melhor que 2014. Eu gosto de lembrar de 1999, quando entrei no governo, depois da desvalorização do real. A expectativa era de uma enorme queda do PIB e de inflação entre 20% e 40%. O PIB acabou crescendo e a inflação ficou em 9%. 2015 não deve ser um ano de alto crescimento, mas, se tivermos uma guinada de expectativas com a eleição do Aécio, isso pode mudar a cabeça das pessoas e das empresas de uma forma bastante radical. Hoje existe uma enorme ansiedade em relação ao futuro do País, e isso tem de mudar. Não é muito difícil de entender como se faz isso. Se um veículo caminha para o despenhadeiro e alguém assume o volante e muda a direção, é natural que se acalme bastante o espírito dos passageiros. Assim, é possível crescer mais no ano que vem e ter uma inflação menor.


Mas o reajuste dos preços administrados não fará com que a inflação no ano que vem seja maior?


De fato, quando falamos de inflação, há muitas variáveis para se prever, é um exercício complexo. Tem a taxa de câmbio e também depende do que o governo atual, que é o responsável por essa situação, vai fazer até o fim do ano com o preço dos combustíveis e o buraco no setor de energia. Na eletricidade, eles se colocaram na situação desagradável de ou aumentar tarifas ou impostos ou empurrar com a barriga e criar um problema ainda maior mais à frente. De qualquer forma, há correções necessárias e saudáveis, para recuperar o caixa da Petrobrás e não subsidiar consumo de combustível fóssil, no caso da gasolina, e para que a oferta de energia acompanhe a demanda, no caso da eletricidade, onde o problema não é a seca. Voltando à inflação, acho que ela pode ficar mais alta durante algum tempo, mas pode ser algo transitório, e já no final de 2015 estará correndo num nível mais baixo. Mas é difícil de saber agora qual o reajuste de preços administrados que o atual governo, que fez o represamento, deixará por ser realizado, caso o Aécio vença.


Se Aécio ganhar, haverá um aumento dos juros no início do governo?


O sistema hoje está todo desbalanceado, o governo pisa no acelerador fiscal, estica o crédito, e isso não está gerando resultados – a economia não cresce e a inflação fica pressionada. Acho que colocando todas as coisas nos devidos lugares de maneira equilibrada, as pressões se reduzem, a confiança aumenta e a economia entra nos eixos de uma forma bem mais suave do que as pessoas imaginam. Ao contrário do que dizem, arrumar a casa faz o País crescer, e não o contrário. Esta é uma lição que deveríamos ter aprendido com a desorganização da economia na década de 80. Agora, se não arrumarmos a casa, aí sim, vamos passar por maus momentos.


O sr. teme que declarações suas, com aquela em que disse que o salário mínimo havia crescido muito, voltem a ser usados como arma eleitoral contra Aécio.


Aproveito para registrar mais uma vez que jamais disse que o salário mínimo cresceu demais, como foi atribuído a mim e como eles ainda insistem em distorcer. Apenas observei que subiu muito e, já que nosso objetivo é que ele continue a subir, é preciso que a economia volte a crescer, pois há limites em relação a quanto os salários podem aumentar numa economia estagnada em que a produtividade não cresce. Aliás, esse tipo de distorção a que você se referiu tem sido um método dos nossos adversários na campanha, mas que acaba dando errado, porque as pessoas acabam descobrindo que a mentira tem pernas curtas.


Por falar em campanha, o discurso de acabar com o fator previdenciário não é uma escorregada populista do Aécio?


Não, não é, porque ele deixou claro que isso é uma proposta a ser construída de maneira responsável.


O Brasil, país de baixa poupança, tem condição de ter uma indústria competitiva?


Sim, nós não temos nenhum problema que não seja autoimposto. Nossa agenda macroeconômica, tributária e de infraestrutura vai ter um impacto muito positivo para a indústria. Além disso, com uma abertura gradativa da economia haverá um aumento da competitividade ao longo do tempo. É algo não muito intuitivo, mas já entendido desde Adam Smith. E quem provou, gostou. Assim, seria extremamente razoável fazer uma abertura gradual ao mesmo tempo em que corrigimos uma série de distorções e problemas que hoje atrapalham nossa economia e particularmente a indústria. Aliás, está muito claro que a economia fechada, mesmo com todos os subsídios e desonerações, não dando certo para a indústria.


Entrevista concedida ao jornalista Fernando Dantas, de "O Estado de S. Paulo". Publicada em 07/10/2014

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