Economia
"Real, 20 anos em perspectiva", por Gustavo Franco
01 de Julho de 2014
Com 20 anos de vida, o Real é o mais bem comportado de todos os 8 padrões monetários que tivemos desde 1942, como nos mostra a tabela.
É verdade que o nosso histórico nesse assunto é nada menos que trágico: que outro país teve oito padrões monetários em 60 anos? Quem mais passou pela humilhação de cortar tantos zeros de sua moeda, maculando as efígies de seus heróis, como quem troca fraldas repetidamente usadas?
Cortamos exatos dezoito zeros nesse período, aos quais se soma um “corte”, uma divisão por 2.750 na passagem do cruzeiro real para o real, de tal sorte a fazer a “a taxa de câmbio” entre um real de nossos dias e o cruzeiro de 1942 chegar a Cr$ 2.750.000.000.000.000 por R$ 1. Na ausência de cortes de zeros os brasileiros estariam fazendo compras na padaria utilizando carrinhos da mão para carregar as cédulas necessárias para o pagamento, como se observou na Alemanha de 1923.
E isso sem falar nos congelamentos, confiscos e maldades que acompanharam diversas dessas reformas monetárias e choques heterodoxos, cujas consequências adversas foram, em muitos casos, bem piores que o mal que procuravam combater.
A racionalidade na gestão da moeda é uma novidade no país, uma criatura que mal superou a adolescência, e a quem cabem, por certo, méritos de adulta, a julgar pelas crises que superou para chegar aos 20 anos, assim viçosa, e a despeito dos achaques recentes. Na verdade, ao revisitar a trajetória do Real com o auxílio dos números para o IPCA, ganhamos certo distanciamento dos eventos e de versões montadas no calor dos acontecimentos. O leitor que hoje reflete sobre variações do IPCA na segunda casa decimal, ou que nunca viveu a hiperinflação, não poderá deixar de se surpreender com os números dos primeiros tempos.
Várias batalhas tiveram lugar para que o país chegasse à estabilidade, e normalmente apenas as primeiras são associadas diretamente ao Plano Real. Talvez seja mais próprio pensar no Plano Real e na estabilidade da moeda como objetivos permanentes, e que são continuamente testados por novas circunstâncias.
O extraordinário sucesso na primeira das batalhas - os quatro meses de vida da URV (Unidade Real de Valor) - pode ter trazido a impressão equivocada de que o Plano Real se resumia àquele episódio. Tínhamos reduzido a inflação de 43,1% mensais (em média para o IPCA no primeiro semestre de 1994), ou 7.260% anuais, para um número bem menor em julho de 1994: 6,8% mensais, ou 121% anuais. Uma queda extraordinária, um processo encantador, cheio de excelentes desígnios, mas, o ponto de chegada, 121%, era um número ainda totalmente absurdo, sendo este, na verdade, o tamanho do desafio a ser enfrentado na segunda batalha, aquela na qual as autoridades teriam que combater com armamento convencional.
Esta segunda batalha durou 4 anos. Paralelamente ao combate à inflação lutávamos em várias frentes: na área fiscal, nas dívidas com estados, nas privatizações, na abertura, e na solução de uma crise bancária que ceifou cerca de 100 bancos dos 300 que existiam em 1993. Entre nós, da área econômica, quando se falava de “âncoras”, repetíamos Vasco Moscoso de Aragão, personagem de Jorge Amado, capitão de longo curso, que ao aportar em porto desconhecido, e ser perguntado sobre que âncoras lançar, dizia: todas!
E mesmo com todas as âncoras, e com muitos sabichões criticando o nosso excesso de zelo, tudo o que conseguimos nos primeiros 12 meses de vida da nova moeda foi uma inflação acumulada, medida pelo IPCA, de 33%, um número que soa tão impossível ao observador de hoje, quanto os 121% iniciais.
Mas tivemos perseverança: a inflação caiu abaixo de 20% em abril de 1996, 22º mês, e abaixo de 10% apenas em dezembro, 30º mês da nova moeda. No ano calendário de 1997, o IPCA cresceu 5,2%, e em 1998 a inflação pelo IPCA foi a menor em nossa história: 1,7%.
Não creio que pudéssemos dizer que o plano estava completo, e que a desindexação realmente se entranhara, antes de atingir este nível, uma espécie de “zero técnico”, uma inflação igual à dos EUA. Era a prova material e essencial de que podíamos ter uma inflação, e uma moeda, de primeiro mundo.
Duas crises internacionais sobrevieram a partir do final de 1997, e uma terceira batalha teve de ser travada em torno da mudança do regime cambial. O abandono da âncora cambial oferecia um desafio aterrorizante, o risco de se colocar tudo a perder, mas, felizmente, o organismo estava preparado, surpreendentemente desintoxicado, e novamente superando os piores prognósticos, vencemos. A vitória aí foi a de termos conseguido implantar o “tripé” durante uma perigosa sucessão de crises internacionais, sem que a inflação sequer atingisse 10% anuais. E mais importante, assentou-se ainda mais firmemente a estabilização através da combinação consagrada: superávit primário, câmbio flutuante e metas de inflação.
Mas o pior desafio ainda estava por vir, não por um choque externo, mas pela ascensão ao poder dos sempre aguerridos adversários da estabilidade. O adolescente precisava lidar com seus próprios fantasmas e, em certo momento, não parecia capaz de superar o desafio. A batalha que tem lugar no decorrer de 2002 foi perdida, o sistema de metas colapsou, a inflação pelo IPCA superou os 15% (e pelo IGPM superou 30%), enquanto o pânico nos mercados era tacitamente alimentado pelos pronunciamentos na área política.
A batalha de 2003-2004 talvez tenha sido a mais fácil, pois a vitória teve que ver com o presidente recém-eleito decidir que não ia tocar fogo no barco onde ia navegar. O bom senso prevaleceu, as idéias heterodoxas e seus patrocinadores foram exilados, e o tripé foi reestabelecido.
Em 2004, no décimo aniversário do Real, o grande enredo era a convergência: a moeda era agora, na prática, de toda a nação, os riscos de “rupturas ideológicas” estavam afastados e o “grau de investimento” era questão de tempo, e de fato veio poucos anos depois.
Do 10º ao 14º ano, o ano da grande crise internacional de 2008, felizmente, a integridade da estabilização não esteve mais ameaçada, ao menos com riscos comparáveis aos que corremos no passado. Vivemos apenas a rotina do regime de metas, com seus ciclos de aperto e de relaxamento, e que vem funcionando a contento mesmo diante da crise internacional de 2008 que terminou sendo uma crise de conseqüências deflacionistas. Na verdade, se há alguma explicação para os efeitos relativamente modestos da crise de 2008 sobre o Brasil, ela começa com o trabalho cumulativo e paciente desenvolvido por diversos governos e administradores ao longo dos anos anteriores.
Entretanto, uma nova e perigosa batalha parece ter início ao longo da administração Dilma Rousseff, quando a estabilidade começa a sofrer sorrateiramente os ataques que se imaginava que fossem ocorrer em 2003. Considerações ideológicas começam a interferir em políticas setoriais daí resultando uma crescente hostilidade entre o governo e o setor privado. O crescimento perde fôlego, a inflação é mantida dentro dos limites superiores da banda fixada pelo sistema de metas (6,5%) graças à repressão dos preços administrados e consequente debilitação financeira das empresas públicas, sobretudo Petrobrás. O tripé se vê atacado especialmente no seu vértice fiscal, onde os resultados têm sido ruins e as queixas se multiplicam sobre a maquiagem das contas fiscais, déficits e dívida pública especialmente.
Aos 20 anos de idade, portanto, nossa moeda segue firme, mas atacada “de dentro” pela falta de convicção da administração Dilma Rousseff sobre responsabilidade fiscal, moeda sadia, cidadania global e economia de mercado, quatro pilares básicos da reconstrução monetária iniciada em 1994. Os primeiros três itens são os componentes do famoso “tripé”, apenas vistos de forma mais ampla. E o quarto, a crença na economia de mercado, o vértice associado às políticas regulatórias, ambiente de negócios, reformas e infraestrutura, é algo que se tomava por dado em outros tempos. Havia uma harmonia de pensamento entre governo e setor privado sobre a quem cabe o protagonismo no processo de crescimento. O crescimento da presença do Estado na economia resultou em enfraquecer esse pressuposto e em diminuir a confiança e a disposição do setor privado em investir. O vigésimo aniversário do real será comemorado num ambiente de crescente mau humor com as políticas públicas direcionadas ao crescimento e com o descaso para com o “tripé”.
A despeito disso, o país continua a observar suas possibilidades futuras com otimismo embora com a sensação clara de que estamos perdendo tempo, quem sabe mesmo retrocedendo em temas econômicos importantes. Felizmente, todavia, o vigésimo aniversário coincide com uma eleição presidencial, e por isso mesmo pode assinalar um retorno às políticas virtuosas que nos retiraram do pesadelo da hiperinflação.

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