Economia
Persio Arida: os bastidores da história do Real e os segredos de seu sucesso
01 de Julho de 2019
Para o economista Persio Arida, um dos pais do Real, vários fatores contribuíram para o sucesso do plano que estabilizou a economia brasileira e pôs fim a um perverso ciclo de hiperinflação. Um dos principais, segundo ele, foi o poder de articulação e negociação do então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, em três frentes de batalha. A primeira dentro do Governo, convencendo o presidente Itamar Franco a bancar a nova moeda. A segunda, no Congresso Nacional, que aprovou as reformas modernizantes para a manutenção da estabilidade. E a última, junto à opinião pública, que acabou abraçando o plano.

Pedro Malan, Persio Arida, Clóvis Carvalho (sentados); Gustavo Franco, Francisco Pinto e Edmar Bacha (de pé) - Foto: O GLOBO"Uma coisa é ter ideia, outra coisa é executar essa ideia", salienta Arida nesta entrevista concedida ao Portal do ITV na semana passada. Ele lembra que a base do Real foi idealizada 11 anos antes da nova moeda ser lançada, em um paper que ele e o também economista André Lara Rezende elaboraram em 1983 e acabou publicado na série de Textos para Discussão do Departamento de Economia da PUC-RJ, que foi apelidado de Plano "Larida".

Para Arida, o grande fiador da estabilidade continua sendo até hoje, 25 anos depois do lançamento do Real, a opinião pública. "O governante que inflacionar a economia será punido nas urnas. A moeda é estável porque, no sistema democrático, há um enorme incentivo para que os governantes evitem políticas irresponsáveis ou populistas que despertem o dragão inflacionário", observa.

Leia a íntegra da entrevista:

Como foi a gestação do Real? Pode-se dizer que ela começou com o chamado "Larida", a proposta que o senhor elaborou em parceria com André Lara Rezende e que já previa a criação de uma nova moeda para debelar a inflação?
A base do Plano Real é o Plano "Larida". O "Larida" foi um paper que André e eu escrevemos em 1983, 11 anos antes do Real. Foi publicado na série de Textos para Discussão do Departamento de Economia da PUC-RJ naquele ano e apresentado em uma conferência em Washington sobre inflações em vários países, em 1984. Foi Rudiger Dornbush, que tinha sido nosso professor no MIT, quem cunhou o nome Plano Larida para designar a ideia. Era algo que nunca havia sido feito antes: criar uma moeda alternativa, deixar as pessoas escreverem os contratos nessa moeda alternativa e depois fazer a reforma monetária que converteria automaticamente a moeda velha na moeda alternativa.
No Larida, essa moeda alternativa era chamada de Correção Monetária pro rata die. Ou seja, era uma moeda que tinha poder de compra constante; a paridade para com a moeda corrente mudava de acordo com a inflação. No paper também fixávamos o valor inicial da moeda alternativa como US$ 1, porque a taxa de câmbio também era fixada de acordo com a inflação.
URV - Foto: Editora AbrilHá 2 diferenças entre o "Larida" e o Plano Real. Primeiro: no "Larida" a moeda alternativa era emitida na prática, não era apenas virtual; no Plano Real a moeda alternativa, rebatizada como URV, era apenas virtual. Segundo: no Larida a conversão de todos contratos da economia da moeda corrente na moeda virtual deveria ser feita voluntariamente, ou seja, via livre negociação das partes. No Plano Real, a conversão dos salários foi obrigatória, mas a livre negociação prevaleceu para todos os demais contratos. São pequenas diferenças. Na essência, estamos falando da mesma coisa.

Como as coisas aconteceram com Fernando Henrique Cardoso já no Ministério da Fazenda e a equipe de economistas já montada e trabalhando (além de Persio Arida, Pedro Malan, Gustavo Franco, Edmar Bacha e André Lara Rezende)? Como foi a preparação para a URV ir às ruas e, depois, o Real?

Há vários aspectos. Primeiro, houve uma convergência da equipe econômica para a proposta "Larida", com essas duas pequenas variações. Foram muitos debates. O paper "Larida" partia do princípio de que a inflação era puramente inercial na partida, de que não houvesse um problema de déficit público. Não era o caso da economia brasileira naquele momento. Justamente por isso, a primeira etapa do Plano Real foi fazer o ajuste fiscal através do Fundo Social de Emergência, para criar as condições que tornaram o plano "Larida" aplicável.
Fernando Henrique Cardoso e Itamar Franco - Foto: BG PressFernando Henrique, como ministro da Fazenda, teve um papel enorme, porque uma coisa é ter ideia, outra coisa é executar essa ideia. E execução, ainda mais em uma reforma monetária, não é coisa de uma pessoa. Você tem que ter um time de pessoas ultra capacitadas, dedicadas de corpo e alma à formulação e à execução do Plano; tem que ter poder político, tem que convencer o governo internamente, tem que convencer o Congresso a aprovar. E ainda tem a batalha da opinião pública. Como a conversão dos contratos para a moeda virtual era por livre vontade das partes, as pessoas podiam simplesmente ter ignorado o Plano. Então eram três diferentes frentes de batalha: a frente interna do governo, a frente do Congresso e a da opinião pública.
Do ponto de vista interno do governo: Fernando Henrique assistiu inúmeras reuniões da equipe econômica e confiava em nós. Ele também tinha uma ascendência sobre o Itamar Franco, que era seu amigo. E embora nunca tivesse entendido exatamente do que se tratava, Itamar acabou apoiando o programa. Fernando Henrique, sendo político, tinha grande capacidade de negociação com seus pares no Congresso, pois era senador.
E a população abraçou o plano. Pelo paper "Larida", a previsão era que essa livre conversão dos contratos para a nova moeda demoraria de dois a três anos. Na prática, demorou três meses. É verdade que no Real os salários foram convertidos compulsoriamente, o que acelerou o processo como um todo. Mas mesmo assim, três meses é um tempo muito curto e mostra que a população abraçou com convicção do Plano. Outra demonstração desse endosso da opinião pública é o fato de a população ter dividido os preços da moeda velha por 2.75 para chegar aos preços em reais. Os 2.75 eram o fator de conversão no dia da troca monetária para valores em moeda corrente; mas nada impedia que os preços fossem convertidos em reais por qualquer outro fator. Na prática, o que se verificou foi que a população usou a máquina de calcular seguindo a recomendação do Plano. 
E apoiou tanto o Plano que elegeu Fernando Henrique como Presidente.

Você se considera um dos grandes economistas brasileiros?
Nunca se deve falar de si e imodéstia é pecado capital para mim. Acho que o Larida foi uma contribuição intelectual relevante e ter participado do Plano Real, na prática, foi um privilégio. Raros os intelectuais que tem a oportunidade de implementar suas ideias e trabalhar em conjunto com um time tão capaz como foi o time do Plano Real.

Persio Arida no BNDES - Foto: O GLOBOComo o ex-guerrilheiro de esquerda virou banqueiro e um dos pais do Plano Real?
Nunca peguei em armas na vida! Fazia parte de uma rede de apoio e era comunista, mas não peguei em armas. Por conta disso fui inocentado pela Justiça Militar. E isso foi aos 18 anos, em 1970. O "Larida" foi escrito em 1983, 13 anos depois. Todos nós evoluímos, pensamos, refletimos. A ironia é que fui taxado durante toda a minha vida de economista como um neoliberal. E sempre respondi indignado: neoliberal não, sou pior ainda, sou liberal das antigas mesmo. Mas hoje em dia não me reconheço nessa direita tosca que surgiu no Brasil. É uma direita obscurantista, anti-ciência, intolerante, contrária à agenda de direitos humanos e do meio ambiente. Uma caricatura distorcida do liberalismo clássico.

Temos uma moeda de 25 anos. O que foi importante para esse sucesso e essa permanência do Real?
Quando falamos em Plano Real é importante diferenciar duas etapas. A primeira foi a fase do lançamento do Real, que agora celebra 25 anos. A segunda foi a fase das reformas modernizantes necessárias para sustentar o plano, para dar estabilidade à moeda. A "mágica" do Real foi fazer uma desinflação súbita sem congelamento de preços. Mas se não tivesse havido um fundamento nas reformas estruturais a inflação teria voltado. Devagarinho, mas teria voltado. A fase de consolidação foi longa: seis meses de Itamar mais oito anos de Fernando Henrique.
Hoje, o grande fiador da estabilidade é a opinião pública. O governante que inflacionar a economia será punido nas urnas. A moeda é estável porque, no sistema democrático, há um enorme incentivo para que os governantes evitem políticas irresponsáveis ou populistas que despertem o dragão inflacionário.

Temos uma geração de brasileiros que não conheceu a inflação e que já cresceu, por exemplo, com programas sociais mais robustos. Como se sente sendo um dos pais de tudo isso?
O Brasil conhece pouco de sua própria história, infelizmente. E um dos lados ruins de não conhecer a própria história é a ideia de futuro que se tem. Hoje em dia existe uma descrença, uma percepção difusa de que o Brasil não tem jeito. Isso transparece na relutância a investir ou na quantidade enorme de jovens que buscam oportunidades lá fora. Mas há vários episódios que contam uma outra história: a de um Brasil que deu certo, que ousou fazer coisas diferentes, que ousou fazer reformas.
A história do Real, naqueles oito anos de Fernando Henrique, tem que ser ensinada não apenas para as pessoas conhecerem mais da história do Brasil, mas para verem que, em alguns momentos, o Brasil deu certo e fez coisas surpreendentes, sim!

Ministro da Fazenda, Pedro Malan; Presidente do Banco Central, Persio Arida; e ministro do Planejamento, José SerraEm algum momento desses 25 anos, o senhor viu alguma ameaça à estabilidade?
O governo Fernando Henrique terminou com um expressivo superávit fiscal. Gradualmente, durante os governos de esquerda, o superávit foi diminuído, os gastos públicos aumentaram muito. Hoje temos um déficit estrutural. O déficit não coloca em risco a estabilidade da moeda hoje em dia porque temos um enorme desemprego, mas pode colocar a estabilidade em risco quando a economia voltar a crescer se não tivermos feito reformas que aumentem a produtividade.
O fato de nós termos entrado numa trajetória estrutural de declínio do superávit é preocupante. Mas volto ao ponto: como a inflação é um bem público, o governante que desrespeitar a vontade popular de manter a inflação baixa será punido nas urnas. Isso dá estabilidade à moeda, ainda que com muitos sustos.
Veja o que aconteceu no Governo Dilma. A inflação estava no topo da meta de 6,5%, mas 6,5% era uma média de preços congelados e de preços livres. Ou seja, a inflação só parecia estar sob controle porque havia congelamento de gasolina e tarifas públicas. Os preços de mercado já eram reajustados bem acima do topo da meta. Quando houve a descompressão das tarifas, a inflação pulou para 10%. Foi o momento em que a Dilma, de fato, começou a perder a popularidade.

Qual o principal desafio hoje para manter essa estabilidade?

Hoje não há risco de inflação por excesso de demanda porque estamos com uma taxa de desemprego elevadíssima. O desafio surgirá, no entanto, quando o Brasil passar a crescer aceleradamente. Nesse momento, se não tivermos feito as reformas necessárias para aumentar a produtividade e equacionado o problema do déficit público, a inflação voltará a nos afligir.

Como avalia o trabalho da equipe do ministro Paulo Guedes?
É um governo que está começando. A opção do ministro foi se concentrar na Reforma da Previdência e deixar as reformas que aumentam a produtividade do país para um segundo momento. O tempo dirá se foi uma boa opção ou não. É claro que concentrar 100% das fichas e o capital político da "lua de mel" do presidente na reforma da Previdência aumenta a chance de aprová-la. Em contrapartida, a produtividade não aumenta porque reformas essenciais como abertura comercial, reforma tributária, a simplificação de normas e maior segurança jurídica ficam adiadas. Além disso, o foco exclusivo na Previdência gerou no empresariado uma atitude de espera. Ninguém investe até ter clareza do tamanho da Reforma da Previdência. Não é à toa que os investimentos sobre o PIB estão na mínima histórica. Isso ajudou a empurrar o PIB para baixo.

Em 2018, o senhor foi um dos principais assessores do candidato tucano à Presidência. O que o senhor faria diferente de Paulo Guedes, caso Geraldo Alckmin tivesse sido eleito?
Difícil dizer. Mas, certamente, algo mais equilibrado entre Previdência e reformas estruturantes fazem mais sentido para mim. Como orientação geral, a exclusividade de agenda dada à Previdência não existiria. A reforma do sistema previdenciário seria encaminhada, pelo menos, com outras duas medidas estruturantes: a reforma tributária e uma discussão efetiva de abertura da economia.

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