Economia
"Inovação como estratégia global da empresa", por João Paulo dos Reis Velloso
João Paulo dos Reis Velloso
João Paulo dos Reis Velloso
01 de Junho de 2016
É conhecida a colocação de Baumol (1):

"...A resposta que eu proponho aqui é que em partes dominantes da Economia o primeiro instrumento de competição não é o preço, mas a Inovação.

"Como resultado, as empresas não podem deixar a competição ao acaso. Contrariamente, os executivos são forçados pelas pressões de mercado a apoiar a ação inovativa sistematicamente, e substancialmente. E o sucesso nos esforços de uma empresa força suas rivais a dar um passo à frente em seus próprios esforços.

"O resultado é uma luta feroz entre as firmas nos setores que mais crescem na Economia".


No âmbito da ideia de Inovação como a Estratégia da Empresa, concepção completamente diversa da ideia da estratégia de inovação, uma entre várias, que as empresas em geral costumam ter.

Agora, a Inovação passa a ser a Estratégia Global da Empresa. Entretanto, no caso brasileiro, há um problema fundamental: o país gasta muito em Ciência e Tecnologia (C&T), mas não há a interação necessária entre Universidade, Empresa e Instituições Governamentais. A hélice tripla não funciona.

Na Universidade Pública - federal -, geralmente, a Pesquisa não é voltada para os objetivos do Desenvolvimento e colocada a serviço da Sociedade. A grande maioria dos pesquisadores está orientada para publicar artigos em revistas científicas no exterior. E, com isso, o grande investimento feito em P&D "não obedece a qualquer ordem ou prioridade, a nenhuma Estratégia". Consequentemente, as empresas se retraem.

Estamos, então, diante da necessidade de duas coisas. De um lado, mudar o modelo das Universidades, induzindo-as a criar fundações que possam realizar contratos com empresas e instituições governamentais. Como faz a Universidade de São Paulo (USP), pelo fato de que seu orçamento é limitado a certo valor, além do qual ela tem que fazer acordos com empresas/entidades.


De outro, já é tempo de começar a pensar na eliminação da gratuidade do Ensino Superior para alunos acima de certo nível de renda. No Brasil, até os filhos do Onassis teriam ensino superior gratuito.

Novidade importante, no atual governo, é a proposta de transformar a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) em Banco da Inovação (BNDES da inovação). Ou algo parecido.

Argumento favorável: C&T é barato. Inexiste qualquer argumento para fundamentar o contingenciamento dos Fundos Setoriais de Tecnologia. E há todos os argumentos para prover bem de recursos a área de Tecnologia e Inovação.
É altamente prioritária e custa pouco - bom e barato. Vital.

Feito o diagnóstico do caso brasileiro, é chegada a oportunidade de partirmos para uma proposta de "Estratégia de Inovação para o Brasil" (2).

Podemos recorrer às ideias apresentadas no XXV FÓRUM NACIONAL (Jubileu de Prata), por Marcos Cavalcanti e André Pereira.

Nossa experiência de lidar com o assunto há várias décadas nos leva à ideia de que estaremos no caminho certo, para o caso brasileiro..

Evidentemente, teremos de tomar como ponto de partida o mundo de Baumol.

Disso decorrem algumas colocações.

Objetivando definir uma Estratégia de Inovação para a Inserção Competitiva do Brasil na Sociedade do Conhecimento, é essencial definir prioridades.

Primeiro, superar a orientação de os investimentos públicos em C&T&I serem caracterizados por fragmentação, flutuação e descontinuidade de recursos e programas.

Segundo, é óbvio terem as empresas de software brasileiras demonstrado sua competência em áreas de ponta (exemplos: processo eleitoral automatizado, setor bancário automatizado, entrega de declaração de Imposto de Renda via internet).

Terceiro, outro exemplo: temos uma grande oportunidade no Setor Aeroespacial. Além do desempenho da Embraer, podemos ser líder no lançamento de satélites - um mercado gigantesco.

Quarto: podemos ser líderes em algumas Tecnologias do Século, como Biotecnologia à base da Biodiversidade e Nanoeletrônica (a Eletrônica do Futuro).

Quinto: Como já assinalado, a Universidade brasileira não pode continuar de costas para a Sociedade, pesquisando apenas o que interessa aos pesquisadores.

É em torno dessa orientação que gira o mundo da Pós-graduação no País, quando deveriam ser as reais necessidades da Sociedade brasileira, levando em conta as múltiplas oportunidades existentes.

Assim é que colocaremos o Brasil no rumo de uma inserção de destaque na Sociedade do Conhecimento e a serviço do Desenvolvimento nacional.

Não podemos esperar mais.

Temos uma oportunidade histórica ao nosso alcance. E não podemos perdê-la.

É INOVAÇÃO OU RETROCESSO.


Referências:

(1)Ver William J. Baumol, "The free-market Innovation Machine", Princeton University Press, 2002.

(2) A propósito, ver a recente Lei 13243, de 11.1.2016.

 



 
João Paulo dos Reis Velloso - ex-ministro do Planejamento e atual presidente do Fórum Nacional 





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