Economia
Aécio Neves: o PT atrasou o Brasil em 20 anos
10 de Agosto de 2015
Leia a entrevista do presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves, à revista "Veja" (Edição 2438 -
O que é pior para o Brasil três anos e meio de um governo agônico de Dilma Rousseff ou uma solução traumática como o impeachment?
Não vejo como romper esse ciclo perverso de incompetência e de visão ideológica arcaica no qual o PT nos mergulhou sem um governo que resgate a confiança da população. Com o PT, o Brasil perdeu vinte anos de conquistas. A situação do país é muito grave, para qualquer governo. Mas só um governo que tenha capacidade de dizer a verdade à população — de forma que as pessoas reconheçam a razão dos sacrifícios, mas consigam enxergar lá adiante uma possibilidade real de melhoria — tem condições de encerrar essa espiral e dar início a um novo processo. O governo que está aí dá seguidas mostras de não ter condições de fazer isso.
Colocado de outra forma: o senhor acha que a presidente Dilma termina o mandato?
Não quero antecipar cenários. Mas o governo estabeleceu a mentira como método. A presidente da República não vai conseguir resgatar as condições de governabilidade, pelo menos enquanto não tiver a coragem de vir a público reconhecer sua parcela de responsabilidade pelos sofrimentos que esta crise está impondo aos brasileiros. Quanto mais insistir em falsear a verdade, atribuindo os problemas à crise internacional ou ao agravamento da seca, mais distante estará de recuperar essas condições. Em política, o ativo mais precioso é o tempo. E o PT perdeu esse tempo.
Uma pesquisa do Datafolha mostrou que 63% dos brasileiros apoiam a abertura do processo de impeachment contra a presidente. Em seu partido, o PSDB, há divergências sobre a questão. Qual a sua posição sobre o impeachment?
A minha posição é de respeito à Constituição, e o impeachment é uma previsão constitucional. O impedimento não ocorrerá por desejo das oposições, mas pela combinação de um conjunto de fatores, que inclui obrigatoriamente a comprovação de culpa por crimes. Portanto, que fique claro que um desfecho amparado pela Constituição não pode ser tratado como tentativa de golpe. Golpeiam aqueles que tentam impedir o desfecho no âmbito da Constituição. Não sei se há hoje os elementos de culpa, mas nada impede que eles surjam mais adiante. O relatório do ministro Augusto Nardes, do TCU, é bem firme quando afirma que houve pedaladas fiscais, e as evidências de que a campanha de Dilma recebeu dinheiro ilegal se acumulam. Se isso for comprovado, a lei está aí para ser cumprida. Cumprir a lei é respeitar a democracia.
Uma das saídas cogitadas para a crise seria a adoção do parlamentarismo. Como o senhor vê essa alternativa?
Sou parlamentarista, sempre defendi esse sistema e acho que no futuro é por onde devemos trafegar. Mas penso que essa discussão tem de ocorrer fora do contexto de uma crise aguda. O parlamentarismo, a meu ver, não é a solução neste instante, quando o Congresso vive um momento de fragilização.
O governo do PT tenta agora fazer o ajuste que negou que faria durante toda a campanha. O ajuste do PSDB, caso tivesse saído vitorioso, seria diferente?
O ajuste do PSDB teria uma dosagem bem mais fraca, mas produziria resultado mais rapidamente e com impacto muito maior. A retomada dos investimentos seria imediata. O ajuste do PSDB restauraria a credibilidade. Com a volta da confiança, tudo entra nos eixos. Um governo confiável poderia promover, em curtíssimo prazo, a redução da taxa de juros. Em boa medida, a disparada atual dos juros se deve à tentativa estabanada do Banco Central de restaurar a confiança. Enxergo o ministro da Fazenda cada vez mais isolado. O mais grave é ele não poder dizer em alto e bom som que as medidas do ajuste aprovadas até agora não funcionam por causa da herança maldita de sua própria chefe. Temos um ministro da Fazenda manietado.
Um estudo dos economistas Mansueto Almeida, Samuel Pessoa e Marcos Lisboa estima que as despesas públicas com saúde, Previdência e educação vão aumentar 300 bilhões de reais até 2030.0 Brasil está mesmo condenado ao eterno desequilíbrio fiscal?
Temos um problema estrutural que precisa ser reconhecido. Temos despesas obrigatórias que crescem mais que o PIB. Mas a realidade é que isso se agravou muito neste último período. As propostas do ministro Joaquim Levy não conseguiram diminuir as despesas. Elas aumentaram porque o governo está sendo obrigado a pagar neste ano as pedaladas do ano passado.
A presidente Dilma disse que a Lava-Jato provocou a queda de 1 ponto porcentual no PIB. O senhor acha que o Brasil está pagando um preço alto demais para expurgar a corrupção?
Esse, entre todos, é um preço que vale a pena ser pago. Agora, a presidente se equivoca novamente, e não tem sido fácil compreender algumas das suas afirmações. Não foi a Lava-Jato que provocou essa queda do PIB. Foi a corrupção generalizada, sistematizada e orgânica, herdada do governo de seu antecessor e por ela mantida, inclusive em áreas que conduzia pessoalmente e com mão de ferro. O que a Lava-Jato faz é um bem enorme ao Brasil. A ação do Ministério Público e da Polícia Federal ficará por muitos e muitos anos como um momento definidor de um Brasil mais forte e mais justo — um país em que a lei vale realmente para todos e a impunidade é uma exceção, e não mais a regra.
Que medidas práticas e imediatas o senhor imagina que poderiam ser tomadas para estancar a corrupção no Brasil?
Na campanha eu apresentei uma, que continua valendo. O caminho mais curto para diminuir a corrupção é tirar o PT do governo. E a medida que antecede todas as demais. Enquanto isso, há outras. Nesta semana vou apresentar uma PEC para que, mesmo em cargos de indicação política, a pessoa tenha de passar por um processo de qualificação. Pode haver indicações para esses cargos — que a meu ver têm de ser diminuídos em ao menos um terço —, mas precisamos profissionalizar a burocracia. Fiz isso em Minas Gerais, onde a certificação era feita pela universidade federal. Aplicamos a regra às novas indicações. O resultado foi que 70% dos que pediram cargos nunca apareceram para tentar provar sua qualificação. Depois, estendemos a norma para aqueles que já estavam nos cargos — 50% não fizeram a avaliação. Isso liberou as vagas, de forma que os cargos passaram a ser ocupados por gente qualificada.
Integrantes do Congresso investigados pela Lava-Jato estariam articulando um movimento para barrar a recondução ao cargo do procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Como o senhor vê isso?
Eu acho inconcebível nós, aqui no Senado, negarmos apoio ao procurador-geral se for ele o indicado. No que depender de mim, vou defender a aprovação do nome escolhido pelo Ministério Público. A beleza desse processo é que, apesar de tudo, dessa crise, do desatino do governo e das pressões, as instituições no Brasil funcionam em sua plenitude. São elas que darão o impulso necessário ao país para que retome a rota do crescimento.
O senhor perdeu a eleição mais disputada da história democrática e criticou muito o que chamou de “jogo sujo” do PT. Há algum erro que considere ter cometido?                                                                                                     Cometi vários. Mas tenho orgulho de ter falado a verdade. Como disse a Marina Silva, na política, há ocasiões em que você perde ganhando, como aconteceu conosco, e ganha perdendo, como aconteceu com a presidente da República. Eu ando pelas ruas tranquilamente, de cabeça erguida, com a família, com os amigos. A presidente está sitiada. Se hoje as lideranças do PT têm de pensar duas vezes antes de ir a um restaurante, é porque estão pagando preço altíssimo por ter mentido à população e desrespeitado a inteligência dos brasileiros. Essa eleição foi diferente das outras para o PSDB. Perdemos a disputa, mas nos reconectamos com o povo. Houve um despertar das ruas, de gente que não se engajava em política, que não sabia como retomar o protagonismo do próprio destino. Não podemos perder esse impulso. Somos minoria no Congresso, mas ampla maioria na sociedade. É a ela que temos de dar respostas.
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso reafirmou recentemente que Dilma Rousseff é uma “pessoa honrada”. O senhor concorda?
Pessoalmente, nunca questionei a idoneidade da presidente. Mas se existe algo com que o presidente FHC, eu e milhões de brasileiros certamente concordamos é que não há dúvida de que a presidente e seu governo foram beneficiados pelo maior esquema de corrupção já montado dentro do Estado brasileiro. A questão é saber se ela fez isso conscientemente ou por omissão. Isso cabe à Justiça descobrir.
O senhor seria favorável a essa aproximação que o governo parece estar propondo?
Vou contar um episódio que mostra por que não confiamos na sinceridade das intenções do governo. Antes do anúncio oficial do resultado da eleição, quando ficou claro que a presidente havia vencido, cumpri o ritual que o processo eleitoral dos países democráticos recomenda, até para marcar o momento oficial da definição da eleição. Liguei para a presidente da República, cumprimentei-a pela sua vitória e disse a ela: “Presidente, a sua maior missão é unir o Brasil depois de uma campanha como esta que ocorreu”. Obviamente, para bom entendedor, meia palavra basta. Desejei a ela sorte no enorme desafio de governar o Brasil. Ela, de sua parte, não cumpriu a outra etapa do ritual, que é dizer publicamente que recebeu um telefonema do adversário reconhecendo a sua vitória. Mas isso para mim é o menos importante. Naquele momento em que conversamos ao telefone, dei o sinal claro de que estava ali estendendo a mão e não poderia negar uma conversa pública em favor do Brasil.
Qual foi a resposta da presidente?
Falou de união no seu discurso daquela noite e depois nunca mais tocou no assunto. Manteve a arrogância, continuou a culpar os outros pela gravidade da crise. Não dá para confiar em uma intenção real e sincera do governo de dialogar conosco.
Qual será a saída para a crise econômica?
Temos instituições que funcionam e uma economia razoavelmente estruturada. Somos ainda os melhores do grupo dos Brics. A Rússia é excessivamente dependente do petróleo e do gás. A índia tem 90% da sua economia na informalidade e uma burocracia ainda mais impenetrável que a brasileira. A China investe na sua rede de proteção social o pouco que investíamos na década de 70. Já a África do Sul está com uma taxa de desemprego de 25% e problemas fiscais gravíssimos, mesmo em comparação com os nossos. Temos estrutura para sair da crise, mas isso é insuficiente quando a presidente não transmite confiança e não demonstra capacidade de governar. Quem tem condições de nos tirar da crise é o PSDB. Acredito que em breve o partido será chamado a assumir sua responsabilidade de tirar o Brasil desse poço sem fundo em que o PT nos enfiou. Estamos preparados para isso.

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