"É difícil Dilma se recuperar", avalia FHC
26 de Outubro de 2015
alx_fernando-henrique-cardoso-2015_original (1)Leia a entrevista do presidente Fernando Henrique Cardoso, publicada na revista "Veja" - edição 2449 (28 de outubro de 2015).

Ele fala sobre a crise e a decisão de publicar suas memórias (Diários da Presidência, 1995-1996).

Em que ponto estamos da crise?
No meio. Quando houve a crise do Collor, que foi diferente desta, chegou um momento em que ficou nítido que era insustentável. Ele teve maioria, mas não dava atenção ao Congresso, que o percebia como soberbo — um pouco como acontece com a presidente Dilma. E isso é complicado. Os presidentes que não entenderam a dinâmica da tradição política brasileira, que pensam que o presidencialismo "imperial" tem toda essa força, não se aguentam. Getúlio usou essa força, fechou o Congresso, deu numa ditadura, não é bom. Os presidentes só conseguem levar a coisa adiante quando têm rumo, apoio da opinião pública e, por conseqüência, do Congresso. Essa é a ordem. O governo perdeu o rumo, perdeu o apoio da opinião pública. Aí fica rodando em falso. Vi isso no tempo do Jango. Os governos não podem deixar de produzir resultados. Por que estamos no meio da crise? Porque nosso governo está deixando de produzir resultados.

O senhor citou dois presidentes depostos e um que se suicidou. Isso demonstra que o senhor avalia que Dilma não tem como se recuperar?
Acho difícil. Em política, o futuro é inventado, não está dado. Então não vou dizer que não há possibilidade, mas que a probabilidade de recuperação é baixa, isso é.

A crise ainda vai se aprofundar?
Sim, até porque a crise econômica ainda vai se agravar. Boa parte das pessoas que têm posição institucional importante está sob ameaça da Lava-Jato. E, para sair de uma situação intrincada como essa, vai ter de haver uma orquestração. Na crise do Collor, quando ficou inviável, o Sarney me chamou e falou: está na hora de reunirmos o congresso dos cardeais. E o que era isso? Eram pessoas que tinham sensibilidade institucional, em diversas posições, que pudessem ajudar a conduzir o processo, inclusive gente do governo. Em um dado momento, você tem de formar uma rede de pessoas que tenham compromisso com o país e com as instituições. Não chegou ainda esse momento.

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, implementa um ajuste que boa parte do governo rejeita. O senhor teme uma saída à esquerda para essa crise, com abandono do ajuste fiscal?
Se for por aí, vai enveredar para o caos. É preciso entender como funciona o mundo atual, que é interligado. Se você não atentar a certas regras de equilíbrio orçamentário, não vai ter crédito. E, se não tiver crédito, não funciona. Eu não sou monetarista, nunca fui, não acho que a dívida em si seja um pecado, entendi bem o Keynes. Mas imaginar que se criou um modelo de crescimento mágico dá no que deu.

O senhor mencionou a necessidade de ter responsabilidade. A oposição tem cometido erros?
Eu já disse claramente que não estou de acordo com a maneira como o PSDB votou, por exemplo, no fator previdenciário. E, se houver uma proposta de idade mínima para aposentadoria, o PSDB deveria votar a favor, independentemente do governo. O PSDBnão pode se confundir com o corporativismo.

O partido está sendo leniente com Eduardo Cunha?
As coisas que estão aparecendo aí mostram que ele é inviável, é uma questão de tempo. Não são especulações. Está lá: conta aqui, conta ali, passaporte. Como faz?

Uma das críticas é que a atuação do PSDB não está à altura da dimensão da crise.
Não só o PSDB, nenhum partido. O Lula deu uma contribuição enorme em relação à leniência com tudo o que está aí, com o malfeito. Talvez o que tenha faltado ao PSDBfoi demonstrar mais sua repulsa ao que está acontecendo. E isso tem de ser recuperado no Brasil: não podemos perder a indignação. Porque a situação que está acontecendo aqui é indigna.

E o que o PSDB vai propor para superar a crise: renúncia, impeachment ou a cassação da chapa? O PSDB pediu ao TSE a cassação. Isso vai acontecer?
Eu não sei. Isso vai depender das investigações. O Brasil é um país que amoleceu muito no
que diz respeito à lei. Eu me lembro que, quando surgiu o mensalão, houve uma denúncia comprovada de pagamento no exterior para financiar campanha. Isso é crime de lesa-majestade. E não aconteceu nada. Estamos vendo crescentemente dados que mostram desvio de recursos do petrolão para abastecer a campanha. O que o juiz pode fazer se for mostrado isso? Tem de anular as eleições. O PSDB apostou mais nisso, não no impeachment. O impeachinent foi aposta mais do PMDB. Agora, se vier uma questão de impeachment objetiva, o PSDB não terá alternativa: votará a favor do impeachment.

Depois de anos com a pecha da herança maldita, a sua imagem pública sofreu um resgate. Como vê essa redenção em vida?
Sempre fui uma pessoa que tenta ser objetiva. Não fico aflito com as coisas. A história muda de opinião. Quem entra para a vida política tem de ter muita firmeza interior. Quando você entra para a política, você é responsável pelos seus atos. Fiz com boa intenção, não roubei, não censurei, não protegi, não persegui. O julgamento da história vai se formando, e ele muda.

O ex-presidente Lula hoje vive uma situação em que ele e familiares podem ser investigados na Lava-Jato. Com ele ocorreu o contrário da roda da fortuna?
Infelizmente, Lula está enterrando a própria história. O Lula quando surgiu tinha força, integridade, era um líder autêntico, surgiu para renovar. Podia ter feito muito mais. Com a força política que tinha, fez escolhas complicadas. Todo mundo faz escolhas erradas, mas ele as fez persistentemente. Ainda agora. Eu acho uma pena.

E por que o senhor tomou a decisão de publicar seus diários em vida?
Por dois motivos. O primeiro é que é muito difícil o tratamento desse material. Minha voz é embrulhada. No gravador precário, mais ainda. Eu queria adaptar a linguagem oral, sem mexer na substância. Então queria fazer ao menos esse volume. Suponha que eu morra: eles ficam sabendo qual o limite de alteração do que foi dito que eu aceito no texto, o limite do esclarecimento. Por outro lado, as coisas estão tão complicadas no Brasil que está na hora de rasgar a fantasia. Sei que a gente paga por isso, mas estou pouco ligando para isso, sou sincero. Passou o tempo em que eu ficava muito preocupado com qual seria a reação ao que eu disse. Não é pretensão: é que não tenho mais ambições, e não tenho mesmo. Eu queria mostrar como a partir da Presidência você registra o que está acontecendo, e por que você tenta fazer alguma coisa, ou outra. Queria que fosse uma coisa real e, ao mesmo tempo, algo útil para entender a dinâmica do poder, vista de dentro. Eu tento o tempo todo não perder o olhar crítico.

O senhor leu esse volume depois que foi editado. Como é rever esses momentos?
Não sei como foi possível suportar tanta tensão, tanta pressão. E houve um diálogo surdo entre a sociedade, os grupos organizados, o Executivo, a mídia. Eu digo em alguns momentos: estão falando que foi assim, mas foi assado. Quando chegar a vez da compra de votos, no ano que vem, você vai ver como aconteceu mesmo, como chegou até mim. Pelo menos, visto do meu ângulo, não é assim. Em outros casos não, posso até dar elementos para que me critiquem.

O senhor se queixa da mídia, dos aliados, dos amigos. A lição é que o poder realmente é solitário?
Ele é solitário nos momentos de crise, nos mais difíceis. Você pode estar cercado de gente, mas é solitário, porque a decisão tem de ser sua. Tem de ter a capacidade de resistir sozinho, tem de se conter muito. Não é uma função banal.

Em público, o senhor sempre manteve uma certa fleuma. Mas os seus relatos pessoais falam em "desespero", "chantagem", que "não vale a pena".
É isso mesmo. Você falou em chantagem. Você precisa do voto, o nosso sistema é democrático, graças a Deus. Então você não pode impor, tem de negociar. A negociação implica barganha. A sociedade não gosta da barganha, o presidente também não. Mas ele sabe que ou faz o jogo ou não obtém seus resultados. Então, do ponto de vista pessoal, se levar a sério o projeto que você tem, e sabendo seu papel, você tem um desgaste humano grande.

Existe essa separação entre avaliação pessoal e a visão do presidente da República?
Se você é um homem político, mais do que de partido, de Estado, tem de entender que é responsável pelas consequências dos seus atos, que você tem de fazer com que as coisas aconteçam. Não são as suas verdades íntimas, não é a sua convicção, a sua ética pessoal. Qual é o efeito que você conseguiu para a sociedade, a despeito de ela ser como ela é. Ela tem interesses. Se você não é um homem de Estado, um homem político, pode simplesmente não lidar com os interesses, levar uma vida virtuosa. A virtude do político não é pessoal, é a virtude de colocar um objetivo que seja aceito democraticamente e fazer com que ele aconteça. Isso tem um preço, e esse preço muitas vezes contraria o que você gostaria de fazer. Mas, se você não fizer, a realidade é triste.

E inevitável, ao ler o livro, traçar paralelos entre o seu período e os subsequentes. O Brasil avançou ou regrediu, e sob que aspectos?
Em muitas coisas houve avanços. O Judiciário está funcionando, os procuradores, a imprensa está livre. O que se conseguiu na construção da democracia não foi pouco. Se estivéssemos há vinte anos, estaríamos discutindo nomes de generais. Nós estamos discutindo nomes de juizes. Só isso é uma mudança muito grande. O que aconteceu é que houve um desarranjo muito grande, que veio desde o presidente Lula. O problema no Brasil é saber quem conduz o atraso. E a briga do PT com o PSDB era qual dos dois iria conduzir o atraso, mas o PT foi engolfado pelo atraso. O problema não é eles estarem ligados a setores atrasados, mas terem perdido a capacidade de conduzir o processo.

Então o "pacto com o diabo" que Dilma fez é diferente do que o senhor fez, mesmo com personagens em comum?
Não é a mesma coisa. Fiz para avançar, e consegui alguns avanços. Eles estão fazendo para manter o poder, não é porque existe um propósito objetivo.

Na sua época, dizia-se que as crises saíam do Palácio menores do que entravam. Isso também é uma diferença entre ontem e hoje? Sem dúvida, é um componente pessoal, de liderança. O próprio Lula manejava melhor que Dilma. Qual era meu estilo de governar?
Ouvir. As pessoas dizem que eu concordava com tudo. Eu não concordava, eu ouvia. Só de você escutar, as pessoas já saem muito aliviadas. Meus colegas de universidade diziam: não sei como você aguenta essa gente. Essa gente é o Brasil, que tem sua diversidade de visões, de interesses, que você tem de ouvir e tentar entender o que a pessoa representa, quer. Nunca tive uma atitude de fechar o nariz, você tem de entender. E conduzir.

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