"Dilma representa um fiapo da base que já teve no passado", afirma FHC
08 de Setembro de 2015
Confira a entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao jornal 'O Globo', publicada em 05/09/2015
O que é o lulopetismo?
É a ideia da hegemonia do partido, de que o partido domina o Estado e o Estado muda a sociedade. Essa é a trajetória que o PT tentou imprimir.
Quais as consequências disso?
Os petistas aceitaram a democracia, mas uma democracia sob hegemonia, não aceitando o outro, só quando o outro se submete. É uma variante nacional-estatizante da esquerda.
Como o senhor vê os conceitos de esquerda e direita considerando que o ministro da Fazenda do governo petista é Joaquim Levy?
É uma incoerência completa ter um ministro da Fazenda que tem uma visão mais liberal da economia. Mais liberal que a minha. A esquerda preconizava o controle coletivo dos meios de produção. Isso sumiu do mapa, ninguém mais propõe. A base real socioeconômica do governo petista é uma relação solidificada entre Estado, fundos de pensão, que representam os funcionários das empresas estatais, e alguns setores privados. E utiliza o Estado para o crescimento da economia. Portanto, o PT não propõe socialismo nenhum. É claro que tem um ingrediente de distribuição (de renda), que já vinha de antes e foi acentuado. Esse aspecto deu um elemento de esquerda ao lulopetismo, mas ele não é (de esquerda).
O senhor fala em crise da representatividade das lideranças. Quem a presidente Dilma representa hoje?
Os governos lulopetistas têm uma base nos estados em que há mais Estado e menos mercado. Nesses lugares, ricos e pobres votam pelo PT. Mas essa base é eleitoral, a base de sustentação de poder é outra, é o setor empresarial, com os fundos de pensão e a burocracia. Mas essa também o governo deixou de representar na medida em que a economia deu para trás pelo excesso de intervencionismo, por erros. Essa base foi minguando. Ricos e pobres deixaram de apoiar. No momento, Dilma representa um fiapo da base que já teve.
Como a Lava-Jato influenciou?
A investigação destruiu em parte essa estrutura de sustentação, conforme revelou que o mecanismo de sustentação de poder do PT passou a ser corrupto. Não é a corrupção tradicional, que é pessoal. É uma corrupção institucionalizada, organizada e que sustenta partidos. No mensalão não chegava a tanto, era para financiar a eleição, mas agora não.
É uma falha do sistema político?
Não é só isso. Com a pretensão hegemonista, você tem que ter recursos para manter a máquina do partido. De que maneira o PT obtinha esses recursos? Já lá atrás havia acusações. Pegue o caso da prefeitura de Santo André, em contratos de lixo, de ônibus. Não é o único exemplo. Mas ainda não era uma coisa sistemática. Agora, para surpresa de todo o mundo, se verificou que no poder federal eles organizaram o sistema. Está se vendo pela Lava-Jato que não é só a Petrobras, são todas as obras públicas, a Eletronuclear, o Ministério do Planejamento, da Saúde.
Mas é possível montar um esquema de corrupção no governo federal sem que o presidente saiba?
Muito dificilmente. É muito grande. Eu não posso afirmar porque não tenho informação. Isso não foi feito pela Dilma, ela já encontrou assim. Eu acho até que a Dilma tentou segurar no caso da Petrobras, quando nomeou a Graça (Foster), que demitiu alguns dos que estão implicados hoje. Tentou fazer um governo ético, mas, depois o sistema não permitiu, as forças políticas não permitem mais.
Em 2011, o senhor disse que a presidente Dilma recebeu uma “herança maldita” do Lula. O senhor a considera uma vítima?
Eu a considero vítima nesse processo. Ela não é só vítima, claro, até porque está lá, enfim, mas é uma armadilha em que ela caiu. E como sair dessa armadilha? A situação brasileira é tão anômala que qualquer um que fosse exercer o poder teria um tremendo problema de se sustentar politicamente, porque você teve um esfarelamento dos partidos, tem 40 ministérios. É uma anomalia que está ligada a essa cooptação. Nós não temos mais um presidencialismo de coalizão, é um presidencialismo de cooptação.
Na situação em que a Dilma está, com uma popularidade tão baixa, é possível se manter no poder?
É difícil, muito difícil, o próprio vicepresidente já alertou que nessas condições a deterioração de poder é grande. O poder definha, mas é possível ela reagir. Só não sei como.
O que o senhor quis dizer sobre renúncia ser um ato de grandeza?
Eu não falei da renúncia, eu dei três caminhos: renúncia, ou ela assumir a liderança, ou ficarmos nesse “ramerrão”. E de propósito eu não falei de impeachment nem de anulação de eleição, porque são coisas definidas por tribunais, não pela política. Renúncia é um ato individual, mas não só. Surge quando a situação fica impossível. Acho que ainda não é, mas pode chegar a ser impossível.
O senhor defende que o auge da hegemonia petista está no passado. Isso quer dizer que em 2018 temos o PT como perdedor certo?
Ah, eu acho muito difícil o PT ganhar. Mas me refiro à hegemonia do partido. A Dilma está na presidência, mas o PT não consegue mais impor sua vontade no governo.
O senhor em 2010 disse que o Lula era um mito e que poderia eleger quem quisesse. O senhor mantém a afirmação?
Isso foi naquela época. O Lula é um mito que se quebrou, junto com o lulopetismo. Lula cresceu e caiu junto porque o mito era sustentado pelos resultados. Isso não quer dizer que esteja morto. O Lula tem lá suas virtudes pessoais, se adapta às situações e tem olfato para coisas. Mas obviamente reconstruir é muito difícil, é um cristal que se quebrou. Embora o sistema tenha se esboroado nas mãos da Dilma, quem sabe ler a história percebe que não foi ela quem construiu esse sistema.

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