Combate à corrupção
Em entrevista a jornal argentino, FHC diz ser "impossível não ver que houve desvio das práticas constitucionais e morais"
05 de Setembro de 2016
O ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, em entrevista ao jornal argentino Clarín, foi taxativo ao analisar o processo de impeachment que culminou na cassação de Dilma Rousseff: a petista se tornou a segunda chefe do Executivo brasileiro a perder o mandato em 24 anos tanto pela caracterização de crime de responsabilidade - que não deve ser confundido com crimes previstos no Código Penal - como pela falta de condições políticas para seguir no cargo.

"Eu fui renitente a aceitar a abertura do impeachment de Dilma e me opus ao de Lula na época do mensalão porque sei que politicamente é traumático destituir alguém que teve o voto popular, embora o vice-presidente tenha sempre o mesmo número de votos do presidente. Até que... as evidências sejam tantas que é impossível não ver que houve desvio das práticas constitucionais e morais", afirmou o presidente de honra do PSDB, em entrevista por e-mail à publicação argentina. "Um presidente, nas democracias presidencialistas, não cai por falta de apoio partidário no Congresso ou entre o povo. Cai quando pratica atos inconstitucionais e quando perde o respeito do país, seja por conduta pessoal inadequada, seja por incapacidade de governar."

Na entrevista, publicada nesta segunda-feira (5), FHC faz uma análise do processo político vindo desde a campanha em que Dilma "fez o diabo" para se reeleger até o julgamento concluído na semana passada no Senado. "Eu mesmo apelei à presidente para que tivesse grandeza: oferecesse sua renúncia se houvesse convergência no Congresso para a aprovação de algumas medidas urgentes de reforma. O PT, de início, menosprezou a força da opinião pública. Alicerçado em sua aliança com o PMDB e demais agrupamentos, imaginou que os desmandos cometidos seriam perdoados, dada sua história. Não contou com as consequências do agravamento da crise econômica e nem com os efeitos da revelação de seus esforços indevidos para ganhar as eleições em 2014", observa o ex-presidente.

Fernando Henrique também aponta diferenças e semelhanças entre a social-democracia defendida pelo PSDB e aquele à qual o PT se converteu após vencer as eleições presidenciais, em 2002. "Enquanto o PSDB aceitava regras de mercado, embora as achasse insuficientes para resolver os problemas de desigualdade e pobreza, o PT, sem explicitar, não acreditava no mercado livre, inclinando-se a maior ingerência partidária e governamental", afirma. "O PT herdou a visão que liga classe a partido, partido ao Estado e, uma vez controlado este, o partido lidera as transformações sociais, embora também estivesse enraizado em movimentos da sociedade. Já o PSDB acredita mais na sociedade do que no estado, mesmo reconhecendo que sem este as necessidades daquela não são atendidas."

Leia a ÍNTEGRA da entrevista de FHC à edição em português do site do Clarín

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