Combate à corrupção
Antonio Imbassahy: “O ladrão vai roubar em qualquer sistema”
25 de Novembro de 2014

Entrevista ao jornal "Correio Braziliense"


Líder do PSDB na Câmara, o deputado Antonio Imbassahy (BA) diz que as declarações de petistas que apontam o atual sistema político, com foco no financiamento de campanha por empresas, como culpa da corrupção são uma “desculpa esfarrapada”. “Quando o cara é ladrão, vai roubar em qualquer sistema. Pode ser o melhor ou pior sistema que ele vai arrumar mecanismos para roubar”, afirma. Como o PT, no entanto, ele defende a reforma política e diz que tem de ser prioridade do Congresso no início da próxima legislatura. Imbassahy admite dificuldades na investigação feita pela CPMI da Petrobras, que ficou praticamente parada durante a Copa do Mundo e as eleições, mas as atribui à “atuação nefasta” do Palácio do Planalto. O parlamentar admite que a convocação dos 23 presos na última fase da Operação Lava-Jato pode causar constrangimento ao Congresso, já que 20 deles são executivos de grandes empreiteiras financiadoras de campanha eleitoral. Ele diz, porém, que a oposição vai brigar pela convocação.


A Operação Lava-Jato investiga o pagamento de propina a políticos. Qual foi o impacto dessas denúncias no Congresso?
Até agora não sentimos diretamente um impacto maior, a não ser uma obstrução do funcionamento da CPMI, decorrente de uma ação do Palácio do Planalto, que inegavelmente não deseja que a comissão avance nas investigações. As investigações da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e da Justiça Federal são autônomas, em que o Palácio não pode interferir. Aqui pode e interfere por meio da bancada governista.


Quais são as estratégias da oposição na CPMI nessa nova fase da operação?
Com relação aos 23 presos, entre eles executivos tops de empresas importante no contexto nacional, decidimos tentar convocá-los para prestar depoimento. Já foi dada a entrada desses requerimentos na (última) terça-feira.


Essas empreiteiras são grandes doadoras de campanhas eleitorais. Isso dificulta as investigações no Congresso?
É inegável que pode haver algum tipo de constrangimento porque, eventualmente, devem existir relações pessoais entre parlamentares e alguns desses executivos ou empresas que estão sendo investigadas. Mas isso não impede a convocação deles. Até porque não se trata de partidarizar. Trata-se de identificar aquelas pessoas que agiram de maneira desonesta com dinheiro público na Petrobras. Então não há essa coisa de identificar quem tem relação com um partido ou com outro. Trata-se de identificar quem é o desonesto.


Mas o senhor acha que o Congresso realmente vai conseguir aprovar essas convocações?
Nada pior do que esse executivo já estar preso na PF, submetido ao rigor de uma cadeia, de uma investigação, de um depoimento ao delegado da PF e ao procurador da Justiça. Isso é extremamente desgastante para essas pessoas. Então, vir aqui é atitude consequente de uma prerrogativa constitucional do Congresso.


O MPF diz que esse esquema atuava havia pelo menos 15 anos, abrangendo parte do período FHC. O PT tem razão quando diz que só agora o governo permite que se investigue?
Isso não é verdade. É uma técnica do PT de colocar todo mundo na mesma situação. Evidentemente coisas equivocadas acontecem em qualquer governo. Na gestão do PT, ninguém poderia imaginar essa corrupção de dimensão amazônica. O que o PT fez com a Petrobras é impensável. Instalou uma organização criminosa na Petrobras e, muito provavelmente, em outras estatais brasileiras. O mensalão, que também foi um escândalo, de repente virou uma coisa diminuta. O Petrolão passou pelo governo do ex-presidente Lula, em que a atual presidente da República era ministra de Minas e Energia, chefe da Casa Civil, durante um grande período foi presidente do Conselho de Administração da Petrobras. Portanto, participou de decisões importantes de compra e venda de ativos e de contratações. Como presidente da República, é possuidora de instrumentos de controle. E não teria usado isso para coibir essa corrupção. É como o próprio ex-presidente da Petrobras, no início dessas operações, (José Sergio) Gabrielli: a presidente Dilma não podia fugir da sua responsabilidade. Ele sabia o que estava dizendo.


Como o senhor vê as declarações da presidente sobre a Lava-Jato?
São de um cinismo muito grande. Ela ocupou a presidência do Conselho de Administração da Petrobras. Ela, que se dizia tão ciosa e conhecedora de tudo que se passava em qualquer canto da administração, agora vem dizer que se surpreendeu, que não sabia? As pessoas até podem dizer que ela não sabia de tudo, pelo tamanho da corrupção, mas ninguém acredita que ela não sabia de nada.


Qual medida o senhor acha que a presidente poderia ter tomado?
Já deveria ter afastado a atual presidente da Petrobras, que durante estes anos no comando não se comportou como presidente séria, digna, determinada ao combate à corrupção. Ao contrário, ela foi complacente. Foi até conivente. Mais que isso, mentiu nesse período ao afirmar que desconhecia fatos que já tinha conhecimento. Acho que não tem condições morais de permanecer na presidência.


O ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa disse que pagou propina ao ex-presidente do PSDB Sérgio Guerra, morto este ano, para esvaziar a CPI. Como oPSDB está tratando o assunto?
Da mesma maneira que devem ser tratados os demais suspeitos da prática de ilícitos. Deve-se investigar e buscar a condenação. No caso do presidente Sérgio Guerra, evidentemente é uma situação diferente, porque ele já faleceu. Mas mesmo assim deve-se investigar. Mesmo falecido, o caminho do dinheiro não desapareceu. Está registrado e não vai ser difícil chegar a qualquer tipo de localização. Até porque teria sido um valor tão grande que, claro, deixa rastro.


A CPMI encerra os trabalhos em dezembro. Ficou praticamente parada na Copa do Mundo e nas eleições. Uma nova CPMI realmente acrescentará às investigações?
Este ano foi prejudicada pela Copa do Mundo e eleição, mas também pela ação nefasta do governo, que criou uma série de obstáculos continuamente para que a CPMI não funcionasse. É claro que a gente não vai ter uma conclusão que possa abranger todo esse fato que continua sendo examinado. Mas vamos encerrar com banco de dados, muitas informações, já com compartilhamento de quebras de sigilos. Vai ter algum avanço. No ano que vem, não tenho a menor dúvida de que uma nova CPMI vai operar com muito mais efetividade. Porque a imprensa está atenta a tudo isso e, mais que a imprensa, a opinião pública.


O PT tem tratado a reforma política como uma das soluções para corrupção no Brasil. A oposição tem o mesmo pensamento?
Essa questão de dizer que o sistema facilita a corrupção é desculpa esfarrapada. Porque quando o cara é ladrão, vai roubar em qualquer sistema. Pode ser o melhor ou pior sistema que ele vai arrumar mecanismos para roubar. Quando o cara é honesto, ele vai permanecer com a sua conduta. Pode até ser um sistema que ofereça facilidades, mas se o cara tem princípios honestos, ele vai se comportar com decência. Não tem sistema para ladrão.


Mas a oposição defende ou não a reforma política?
Não só a oposição. Todos nós, congressistas. Nessa hora não deve ter distinção de partido. Deve haver convergência de pensamento para que possamos ter uma reforma política que nos direcione a uma aproximação maior entre eleitor e representante. O custo da campanha ser menor significa que a influência do poder econômico será menor na decisão do voto. Os partidos políticos mais orgânicos, mais bem estruturados, com mais clareza das linhas programáticas. A população quer que isso seja feito. Espero que a gente consiga fazer no início da nova legistalura. Só fico um pouco preocupado porque não vejo da parte da presidente eleita liderança que pudesse contribuir nesses avanços. Ela está aí há quatro anos e não se mostrou uma pessoa que tenha capacidade de diálogo, de liderança, de fazer avanços. Ao contrário, ela tem uma índole intolerante, que não admite contraditório, uma série de dificuldade de relação com o diferente. Isso não é bom para a democracia.


Eduardo Cunha é candidato da base ou da oposição?
Como líder do PMDB, ele tem se comportado com autonomia em relação às vontades e desejos da presidente Dilma. Isso é claro. Aqui ele tem dado demonstrações ao fazer entendimento com a oposição em defesa de teses importantes para o Congresso. Então, existe uma aproximação também entre uma candidatura do Eduardo Cunha e setores da oposição. Mas esse é um processo que está amadurecendo ainda.

Comentários