Ciência e Inovação
Especialistas e gestores debatem economia criativa como estratégia de crescimento
08 de Julho de 2016
Com o propósito de debater alternativas para o desenvolvimento e a geração de empregos, o Instituto Teotônio Vilela promoveu na sexta-feira (08/07), em São Paulo, o seminário "Repensando as Cidades - economia criativa como estratégia de crescimento". O evento reuniu os especialistas do setor Lídia Goldenstein, o espanhol Jordi Pardo, Ana Carla Fonseca e Guilherme Cavalcanti. A abertura do encontro foi feita pelos senadores Aécio Neves, presidente do PSDB, e José Aníbal, presidente do ITV, e pelo governador de São Paulo Geraldo Alckmin.

A economista Lídia Goldenstein, diretora da Fundação Bienal de São Paulo e ex- assessora do BNDES, deu início às palestras afirmando que o Brasil ficou para trás e precisa trazer à tona esse tema. "Só podemos pensar soluções para os nossos problemas, a partir do momento que a gente consegue entender as mudanças internacionais que estão ocorrendo: globalização e revolução tecnológica. Enquanto o mundo estava se reinventando, o Brasil, antes de mergulhar na crise, vivia a ilusão das commodities, do crescimento eterno, dos novos consumidores (a propalada classe média)", explicou.

Para Lídia, a difusão das inovações, a velocidade e a intensidade norteiam os novos rumos da economia moderna, a Economia do Conhecimento. "Houve uma mudança no paradigma produtivo internacional, a competitividade e o desempenho das empresas e organizações hoje são baseados no conhecimento, em ativos intangíveis - marca, capital humano, software, design - não se mede mais pelo o que é tangível, como antigamente, onde grandes prédios e construções representavam a grandeza de determinada empresa".

Necessidade de se reinventar
Com o crescimento da Economia do Conhecimento, os países e cidades tiveram que se reinventar. Lídia afirmou que a primeira nação a perceber a mudança de paradigma foi o Reino Unido. "Começaram a tratar seus problemas, entre eles a perda da manufatura para a Ásia, e passaram a investir em setores mais inovadores e dinâmicos. Todos ancorados às novas tecnologias e às questões culturais, perpassando as mais diferentes esferas do governo".

No caso do Brasil, o atraso, na visão da economista, se dá por inúmeros problemas que ainda não conseguimos superar. "Precisamos diagnosticar e tratar nossos problemas de infraestrutura, de educação, tributários e tecnológicos ao mesmo tempo, caso contrário o mundo já vai estar na banda 10G e o Brasil continuará na 3G. Temos que pensar em todos os nossos problemas de forma a gerar uma economia nova, não mais dos anos 50", sentenciou Lídia.

Quanto à qualidade da educação, um dos principais problemas que o País enfrenta, é preciso pensar de uma forma diferente, nova, segundo a economista. "Não adianta educar através de um velho paradigma, pois estaremos formando pessoas que não estarão preparadas para o novo mundo que se apresenta".

Lídia afirmou que condições e instrumentos para o Brasil entrar de vez na Era da Economia do Conhecimento não faltam. As autoridades políticas em todas as esferas precisam estar cientes disso. "É muito importante falar que no Brasil existe uma ilusão de que os políticos não são capazes de fazer - o que não é verdade. Visão estratégica, capacidade de liderança e um pouco de ousadia todos os governos podem ter. Os EUA e o Reino Unido induzem às empresas a inovar. Falta isso aqui. Ainda administramos o Brasil com ferramentas do século passado. O segredo é otimizar políticas públicas para desenhar melhores condições afim da inovação florescer", finalizou.

O exemplo de Barcelona
A transformação de Barcelona a partir da realização dos Jogos Olímpicos de 1992 foi o mote da palestra de Jordi Pardo. Segundo ele, as enormes mudanças ocorridas na cidade catalã só foram possíveis pela atuação em diferentes frentes para a elaboração de um plano estratégico metropolitano (o primeiro da Europa), ainda em 1986. "Essa mudança uniu poder público, sindicatos, universidades, câmaras de comércio e entidades culturais", contou. A visão de todos era "colocar a Olimpíada a serviço da cidade" e não o contrario.

"Os jogos deveriam beneficiar todos os bairros, melhorar a infraestrutura urbana de toda a cidade. Mas como não podíamos fazer tudo, foi essencial também a parceria com o setor privado", completou. Com esse processo interdisciplinar, explicou Jordi, em seis anos a cidade se transformou. "E foram mudanças que duraram. Barcelona recebia 300 mil turistas em 1986. Hoje recebe mais de 7 milhões", exemplificou.

Além disso, as transformações trazidas pelos Jogos tiveram continuidade em outros projetos importantes para a cidade, entre eles, o Distrito de Inovação de Barcelona - @22bcn. Criado onde antes ficava uma antiga área de indústrias têxteis abandonadas, o complexo seguiu a idéia de "integração, densidade, diversidade de usos e complexidade. "Parques industriais isolados não funcionam. Precisamos de lugares onde as pessoas possam trabalhar e viver. Por isso, a transformação foi geral: residências, transporte público, prédios comerciais, eficiência energética", disse.

O projeto do 22@bcn foi aprovado em 2000, com início das atividades em 2003. Já naquele período, foram criados 62 mil postos de trabalho em 3000 novas empresas. Ao todo, o complexo atraiu para Barcelona 4.500 novas empresas, gerando 350 mil empregos, além de dez novas universidades.

Jordi Pardo é gestor de projetos culturais, especializado em desenvolvimento territorial e regeneração urbana. Em sua palestra, ele reforçou que cidades criativas são cidades inovadoras e, por conseqüência, mais atrativas. "A cultura impulsiona a criação, que impulsiona a inovação, que impulsiona a transformação", afirmou. "Barcelona era uma cidade pequena, apesar de intelectualmente vibrante, de história de lutas contra ditadura. Mas conseguimos mudar a partir de propostas criativas e viáveis. As cidades brasileiras tem um potencial extraordinário, profissionais formados em ótimas universidades. Creio que, nessa situação de crise, o Brasil possa utilizar esse potencial", concluiu.

Cultura, inovação e conexão
A vencedora do Prêmio Cláudia 2013, Ana Carla Fonseca, falou sobre "as cidades que se reinventam" e que, para isso, investem em três vetores: cultura, inovação e conexões. "Cultura no sentido de alma, identidade, vibe, conjunto de percepções, modos e formas de agir", detalhou, explicando a importância desse vetor na atração de talentos. "Há um estudo que aponta o que os talentos consideram no momento de escolher uma cidade para viver e trabalhar: perspectiva de carreira, qualidade de vida, custo de vida e - a grande novidade - diversidade cultural", disse.

Inovação, segundo ela, é reinvenção permanente, é identificar o problema e transformá-lo em solução. "Geralmente, são decisões que dependem de políticas públicas, mesmo que a idéia não venham necessariamente do poder público", completou. Um exemplo, citou, é a criação do Poupatempo Ambiental de Botucatu. O município recebeu por duas vezes o selo Verde-Azul e pediu que o prêmio fosse convertido na construção de um prédio sustentável para abrigar a prestação de serviços para esta área - licenciamento, poda de árvores, fiscalização e descarte de lixo.

"Conexão é considerar com o devido valor os vários elementos da cidade, é também entendê-la como contexto, reconectar seus vários bairros e regiões e, sobretudo, conectá-la com a consciência do cidadão que nela vive", completou Ana Carla.

A especialista concluiu sua palestra citando três cidades que se reinventaram por meio de projetos de economia criativa: Paris - com o Reiventar.Paris; Buenos Aires - com a criação de distritos vocacionais; e Paragominas - cidade do Pará que chegou a perder o acesso a linhas de crédito por integrar a lista dos maiores desmatadores do país, mas que, com ações criativas, conseguiu se transformar em exemplo para o programa Municípios Verdes.


O Porto Digital de Recife
Fechando o ciclo de palestras, o administrador e diretor executivo da ARIES - Agência Recife para Inovação e Estratégia, Guilherme Cavalcanti, um dos idealizadores do Porto Digital do Recife, falou sobre o projeto e os avanços que ele trouxe para a região.


O Porto Digital é um dos principais parques tecnológicos e ambientes de inovação do Brasil e é um dos representantes da nova economia do Estado de Pernambuco. Localizado no Recife, sua atuação se dá nos eixos de software e serviços de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) e Economia Criativa (EC), com ênfase nos segmentos de games, multimídia, cine-vídeo-animação, música, fotografia e design.


Reconhecido por sua territorialidade singular entre parques tecnológicos, o Porto Digital é um parque urbano instalado no centro histórico do Bairro do Recife e no bairro de Santo Amaro, totalizando uma área de 149 hectares. A região, antes degradada e de pouca importância para a economia local, vem sendo requalificada de forma acelerada em termos urbanísticos, imobiliários e de recuperação do patrimônio histórico edificado desde a fundação do parque, em 2000.


Para Cavalcanti, a diversidade que forma Recife está presente no conceito que o Porto Digital tem de cidade criativa. “Antes de serem tecnológicas, as cidades precisam ser afetivas. Paris e Barcelona, por exemplo, são referências. São cidades que vão além de suas liras, são cidades que ‘deliram’. O Porto Digital também. É um sonho delirante executado com método, coragem e determinação. Os nortes do Porto estão baseados em 4 P’s – princípios, pessoas, perímetro e planeta. Através disso, conseguimos invadir o imaginário dos jovens do Recife”, afirmou.


A ideia dos jovens que idealizaram o Porto Digital é mudar o mundo a partir do Recife. “Começamos a nos organizar para transformar a nossa cidade em um local relevante. Fomos atrás de experimentar em Recife aquilo que achávamos que estava dando certo em outros cantos do mundo. Atualmente, o Porto Digital tem 17 startups de economia criativa incubadas. Tem o Projeto Porto Leve, que inclui compartilhamento de bicicletas, rotas de ônibus, estacionamento integrado. O Porto Mídia, que é uma comunidade de fazedores de conteúdos digitais e de mídia”, explicou Cavalcanti.


Um dos idealizadores do projeto do Porto, Guilherme Cavalcanti citou ainda Chico Science e o movimento manguebeat como exemplos de economias criativas na prática e que estão na essência do Porto Digital. “A letra da música ‘Da Lama ao Caos’ é inspiradora e está presente no conceito de fundação do Porto Digital. Queremos agora expandir esse projeto para a cidade de Recife inteira. O Porto Digital é fruto do amor que temos pelo Recife”, finalizou.


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