Centenário Teotônio Vilela
"Teotônio e as ruas", por Pedro Simon
Pedro Simon
Pedro Simon
28 de Maio de 2017
"Pedro, não vou esperar a morte. A morte vai me encontrar nas ruas, lutando". Este era o Teotônio, com sua garra, coragem e disposição, mesmo diante de um horizonte sem perspectivas. Esta frase traduz o homem que, abalado pelo câncer, percorreu o país inteiro em campanha pela Anistia, visitando presos políticos, denunciando o exagero das torturas que eram praticadas nas penitenciárias brasileiras e, por vezes, nos quartéis. Este era o político adorado pela juventude que lotava os auditórios nas universidades para ouvi-lo. Teotônio Vilela é, sem dúvidas, uma das figuras mais bonitas da história do Brasil.

Quando cheguei ao Senado, aquele que havia sido vice-governador em Alagoas pela Arena já se desiludia com o partido e, num primeiro momento, adotava uma posição de independência. Era uma época difícil, as pessoas tinham medo, a ditadura parecia que ia durar a vida toda, o governo radicalizava suas posições com mais perseguição e violência. Buscando seu caminho de liberdade e democracia, Teotônio deixa a Arena, vem para a oposição ao regime e sai pelo Brasil protestando e angariando apoios em todos os setores progressistas.

Deputada estadual Terezinha Irigaray, Pedro Simon e Teotônio ViilelaDenunciou o que chamava de "as quatro dívidas" - política, social, ética e de desenvolvimento - pregando a modificação radical da realidade brasileira. Naquela época, Teotônio já apontava a corrupção que vinha se estabelecendo e propunha uma Assembleia Nacional Constituinte, uma transformação geral.

A essa campanha, somou-se a Anistia. Diante de uma série de discussões acerca dos interesses dos cassados e daqueles que se posicionavam na linha de frente da luta política, Teotônio arregaçou as mangas e, em nome da liberdade, percorreu o país. Além da eloquência, sua figura também chamava muita atenção. O câncer o levou a algumas intervenções cirúrgicas, ele andava com duas bengalas e tinha o crânio raspado. Chegava às universidades de cadeira de rodas e ficava de pé no momento de discursar. Ali, parecia um gigante, chamando os jovens para a luta.

"Meus médicos me proíbem de estar aqui, eu deveria estar em hospitais especializados da Europa, onde os doentes podem esperar a morte com tranquilidade, sem dores. Mas o câncer não me impede de estar aqui", dizia ele. "E vocês, meus jovens? Vocês têm a mocidade, a garra, a vontade. Vamos tomar as ruas e vamos mudar o país!" Este era o Teotônio.

Difícil pensar em alguém que tanto se dedicou sem ambição política alguma, pois não seria candidato a nada. Um homem que lutou nas piores condições, mas que nos deixou uma grande chama de esperança: foi a partir de sua campanha pela Anistia que começamos também a espetacular caminhada pelas "Diretas", mostrando a todos que havia, sim, uma expectativa positiva.

A ditadura desapareceu, aquelas forças do mal se desintegraram. Temos a liberdade. E Teotônio, se aqui estivesse, certamente nos diria o que fazer com ela. Diria que esta é uma hora amarga, porém, importantíssima para o Brasil. Temos uma página em branco para escrever e precisamos de coragem para tal. O momento é ruim, mas temos a democracia.



(*) Professor, advogado, foi senador por quatro mandatos e governador do Rio Grande do Sul pelo PMDB

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