Centenário Teotônio Vilela
O valor dos princípios na política, por José Gregori
José Gregori
José Gregori
28 de Maio de 2017
A política é mutável. As suas realidades se configuram de um jeito pela manhã e, à tarde, tem um jeito completamente diferente. Um velho político mineiro comparou-as às nuvens: você as olha e tem um formato, depois de pouco tempo, olha de novo e mudaram de configuração. É nesse mundo mutante como um caleidoscópio que o político deve mover-se. E exatamente por isso é que o político, para não se tornar um joguete, deve ter princípios, valores e crenças que, apesar do fluxo incessante da política, o mantenha num rumo firme e coerente.

Estive com esses pensamentos quando recordei a trajetória de Teotônio Vilela. Experiente político alagoano, por razões que considerou respeitáveis para o seu mundo político regional, apoiou em 1964 o movimento dos militares que depôs o presidente de então, João Goulart. Não tenho dúvida que sua atitude de apoio ao movimento militar não teve outro interesse senão do que lhe pareceu necessário e inevitável, na crise de então: o bem do Brasil.

Vitorioso o movimento militar, dentro da nova ordem política estabelecida, os princípios, valores e crenças de Teotônio Vilela foram se desajustando, até que, de crítico constante do movimento, tornou-se dissidente. Cada vez elevando mais a voz, de dissidente tornou-se opositor.

As nuvens iam mudando de formato, mas os princípios, valores e crenças de Teotônio Vilela continuavam fixados em suas convicções. Entre o apoio ao movimento militar que ajudara e aquilo que pensava e acreditava, não hesitou. Lutou por eles e morreu como um dos mais respeitados campeões da redemocratização.

Era uma figura política com grande poder verbal, que exercia com contundência, não escondendo seus pensamentos. Empunhou a bandeira da Anistia desde a primeira hora, vendo nela um instrumento de reconciliação do Brasil partido pelo movimento militar.

Percorreu prisões, vendo a situação dos ex-políticos agora inimigos do regime militar; promoveu comícios, enfim, foi um dos dínamos da lei pela Anistia. Só mesmo um câncer avassalador interrompeu sua luta.

Fui testemunha do seu jeito desabrido e veemente de luta. Se não tivesse princípios, valores e crenças teria sido apenas um político nordestino a mais e não um dos símbolos históricos da redemocratização brasileira.

Muita coisa nesse país, especialmente na defesa dos direitos humanos, tem sido feita na inspiração do exemplo de Teotônio Vilela, mostrando que a política é móvel, mas o político, querendo e tendo princípios, valores e crenças, não acompanha as nuvens, mas sim as estrelas que estão fixas no seu lugar e iluminam a sua volta. Como Teotônio Vilela, estrela da Anistia brasileira.

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