Centenário Teotônio Vilela
Defesa da liberdade e atenção às mazelas sociais do Brasil pautaram trajetória política de Teotônio Vilela
31 de Maio de 2017
"Cabra, venha comigo que vou te mostrar uma coisa muito bonita", disse Teotônio Vilela a Carlos Marchi, em um dia que o jornalista circulava a toa pelo Congresso em busca de informações. Marchi seguiu Teotônio até o gabinete do então senador Pedro Simon - MDB, grande amigo de Teotônio, que tirou do bolso do paletó um gravador. "Da fita começou a brotar uma música, o Menestrel das Alagoas, que cantava com rara felicidade aquele personagem que eu até então não conseguia explicar. A música explicava por mim", lembra Marchi que, na época, tornou-se amigo do político e, recentemente, seu biógrafo. Jornalista e escritor, Carlos Marchi acaba de lançar, em meio as comemorações do centenário de nascimento do menestrel, o livro Senhor República: a vida aventurosa de Teotônio Vilela - um político honesto (Ed. Record, 448 pág., R$ 62,90).

Em entrevista ao ITV, Carlos Marchi explica sua atração pelo personagem, que suscitou a curiosidade de muitos outros jornalistas que cobriam o Congresso, por integrar a Arena, partido do governo militar, e defender a democracia. A inquietação com a particular figura de Teotônio e a amizade que travou com ele o levaram a escrever o livro. "Teotônio era um político diferente, que pensava com as ideias do que podemos chamar, grosso modo, de direita, mas que compreendia profundamente as raízes dos sentimentos, dos sofrimentos e das dores do que a gente entende por povo, porque ele vivia no meio desse povo", conta. Para Marchi, Teotônio Vilela era um verdadeiro humanista e foi esse sentimento que, na sua avaliação, o deslocou do eixo do governo para o partido da oposição, o MDB.

Na entrevista, o jornalista mostra como se deu essa conversão e o momento em que Teotônio Vilela começa a lutar pela democracia. Marchi destaca também iniciativas que consolidaram sua trajetória política na oposição, como a atuação na presidência da Comissão Mista da Anistia e a elaboração do "Projeto Brasil", documento que apontava os principais problemas socioeconômicos do Brasil e reunia as propostas do MDB, em contraponto às políticas do regime militar. Por fim, inicia-se o que Marchi define como a etapa de glória de Teotônio. "Abatido por um câncer, com dificuldade, se arrastando e morrendo de dores, ele viajou o Brasil, enquanto teve o mínimo de forças, pregando as eleições diretas", conclui.



"‘Pedro não vou esperar a morte. A morte vai me encontrar nas ruas, lutando.' Este era Teotônio, com sua garra, coragem e disposição, mesmo diante de um horizonte sem perspectivas", recorda Pedro Simon, ao homenagear o aniversário de seu amigo e parceiro político, que faria 100 anos, em 28 de maio. Em artigo escrito especialmente para o ITV, Simon, que foi governador e senador pelo PMDB gaúcho, lembra Teotônio como um homem que lutou nas piores condições, mas que nos deixou uma grande chama de esperança. "Foi a partir de sua campanha pela Anistia que começamos também a espetacular caminhada pelas ‘Diretas'. A ditadura desapareceu. Aquelas forças do mal se desintegraram. Temos a liberdade. E Teotônio, se aqui estivesse, certamente nos diria o que fazer com ela".



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