Centenário Teotônio Vilela
A inspiração de Teotônio Vilela, por José Aníbal
José Aníbal
José Aníbal
31 de Maio de 2017
Efemérides são oportunidades para se resgatar boas lembranças, aprender com a experiência do passado para não repetir erros no futuro e ensinar às novas gerações os valores que são permanentes e jamais devem ser esquecidos. Celebrar os 100 anos de nascimento do senador Teotônio Vilela, símbolo de uma luta movida pelo respeito à liberdade e pelo combate ao autoritarismo, serve de inspiração em encruzilhadas como a do Brasil de hoje: não pelo contexto, bastante diverso do que o visto nos estertores do regime ditatorial, mas pelo quanto precisamos da serenidade, firmeza e responsabilidade como as que moviam o Menestrel das Alagoas.

É impossível definir em uma única palavra este homem nascido em 28 de maio de 1917 que foi vaqueiro e industrial, orador de primeira linha e contador de causos, senador e vice-governador que fundou a UDN em Alagoas, passou pela Arena e encerrou a trajetória na política e na vida filiado ao MDB/PMDB. A história do apoiador do golpe militar de 1964 que se tornou o maior defensor da anistia política de 1979 soaria contraditória, não fossem as convicções e a coerência que o moveram nessa trilha.

Em ambos os momentos, Teotônio Vilela guiou-se pelo compromisso maior de defensor da liberdade e posicionou-se contra o que considerava autoritário e antidemocrático, seja vindo de civis, seja vindo de militares. Quem viveu aqueles tempos e os dias atuais aprendeu que a arbitrariedade tem múltiplas roupas e pode vestir terno, farda ou camiseta. Não agiu por mero impulso em nenhum momento: sempre soube iniciar as caminhadas ciente de quais seriam os passos seguintes. Ainda que a anistia aprovada não fosse de seu completo agrado, sabia ser a anistia possível, e que o almejado fim do autoritarismo viria conforme prosseguisse sua toada política em nome da volta da democracia e de um novo regime constitucional, condições fundamentais para o Brasil mais justo com o qual sempre sonhou.

Em uma de suas frases mais célebres, parte de um discurso de junho de 1979 relembrada no especial produzido pelo Instituto Teotônio Vilela, o senador recém-filiado ao MDB definia a "realidade brutal" da época como "carência generalizada, vai do feijão à Constituição". Passadas quase quatro décadas, a falta de comida no prato do brasileiro não é mais um problema crônico, ainda que a queda do emprego e a desigualdade de renda continuem como desafios não resolvidos, e desde 1988 temos uma Carta pautada pela cidadania, pelo respeito aos direitos civis, políticos e sociais de todos, embora a estridência dos que lhes viram as costas por conveniência e proselitismo ecoe até em ouvidos bem-intencionados, porém descuidados.

Sendo assim, por que ainda passamos por momentos agudos e incertos como os de hoje? Por que, a despeito dos avanços econômicos desde a concepção e implementação do Plano Real, da maturidade no trato com a coisa pública que pautou a Lei de Responsabilidade Fiscal, do combate às desigualdades iniciado pelo Bolsa Escola e consolidado pelo Bolsa Família, ainda enfrentamos resistências à óbvia necessidade de reformarmos o Estado e as regulações do mercado, a fim de criarmos condições para um crescimento econômico consistente e sustentável?

As forças do atraso, imiscuídas entre profetas do caos e vozes de mau agouro, são inegavelmente resistentes, mas precisam ser enfrentadas e derrotadas no legítimo embate político, regido pelas regras constitucionais. A exemplo do que fez Teotônio Vilela, diante das resistências à abertura defendida pelo próprio regime militar, é preciso perseverar com serenidade, firmeza e responsabilidade. O compromisso com a construção de um país menos desigual, com pleno respeito às leis, é a bússola que deve guiar a todos nos momentos mais difíceis. Soluções fáceis, como mostra a recente e histórica recessão, são inevitavelmente fadadas ao insucesso e deixam consequências ainda piores que a conjuntura inicial.

Serenidade significa ter plena consciência do que deve ser feito, sem açodamento nem voluntarismos de qualquer tipo. Firmeza é o que nos manterá unidos nos maiores infortúnios e fortes na hora em que for preciso agir em nome de um ideal. Responsabilidade é colocar o futuro do Brasil acima de quaisquer interesses, individuais ou de segmentos, e respeitar a Constituição, base de qualquer sociedade democrática. A conjunção desses valores é a chave para construirmos as soluções mais adequadas para as crises mais complexas.


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