Agricultura
“Agronegócio: âncora nacional”, por Xico Graziano
10 de Março de 2016

Antiga capital das pedras semipreciosas, o pequeno município de Cristalina (GO), situado a 131quilômetros de Brasília, trocou o garimpo pela agricultura irrigada – a maior área da América Latina – e expressa agora um exemplo da força que brota do campo. Sua grande vantagem reside na diversidade produtiva: soja, milho, café, batata, feijão, hortícolas, fruticultura, eucalipto, pecuária, dezenas de atividades se espalham em seus terrenos.


Quem conduz a moderna tecnologia empregada em Cristalina são jovens e arrojados agricultores, que vieram de longe para vencer a aridez do solo e garantir elevada produtividade quase o ano inteiro. O segredo da agricultura está na irrigação, incluindo aquela por gotejamento, servida apenas no pé das plantas: o uso racional da água é agenda obrigatória por lá.


Sorte dos trabalhadores: Cristalina se encontra entre os seis municípios goianos que mais criaram empregos em 2015. Segundo seu prefeito, Luiz Carlos Attié, decadente com a queda da mineração, até 2008 a taxa de desemprego chegava perto de 40%. Quando chegou o dinamismo das lavouras irrigadas, rapidamente tudo mudou. Afirma o IBGE (2015) que foram geradas 10.869 oportunidades de trabalho em Cristalina, sendo 7.402 delas voltadas ao setor de agronegócio.


Cristalina caminha na contramão da nossa crise econômica. Seu caso não é isolado. Noutros locais do país, a agropecuária está segurando a economia e o emprego. E no interior, todos sabem: quando a roça está aquecida, o comércio vende mais. Tudo se movimenta.


O agronegócio se tornou uma âncora sustentável da economia brasileira. Enquanto no ano passado o PIB nacional caiu 3,8%, o PIB da agropecuária cresceu 1,5%. O superávit agrícola da balança comercial somou US$ 75,15 bilhões; os demais setores da economia tiveram um déficit de US$ 55,47 bilhões. Conclusão: quem paga as contas das importações e aguenta o tranco na economia é o suor dos produtores rurais, somado à labuta dos empregados na indústria de transformação. Sem o vigor do campo, o Brasil estaria totalmente quebrado.


Há outra vantagem em Cristalina: além de grandes produtores, a cidade também promove centenas de pequenos agricultores. Existe espaço para todos. Com uma condição: o progresso exige entrar no ciclo da tecnologia e se integrar, de forma cooperativa, ao mercado, que compra qualidade.


Isolado e com baixa produtividade, ninguém mais sobrevive no campo. O associativismo é a porta de entrada para o sucesso no campo. Pequenos, quando se juntam, tornam-se fortes.


Noutro dia, o ex-ministro da Justiça José Gregori, sábio homem por essência moldado na urbe, me tomou o braço para confidenciar: “Xico, nesses tempos de crise generalizada, tenho ouvido muita gente falar bem da agricultura, elogiando o setor que você tanto defende”. Fiquei comovido. Ele arrematou: “Jamais vi isso ocorrer antes”. Nem eu.


Há tempos João Pedro Stédile, ideólogo mor do MST, repete a patacoada de que o modelo do agronegócio é inviável, socialmente injusto, baseado na monocultura, desempregador de pessoas, dominado pelas transnacionais, que visa apenas o mercado externo, enfim, um negócio do mal. Essa ideologia pseudoesquerdista, obscurantista, contamina vários setores da academia, que teimam em raciocinar com o passado, fechando os olhos ao novo mundo rural.


Valeria a pena ele fazer uma visita a Cristalina. Lá iria encontrar o oposto do que prega. Tomaria um banho de realidade. Se quisesse, acharia também um bom emprego. Faz bem trabalhar a favor do Brasil.

Xico Graziano é agrônomo e doutor em Administração.


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