Somos (quase) todos racionais
Yeda Crusius
Yeda Crusius
04 de Abril de 2017
As expressões no nosso cotidiano vão sendo criadas porque é necessário sempre uma novidade. Uma das últimas é pós-verdade, um novo conceito trazido por um autor que passou a vender muitos livros, ser citado em todo lugar, fazer muitas palestras, e entrar no mundo da mídia por ter criado essa expressão. Ela quer dizer o que tem acontecido no mundo das mídias, de face book a twitter passando por todas as outras redes sociais: quem quiser, inclusive jornalistas, publica qualquer coisa sem nenhum compromisso com a verdade do publicado. O seu post é retuitado, compartilhado, povoando as redes com algo que faltou verificar se faz sentido no mundo real. Essa coisa jogada no ventilador das redes é capaz de destruir reputações, induzir jovens ao suicídio, etc... O que foi escrito lá fica, inscrito na nuvem da internet, e as pessoas mais irresponsáveis não se preocupam em tentar confirmar os fatos ou mesmo depois de saber e dão os ombros para o desfazer o mal feito.

Então é isso: pós-verdade é intriga. Mentira. Fofoca. E fofoca sempre cavalgou no gosto do populacho, tem valor de mercado, vende audiência. No mundo da política, esse valor sempre existiu - afinal a política envolve poder e dinheiro - mas tem crescido mundo, ao ritmo das redes, e domina as mídias livres. A fofoca deste final de semana - capa e matéria da Veja da semana - promete repetir o que já aconteceu com os famosos dossiês, tipo "dossiê rosa", elaborados contra os poderosos de então do PSDB e logo provados falsos. Bandidos tentaram vender o dossiê, e foram pegos em flagrante. Até que assim provados, parecia que o mundo e o governo iam terminar.

Quando se abre o conjunto das informações sobre "o fato", sobre as pessoas envolvidas na divulgação da fofoca, elas vêm a público dar essas informações, se reestabelece o mundo da verdade. Assim fizeram Aécio Neves e Andreia Neves, expondo-se pessoalmente para denunciar a mentira. Mas sobra todo o lixo jogado sobre o leitor/telespectador/ouvinte, e o autor ou autores da fofoca já estão longe demais contado seu lucro para limpar a sujeira que criaram.

Quando se ocupa postos de poder não dá para responder a tudo. A "corte política" é um manancial de fofocas, um criadouro de cobras. Mas há inverdades que passam de todos os limites do aceitável, quando ditas por pessoas ou órgãos públicos como uma revista semanal. No meu caso, abri processo contra a Veja porque capa e matéria nada tinham a ver com a verdade, mas foram publicadas e venderam a rodo. Passaram de todos os limites na irresponsabilidade da acusação. Que estrago! Já ganhei o processo na primeira e na segunda instâncias. Sugiro que os acusados de hoje assim o façam, para que o mundo da pós-verdade perca para o da verdade provada. Um grande custo e uma trabalheira, mas precisamos que o façam. Senão, será de novo o fim da presunção de inocência e a vitória no campo jurídico do
hábito de o acusado ter que provar sua inocência, e não o acusador provar o crime.

(*) professora Universitária, economista, comunicadora, consultora. Ministra do Planejamento na administração Itamar Franco e ex-Governadora do Rio Grande do Sul, está no quarto mandato como Deputada Federal.

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