"O espírito de Kutuzov", por José Aníbal
José Aníbal
José Aníbal
02 de Setembro de 2015

Quando o Grande Exército entrou em Smolensk, em agosto de 1812, qual não foi a surpresa de Napoleão Bonaparte ao encontrar a cidade esvaziada e incendiada pelas próprias tropas russas. A ordem, que acabou virando método, partiu do marechal Kutuzov, velho teimoso e rabugento, que zombava de seus estrategistas e adormecia nas conferências de instrução na véspera da batalha.


Parece que o espírito de Kutuzov baixou no Planalto. Talvez já ciente de que ficou insustentável segurar sua cidadela política, Dilma resolveu atirar o país ao abismo. O ato sugere a política de terra-arrasada. Essa é a única explicação plausível para uma proposta de orçamento já parida deficitária -- justo em meio a um ajuste fiado na promessa de austeridade e de restauração da credibilidade.


Trocando em miúdos, o governo já sabe que o dinheiro não vai dar, mas mesmo assim assinou o cheque. Para quem estava até ontem de joelhos diante das agências de risco, prometendo tomar jeito, a medida soa como capitulação. Já que não pode vencer, Dilma ajuda a acabar de destruir. A disparada do dólar e a volatilidade dos mercados em relação ao Brasil falam por si.


O desmonte da estrutura que servia de contenção para o descrédito geral tem sido feito aos olhos de todos. Levy, antes o rosto capaz de tranquilizar os mercados, sofre seguidas humilhações públicas. O PMDB, que insistiu com Dilma por mais tempo do que se poderia imaginar, se enfileira ao lado dos céticos. Em campanha, e ignorando que Dilma ainda governa, Lula vai aos rincões contar suas velhas mentiras.


Não bastasse o suicídio político -- que começa no enxovalhar do PMDB e se completa com a bomba de impopularidade deixada no colo do Congresso, por meio do orçamento --, Dilma começa a executar a autodestruição econômica. A CPMF, rejeitada em uníssono pela sociedade brasileira, parece a ter libertado de qualquer outra obrigação. Como quem diz aos brasileiros golpeados pela recessão: “vocês não querem CPMF para pagar meus rombos, então lavo minhas mãos", Dilma deixa claro que, daqui por diante, não é mais problema dela.


Mas é dela sim. Tancredo Neves já vaticinava que a esperteza, quando é demais, acaba engolindo o esperto. De esperteza em esperteza, o governo Dilma ficou sem saída. Passou maquiagem nos indicadores, escondeu o problema, negou, mentiu e pedalou. Mesmo com todos os avisos dos pessimistas e "velhos do restelo", teve a cara de pau de dizer-se surpreendida após as eleições...


Como Kutuzov diante do flanco napoleônico, Dilma parece atear fogo ao que resta do bom nome econômico do país. Incapaz de dizer a verdade para seus eleitores e obcecada com a divisão do mundo entre "nós e eles", a presidente aparentemente se entregou à lógica segundo a qual destruindo o Brasil criará problemas para os que vierem depois. Há um cheiro de Nicolás Maduro no ar. Deus nos proteja.


(*) Presidente nacional do Instituto Teotônio Vilela e senador suplente pelo PSDB-SP. Foi deputado federal e presidente nacional do PSDB.

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